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Chapter 6: Primeiro Toque Roubado

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O ar da festa é uma parede de calor e som, pulsando com batidas eletrônicas que vibram no meu peito. Luzes estroboscópicas cortam a fumaça colorida, revelando rostos desconhecidos em flashes rápidos. Cada risada alta, cada copo tilintando, me afasta mais ainda da paz que eu buscava. Eu queria liberdade, mas esta universidade parece uma armadilha. Meus olhos varrem a sala, procurando um ponto de fuga, um rosto familiar. Não há. Sou um estranho no ninho, um calouro em meio a veteranos que parecem donos do lugar. Eu pego um copo de ponche de uma mesa mal iluminada, o líquido doce e pegajoso. O gosto é genérico, como a música. Ninguém me nota, o que é um alívio e uma pequena pontada de solidão ao mesmo tempo. Minhas mãos apertam o copo, a melancolia se instala. Tento me convencer de que estar invisível é a melhor estratégia. Misturar-me, desaparecer na massa. Minha camisa escura ajuda, camuflando-me contra as sombras do canto. Mas a sensação de estar exposto não se dissipa. — Você parece um fantasma, Gabriel. A voz de Lucas me puxa para fora dos meus pensamentos. Ele está ao meu lado, um sorriso fácil no rosto. Seus olhos escanam a multidão, sem a mesma tensão que sinto. Ele parece em casa aqui, ou pelo menos mais confortável que eu. — Só tentando absorver a atmosfera — eu respondo, tentando soar casual. A voz dele é um bem-vindo desvio da minha própria mente. Um alívio momentâneo. — Absorver? Parece mais que você está pronto para uma autópsia. Você está pálido. Eu dou um sorriso forçado. Ele não está errado. A festa, com toda a sua energia forçada, me drena. Eu não pertenço a este frenesi. Eu mal consigo respirar neste lugar. A cada segundo, sinto que o ar fica mais pesado, mais denso. — Apenas cansado. O dia foi longo. — Longo? Mal começou. Olhe em volta! A festa está bombando! — Ele gesticula com a mão, derrubando um pouco do seu próprio ponche no chão. Não parece se importar. Ninguém parece se importar. Eles estão ocupados demais no próprio transe. Eu desvio o olhar, seguindo a direção da mão dele. É aí que o vejo. Do outro lado do salão, perto do bar improvisado, Malik se destaca. Ele ri com seus dois gigantescos companheiros, a cabeça jogada para trás, os músculos do pescoço tensos sob a pele. Mesmo de longe, sua presença irradia poder. Ele usa uma camiseta preta justa, que mal contém seus bíceps. Os braços tatuados brilham sob as luzes coloridas. Ele é um predador em um rebanho de ovelhas. E eu sou a ovelha marcada. Nossos olhos se encontram. Mesmo com a distância, o barulho e a multidão, seu olhar me atinge com a força de um soco. É possessivo, predatório. Um aviso. Ele não sorri mais. O riso morreu em seus lábios. Seus companheiros param de rir também. Eles parecem seguir a mudança de humor de Malik como cães leais. Eu sinto um arrepio percorrer minha espinha, ignorando o calor do ambiente. Meu corpo reage antes que minha mente possa processar. É uma ameaça silenciosa, mas tão clara quanto um grito. Eu viro as costas para ele, para o olhar dele, fingindo interesse em um pôster desbotado na parede. Mas sei que é inútil. O calor de seu olhar queima minha nuca. Não há como me esconder. Não há como fugir. Ele me viu. E isso é o suficiente para arruinar qualquer tentativa de paz que eu estivesse procurando. — Você está olhando para quem? — Lucas pergunta, seguindo meu olhar disfarçado. Ele não parece notar Malik, ou talvez esteja acostumado com a aura intimidadora que o cerca. — Ninguém. Apenas... observando. O que mais um calouro faria? — Minha voz é mais áspera do que eu pretendia. Eu me viro para Lucas, forçando um sorriso que não alcança meus olhos. Preciso parecer normal. Normal, o que significa não ser o alvo de Malik. Ele dá de ombros. — É verdade. Mas cuidado, observar demais pode te colocar em problemas. Especialmente com os veteranos certos. Eles não gostam de se sentir observados. Malik, por exemplo. Malik. O nome paira no ar como uma névoa tóxica. Lucas mencioná-lo é como acender uma luz na escuridão. Não é uma coincidência. Ele sabe. Todos sabem. Todos o temem. Eu sinto meu estômago revirar. O ponche agora parece chumbo. Meus dedos apertam o copo com mais força. Malik é a tempestade que eu tentei evitar. E ele está vindo. — Por que Malik? — eu pergunto, tentando manter a voz estável, mas o som sai como um sussurro. Não quero chamar atenção. Não quero que Malik ouça seu nome sendo falado. Não quero provocá-lo. — Ah, Malik. Ele é o rei da selva aqui. E não gosta quando alguém pisa no território dele. Especialmente se for um calouro bonito como você. Ele tem um cheiro para isso. Cheiro de inocência, talvez. Ou de desafio. Você não o desafiou na cafeteria? Todo mundo comenta. Meu coração falha uma batida. As palavras de Lucas me atingem como pedras. A fofoca se espalhou mais rápido do que imaginei. Eu não sou apenas uma ovelha; sou a ovelha que mordeu o pastor. O desafio não foi planejado, mas minha recusa em me curvar é um fato. E Malik não perdoa fatos. Eu sinto o calor do olhar dele de novo, mesmo sem olhar para trás. Ele está vindo. Eu sei. A antecipação do confronto é quase tão ruim quanto o confronto em si. É um jogo cruel, e eu sou a peça. Eu me viro para a multidão, meus olhos procurando Malik de novo, e ele está mais perto. Muito mais perto. Ele se move através da massa, um tubarão entre peixes pequenos, abrindo caminho com uma facilidade assustadora. As pessoas se afastam dele, inconscientemente ou não. Seus companheiros o seguem, como sombras, protegendo suas costas. É uma caçada. E eu sou a presa. A música ainda pulsa, mas para mim, é apenas um ruído de fundo, abafado pelo batimento acelerado do meu próprio coração. Minhas mãos suam, o copo de ponche escorrega em meus dedos. Eu preciso sair daqui. Agora. — Lucas, eu preciso de um ar. Eu já volto. — Eu me viro para ele, minha voz é um fio fino, trêmulo. Eu não o espero responder. Preciso escapar. Preciso me mover. Mas para onde? A festa é um labirinto, e Malik é o minotauro. Eu me misturo de novo na multidão, tentando usar os corpos como escudo. Eu me movo para a direita, depois para a esquerda, zigzagueando entre os grupos de pessoas que dançam ou conversam. O calor da festa se torna opressivo, a cada passo, sinto que o ar diminui. Estou correndo, mas não há para onde ir. Cada rosto que encontro é um borrão, cada voz é um zumbido indistinto. Eu sinto a adrenalina bombear em minhas veias, meu corpo em modo de luta ou fuga. Mas eu não consigo lutar contra isso. Nem fugir. Então, de repente, o som da música parece diminuir, as luzes se atenuam. Eu sou empurrado para um canto escuro, atrás de uma pilha de caixas de som e uma cortina pesada. O cheiro de poeira e suor me atinge. É um beco sem saída. Meus olhos se ajustam à penumbra, e a silhueta alta e imponente de Malik se materializa à minha frente. Ele me bloqueia. Ele me encurralou. Meu coração dá um salto, atingindo minhas costelas com força. O medo se mistura com uma raiva familiar. A sensação de ser encurralado, de ter minha autonomia roubada, me acende. Eu não sou um animal. Não vou reagir como um animal. — Tentando fugir, gatinho? — A voz de Malik é baixa, rouca, mas carregada de uma satisfação cruel. Ele se inclina, a proximidade é sufocante. Eu posso sentir o calor do seu corpo, o cheiro de suor e um perfume amadeirado que é distintamente dele. Seus olhos, mesmo na penumbra, brilham com uma intensidade predatória. Ele se diverte. Eu sou a caça, e ele é o caçador. Ele levanta uma mão, não para me tocar, mas para escorar na parede ao lado da minha cabeça, prendendo-me completamente. O gesto é de pura dominação. Ele sorri, um sorriso lento e ameaçador que não alcança seus olhos. Não há nada de divertido naquele sorriso. É um aviso. Uma promessa. — Eu não sou seu gatinho, Malik. — Minha voz é um pouco trêmula, mas eu a mantenho firme. Eu não vou ceder. Não vou mostrar fraqueza. Eu encaro seus olhos, recusando-me a desviar o olhar. A raiva me dá coragem. Não vou ser subjugado por ele. Não de novo. Não depois de tudo que passei para escapar do controle da minha tia. — Oh, você é. Você só não sabe disso ainda. — Ele inclina a cabeça, seus olhos percorrendo meu rosto, parando em meus lábios. Sua respiração quente toca minha pele. O ar se torna espesso, denso, quase impossível de respirar. Eu sinto uma pontada de pânico. O que ele vai fazer? Eu já sei. A tensão no ar é palpável. Seus olhos descem para minha boca de novo, o desejo ali é quase palpável. Não é um desejo suave. É faminto. E eu sou a refeição. — Não sou. E não vou ser. — Minha voz é um sussurro agora, meu peito apertado. Eu tento me afastar, empurrar contra a parede, mas não há para onde ir. Ele está muito perto. Sua presença é esmagadora. Ele é uma parede de músculos, uma montanha de dominação. Eu sinto o calor da sua pele irradiando para a minha, mesmo sem toque. É intoxicante e aterrorizante ao mesmo tempo. É um paradoxo que me confunde. Meus músculos se contraem. Eu estou pronto para empurrá-lo, para lutar, para gritar. Mas a voz não sai. É como se minha garganta tivesse se fechado. — Você vai aprender a ser. — Ele murmura, e antes que eu possa reagir, antes que eu possa sequer respirar, seus lábios se chocam contra os meus. Não é um beijo gentil. É um impacto. Brutal e possessivo. Meus olhos se arregalam em choque. Ele me força contra a parede fria, o braço que me prendia agora me aperta, me imobiliza. Sua mão livre se enrosca em meus cabelos, puxando minha cabeça para trás, aprofundando o beijo. Não há espaço para recusa, para negociação. É uma tomada. Uma invasão. Eu tento afastá-lo, minhas mãos batem em seu peito musculoso, mas ele é uma rocha. Ele não se move. Ele me domina. Eu sinto o gosto de ponche e dele. É um gosto amargo e doce ao mesmo tempo. Os lábios dele são quentes e exigentes. A sua língua força a passagem, e um gemido de repulsa escapa da minha garganta. É sujo. É errado. É tudo o que eu temia. Meu corpo se tenciona em cada fibra, resistindo, mas ele é mais forte. Muito mais forte. Eu sinto a umidade de seus lábios, a pressão de sua boca contra a minha. É repugnante. Eu deveria sentir apenas nojo. A raiva queima em mim. Mas então, algo inesperado acontece. Uma faísca. Um choque elétrico percorre minha espinha, um calor inegável se acende no meu baixo ventre. É rápido, fugaz, mas está ali. Uma traição do meu próprio corpo. Eu sinto um calor estranho subir pelo meu corpo, um arrepio que não é de frio. Minhas mãos, que antes o empurravam, agora se agarram à sua camisa, os dedos se apertando no tecido. O controle dele é avassalador. E, por um segundo terrível, eu me perco nele. Ele finalmente se afasta, a respiração pesada, seus olhos ardendo nos meus. Meus lábios latejam, inchados e sensíveis. Eu limpo a boca com a palma da mão, um gesto instintivo de repulsa, mas o gosto dele ainda está lá. A faísca ainda queima em mim, uma brasa vergonhosa. Eu sinto nojo de mim mesmo. Nojo por ter sentido qualquer coisa além de raiva. Nojo por meu corpo ter traído minha mente. Malik sorri, um sorriso presunçoso que me faz querer socá-lo. Ele viu. Ele sabe. Ele percebeu a minha reação, a minha pequena, imperceptível falha. Ele sabia que aconteceria. É isso que mais me irrita. A certeza dele. A certeza de que ele me afetaria de alguma forma. — Você gostou, não gostou? — Ele sussurra, a voz rouca, seus olhos fixos em meus lábios. É uma afirmação, não uma pergunta. Ele me lê como um livro aberto. Eu odeio isso. Odeio a forma como ele me faz sentir exposto, vulnerável. Como ele me desarma com tanta facilidade. O calor da festa agora parece um forno, abafando meu corpo. Eu sinto meus ombros tensos, meu maxilar cerrado. Eu o odeio por isso. Odeio-o mais do que nunca. Mas a faísca, a maldita faísca, ainda cintila em algum lugar dentro de mim. É um lembrete vergonhoso de que ele conseguiu penetrar minhas defesas. Ele se deleita com minha confusão. Ele se deleita em ter me dominado. Eu respiro fundo, tentando acalmar o batimento acelerado do meu coração. Preciso me recompor. Não posso deixá-lo ver o efeito que ele tem sobre mim. — Eu te odeio. — Eu sibilio, cada palavra carregada de veneno. A raiva é a única coisa que me mantém de pé, que me dá força para encará-lo. Eu me recuso a ser mais uma de suas vítimas. Eu me recuso a ser seu brinquedo. A raiva, ardente e furiosa, me dá o impulso de empurrá-lo de novo, com mais força desta vez. Mas ele não se move. Ele apenas ri. Um riso baixo e gutural que me faz tremer. Ele está se divertindo com a minha miséria. E isso me enoja ainda mais. — Não se preocupe, gatinho. O ódio é o primeiro passo. — Ele diz, se afastando um pouco, mas ainda perto demais. Ele não solta meu braço, seu polegar roça minha pele, um toque leve que me faz arrepiar. É um paradoxo insuportável. Minha pele reage a ele, mesmo quando minha mente grita para que eu o repela. Ele continua a me estudar, seus olhos fixos nos meus, como se estivesse tentando decifrar um enigma. E eu sou o enigma. Um enigma que ele parece determinado a resolver. A música da festa, antes abafada, agora volta com força total, um lembrete da multidão que está apenas a poucos metros de distância, alheia à minha provação. — O primeiro passo para o quê? Para fugir de você? — Eu zombo, tentando mascarar o tremor em minha voz. A faísca ainda está lá, um calor incômodo. Uma parte de mim quer lutar, quer revidar, quer gritar para que ele me deixe em paz. Mas outra parte, a parte que eu odeio, está paralisada. Paralisada por essa estranha eletricidade que ele despertou. É uma sensação horrível, a dualidade de repulsa e atração. Eu não deveria sentir isso. Eu não quero sentir isso. Eu sinto meus olhos marejarem, não de tristeza, mas de pura frustração e raiva. Ele conseguiu me quebrar, mesmo que por um instante. Ele conseguiu me atingir onde eu sou mais vulnerável: minha percepção de mim mesmo. E eu odeio-o por isso. Malik inclina a cabeça, um sorriso perigoso em seus lábios. — Para você se render. Todo mundo se rende, mais cedo ou mais tarde. — Ele solta meu braço, mas o olhar dele ainda me prende. É como se ele estivesse me desafiando, me provocando. Ele está esperando que eu caia. Esperando que eu me ajoelhe. Eu não vou. Não vou. Eu me recuso a ser dominado por ele. Não depois de tudo que eu passei para me libertar. Eu sinto uma pontada de pânico. Ele é uma ameaça real. Uma ameaça que vai me perseguir. Eu me viro para ir embora, para escapar, para respirar. Eu preciso de ar. Preciso de espaço. Preciso me afastar dele. Meus pés se movem sem que eu pense, meus olhos procurando uma saída, qualquer saída. Mas antes que eu possa dar mais um passo, uma brisa fria atinge minha nuca, e uma voz suave, perigosamente familiar, sussurra em meu ouvido. O som me faz arrepiar de uma maneira diferente. Meus lábios ainda latejam, e a voz de James sussurra,

End of Chapter 6