O sol da manhã queimava o campus, mas Gabriel sentia um frio persistente. Cada passo era uma lembrança do beijo forçado, da boca de Malik contra a sua, da repulsa e da faísca confusa que o havia atravessado. Tentou ignorar a sensação, focar nos livros de bioquímica que pesavam na mochila, mas era inútil. O aroma de café vindo da lanchonete o trazia de volta ao festival, à escuridão e ao cheiro amadeirado de Malik.
— Bom dia, Gabriel.
A voz de James era suave, quase um murmúrio, mas cortou o barulho dos estudantes como uma lâmina afiada. Gabriel se virou, encontrando James parado a poucos metros, encostado a uma das colunas de pedra do prédio de Artes. Ele não sorria, mas seus olhos, de um castanho intenso, brilhavam com uma inteligência que Gabriel já havia aprendido a temer.
— James.
Sua voz soou mais áspera do que pretendia. James endireitou-se, as mãos enfiadas nos bolsos da calça de sarja, com uma camisa de botões azul-marinho que acentuava seus ombros largos. Não havia nem um traço de suor, nem uma ruga no tecido, diferente do caos que Gabriel sentia por dentro.
— Vejo que sobreviveu à festa.
— Não foi exatamente uma festa, foi?
Gabriel apertou a alça da mochila. James deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles. O ar ficou pesado, carregado de uma tensão diferente daquela que Malik impunha. James não ameaçava com força bruta, mas com a quietude de um predador que avalia sua presa.
— Para alguns, é apenas o começo do jogo. Para outros, uma lição de como funciona o mundo aqui.
— E qual deles eu sou?
— Isso depende de você, Gabriel. E das suas escolhas. Vi o que aconteceu ontem.
James não precisou especificar. O silêncio entre eles falava mais alto que qualquer palavra. Gabriel sentiu o rosto esquentar. A ideia de que James o observava, que sabia daquele momento íntimo e violento, era humilhante.
— Você não parecia surpreso.
— Em um lugar como este, poucas coisas me surpreendem. Malik é previsível em sua possessividade.
— E você?
— Eu sou mais... sutil.
James deu um sorriso quase imperceptível, um movimento rápido dos lábios que não alcançou os olhos. Ele tirou as mãos dos bolsos, gesticulando levemente. Seu olhar percorreu Gabriel, demorando-se em seus lábios por um instante, antes de voltar para seus olhos. Era um olhar que parecia enxergar através de sua pele, direto para o seu desconforto.
— Que tal um jantar hoje à noite? No meu apartamento. Podemos conversar. Sem pressões, apenas... amigos.
Gabriel hesitou. A oferta era absurda, perigosa. Mas uma parte dele, uma parte curiosa e teimosa, sentiu-se puxada pela teia invisível que James tecia. Ele queria entender. Queria saber o que esses dois veteranos queriam dele. E talvez, apenas talvez, encontrar uma brecha para sua própria liberdade. A atração era inegável, uma corrente elétrica que ele tentava ignorar.
— Jantar? Por quê?
— Para te dar uma perspectiva. Para te mostrar que nem tudo é como parece. E para que você veja a diferença entre o que Malik oferece e o que eu posso te dar.
O ar vibrava com a proposta não dita. James não falava de proteção, mas de algo mais profundo, mais enraizado. Gabriel sentiu um arrepio. A ideia de entrar no espaço pessoal de James, no covil de um manipulador tão calculado, era assustadora. Mas o que ele tinha a perder? Já estava encurralado. Pelo menos, com James, a armadilha parecia revestida de veludo, não de arame farpado como a de Malik.
— E se eu disser não?
— Então você continuará à mercê dos impulsos de Malik. E da curiosidade de outros. Você não pode se esconder para sempre, Gabriel. Mais cedo ou mais tarde, terá que escolher.
James não parecia chateado com a resistência, mas sim entretido. Seus olhos esquadrinhavam Gabriel como se estivessem lendo as páginas mais ocultas de sua mente. Gabriel sentiu a pressão, a necessidade de tomar uma decisão, mas a decisão parecia já ter sido tomada por ele no instante em que o convite foi feito. Havia uma atração mórbida, um desejo de testar os limites, de ver até onde James iria.
— Às oito. Te mando o endereço por mensagem. Pense nisso como uma oportunidade, Gabriel. Não como uma armadilha.
James se afastou, deixando Gabriel sozinho novamente no meio do burburinho do campus, com a oferta ecoando em sua mente. A curiosidade era uma força poderosa. Era um veneno doce, e Gabriel já sentia o gosto em sua língua. Ele sabia que estava se jogando em um jogo que não entendia, mas a alternativa – a passividade – era inaceitável. O beijo de Malik ainda queimava em seus lábios, uma lembrança constante do que a submissão poderia significar. James, por outro lado, oferecia um controle diferente, mais sutil, mais intelectual. E isso, de alguma forma, era ainda mais perigoso. Gabriel pegou o celular e digitou uma resposta curta, sentindo a ponta dos dedos formigarem.
— Ok.
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O sol já havia se posto quando Gabriel chegou ao endereço enviado por James. Era um prédio moderno, de janelas espelhadas, a alguns quarteirões da universidade. O tipo de lugar que gritava “dinheiro”. A portaria era de mármore e vidro, com um porteiro uniformizado que o cumprimentou com um aceno polido. Gabriel sentiu um nó no estômago. Isso era muito diferente de seu dormitório apertado e da lanchonete barulhenta.
O elevador o levou ao quinto andar em segundos. A porta do apartamento de James já estava entreaberta quando ele se aproximou, um convite silencioso. Ele empurrou a porta de madeira escura e entrou. O ambiente era espaçoso, iluminado por luminárias discretas que projetavam uma luz âmbar, quente e convidativa. Um cheiro suave de sândalo e algo cítrico pairava no ar.
— Chegou na hora certa.
A voz de James veio da cozinha aberta. Ele estava de costas para Gabriel, mexendo em uma panela fumegante no fogão de indução. Usava uma camiseta de algodão preta que marcava seus braços e jeans que caíam perfeitamente. Parecia relaxado, domesticado, mas Gabriel sabia que aquilo era apenas uma fachada. Uma ilusão cuidadosamente construída.
— O cheiro está bom.
Gabriel se viu respondendo automaticamente, a voz um pouco mais alta do que o normal no silêncio do apartamento. Havia uma estante cheia de livros de capa dura e objetos de arte abstrata. Uma poltrona de couro escuro convidava ao descanso. Tudo ali parecia feito para impressionar, para acalmar os nervos e, ao mesmo tempo, deixar claro quem era o anfitrião.
— Estou fazendo um curry tailandês. Espero que goste de pimenta.
James se virou, um sorriso genuíno agora em seus lábios, diferente do de mais cedo. Ele parecia contente, quase feliz. Gabriel sentiu um calafrio. Essa versão de James era ainda mais desconcertante. O inimigo conhecido era sempre menos assustador do que o que se disfarçava de amigo.
— Gosto. Se for a pimenta certa.
— Tenho certeza de que sim. Venha, sente-se. Fique à vontade.
James gesticulou para um conjunto de cadeiras altas ao redor de uma ilha de cozinha de granito. Gabriel se sentou, observando James com a curiosidade acesa. Ele parecia estar no controle absoluto de cada detalhe, desde a música baixa de jazz que preenchia o ambiente até a forma como a luz refletia em seus cabelos escuros. Era tudo uma coreografia perfeita.
— Então, Gabriel, conte-me. Além de ser um calouro rebelde, o que mais você esconde?
James o encarou por cima do ombro, enquanto servia o curry em dois pratos de cerâmica. A pergunta pegou Gabriel de surpresa. Não era uma ameaça, mas uma investigação suave, disfarçada de conversa casual. Ele sentiu a barreira que mantinha ao redor de si vibrar, testada. James queria mais do que apenas conversar sobre a universidade. Ele queria abrir a caixa de Gabriel.
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O curry era delicioso, a pimenta exata, como James prometera. Eles comeram em silêncio por alguns minutos, o som suave dos talheres na cerâmica preenchendo o espaço. Gabriel relaxou um pouco, o calor da comida e a atmosfera tranquila começaram a desarmá-lo. James não forçou a conversa, apenas o observou com um olhar perspicaz.
— Você não respondeu à minha pergunta.
James finalmente quebrou o silêncio, empurrando o prato vazio para o lado. Pegou uma garrafa de vinho branco e serviu duas taças. Gabriel observou, sentindo-se cada vez mais emaranhado na teia do mais velho. Aquele jantar não era sobre comida, mas sobre acesso.
— Não há nada a esconder. Apenas um calouro que quer estudar e ter sua liberdade.
— Liberdade. Uma palavra tão interessante. Muitos a confundem com ausência de controle. Mas a verdadeira liberdade, Gabriel, é ter o poder de escolher quem te controla.
James o encarou, a taça de vinho em sua mão, os olhos fixos nos de Gabriel. A intensidade de seu olhar era quase palpável. Gabriel sentiu um arrepio. James não estava oferecendo uma fuga, mas uma troca de algemas. E a ideia, por mais assustadora que fosse, continha uma ponta de sedução.
— E você me oferece qual controle?
— Eu te ofereço uma aliança. Uma proteção. Eu posso te ensinar a navegar por este lugar sem ser devorado. Malik é um predador, sim. Mas ele é um predador de instinto. Eu sou um predador de mente. E na selva da universidade, a mente é sempre mais afiada que a força.
James se inclinou para a frente, o cotovelo apoiado na ilha. Seu rosto estava próximo o suficiente para que Gabriel notasse a sutil cicatriz na sobrancelha direita, quase imperceptível. O perfume de sândalo ficou mais forte. A proximidade era invasiva, mas também estranhamente convidativa. Gabriel sentiu uma atração perigosa, uma curiosidade quase insana em saber o quão fundo James conseguia ver.
— E o que eu ganho com isso?
— Respeito. Um caminho mais fácil. E a certeza de que Malik não vai te tocar novamente, a menos que eu permita.
A última frase foi dita com uma calma assustadora, uma possessividade velada que lembrava a de Malik, mas era mil vezes mais calculada. Gabriel sentiu um calafrio percorrer sua espinha. James não estava pedindo, estava afirmando. Ele estava marcando seu território, não com brutalidade, mas com uma autoridade silenciosa e inquestionável. Ele era o mestre do jogo, e Gabriel, a peça que ele desejava mover.
— Eu não sou um boneco para ser movido por ninguém.
— Ninguém disse que você é um boneco. Você é um jogador. Um novato, sim, mas com potencial. E eu, Gabriel, adoro ensinar aos novatos as regras do jogo. Especialmente quando eles são tão... desafiadores.
James sorriu, e desta vez o sorriso alcançou seus olhos, um brilho de algo predatório e divertido. Gabriel sentiu a armadilha se fechar, não com um estalo, mas com um suave encaixe. Ele estava fascinado, aterrorizado e, para seu desgosto, atraído pela promessa de poder que James personificava. A dança deles estava apenas começando, e Gabriel sabia que James já havia calculado cada passo.
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O ambiente íntimo do apartamento de James começava a se tornar opressor. Gabriel sentia cada palavra, cada olhar, como uma corda apertando-o lentamente. James continuou a falar, não sobre a universidade, mas sobre a vida, sobre poder, sobre as escolhas que se fazem para sobreviver em um mundo que não se importa com a liberdade individual.
— Você tem um espírito forte, Gabriel. Isso é raro. E perigoso. Pode te quebrar ou te tornar invencível. Depende de quem te orienta.
James se levantou, andando até a janela que oferecia uma vista deslumbrante da cidade iluminada. A silhueta dele contra as luzes parecia a de um arquiteto, planejando cada movimento do mundo lá fora. Gabriel sentiu uma onda de tontura. Malik usava a força para subjugar, James usava a mente, a sedução. E a sedução era muito mais difícil de combater.
— Minha orientação é minha própria.
— Por enquanto. Mas o mundo tem uma forma de moldar até os mais teimosos. Pense em Malik. Ele é uma força bruta, sim. Mas ele é também um instrumento. Alguém o guia. Alguém o direciona.
Gabriel franziu a testa. A implicação era clara: James não via Malik como um adversário igual, mas como uma ferramenta. Isso tornava James ainda mais assustador. Ele não estava apenas disputando Gabriel; ele estava jogando um jogo muito maior, onde Malik era apenas uma peça.
— Você e Malik... são rivais ou aliados?
James se virou, um sorriso enigmático nos lábios. Ele se aproximou novamente, parando a poucos centímetros de Gabriel. O perfume de sândalo e a energia controlada dele envolviam Gabriel. Era como estar perto de uma tempestade perfeita, bela e destrutiva.
— É complicado. Mas o que importa é que eu te protejo do lado mais... selvagem dele. E te ensino a sobreviver ao lado mais... civilizado. Você precisa de ambos para entender este lugar.
O beijo de Malik, brutal e inesperadamente quente, reverberou na mente de Gabriel. A faísca confusa, a repulsa e a atração. James não impunha tal violência, mas a ameaça de seu controle era muito mais profunda, mais insidiosa. Ele não queria apenas o corpo de Gabriel, mas sua mente, sua lealdade, sua própria vontade. E isso era um terror diferente, mais frio e calculado.
— Você não me protege. Você me prende.
— E o que é a liberdade, senão uma prisão maior, onde você é o único carcereiro? Eu te ofereço uma cela dourada, Gabriel. Com vista para o mundo. E as chaves, bem, as chaves estarão sempre comigo.
James estendeu a mão, oferecendo a taça de vinho quase cheia. Gabriel a pegou, os dedos roçando os de James. Um choque elétrico. James sorriu, um triunfo silencioso em seus olhos. Gabriel sabia que, de alguma forma, ele havia acabado de aceitar um novo acordo, uma nova forma de cativeiro. A luta pela autonomia parecia cada vez mais uma batalha perdida.
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O relógio na torre da universidade marcava quase uma da manhã quando Gabriel finalmente saiu do apartamento de James. O ar noturno estava fresco, mas ele sentia um calor estranho no corpo, uma exaustão que não era física. As palavras de James ecoavam em sua mente, suas promessas de controle sutil, suas ameaças veladas. Ele se sentia esvaziado, mas também estranhamente atento, como se cada sentido estivesse em alerta máximo.
A caminhada de volta ao dormitório foi longa, pontuada por luzes de postes e sombras dançantes. Cada sombra parecia abrigar um observador, cada barulho distante um sinal de perigo. Ele estava paranoico, sabia disso, mas a sensação de estar sob vigilância, de ser uma peça em um jogo que não compreendia, era quase insuportável. James era um mestre da manipulação, e Gabriel sentiu que tinha acabado de receber uma aula particular de como um predador elegante caça sua presa.
Chegou ao seu andar, o corredor estava silencioso e escuro. Enfiou a chave na fechadura, girou, e a porta rangeu levemente ao se abrir. O dormitório estava como ele o deixara, bagunçado, com livros e cadernos espalhados. Mas algo estava diferente. Uma cor que não pertencia ali. Uma cor vibrante, solitária, sobre o cobertor amassado de sua cama.
Ele deu um passo à frente, o coração batendo forte no peito. Era uma única rosa vermelha. Perfeita, com as pétalas aveludadas e a cor profunda. Não havia espinhos no caule, apenas a promessa suave de sua beleza. Ao lado dela, um cartão pequeno, de papel creme, com uma caligrafia elegante e precisa. As letras pareciam dançar na luz fraca do abajur.
Gabriel pegou o cartão, os dedos tremendo levemente. A mensagem era curta, mas sua intenção era cristalina. Uma frase. Uma assinatura. Um lembrete sombrio de que o jogo não tinha limites, nem mesmo as paredes de seu quarto.
'Este é apenas o começo. J.'