Chapter 5 of 30

A Armadilha do Festival

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O convite para o Festival de Boas-Vindas não era um convite. Gabriel o lia novamente, o papel oficial do grêmio estudantil na mão, as palavras “presença obrigatória” ecoando como uma sentença. Não havia liberdade ali, apenas mais uma imposição, outra corda apertando. A foto de James e Malik, com seus sorrisos predatórios, ainda queimava em sua memória. Eles sabiam, eles viam tudo. Ele jogou o papel amassado sobre a escrivaninha. Seu quarto parecia um refúgio cada vez mais frágil. Lá fora, o campus burburinhava com a expectativa da festa. Ele ouvia risadas abafadas, a música distante, um lembrete constante do mundo para o qual ele não queria ir, mas era obrigado. —Ótimo, mais uma arena para a caça, —ele murmurou para o próprio reflexo no espelho. Seus olhos tinham uma sombra de cansaço que não estava ali no início do semestre. Ele vestiu uma camiseta cinza surrada, jeans escuros. Uma tentativa fútil de se tornar invisível, de não se destacar na multidão de calouros ansiosos. Ele calçou seus tênis velhos. A ideia de se arrumar para um evento que ele detestava parecia uma rendição. Cada peça de roupa que ele escolhia era um pequeno ato de desafio, ou talvez apenas de resignação. Ele não queria dar a eles a satisfação de vê-lo tentar se encaixar. Sua mãe enviara uma mensagem de novo. Uma lista de conselhos sobre como se integrar, como fazer amigos, como aproveitar a “experiência universitária”. Ele não a abriu. Era sempre o mesmo, um manual de controle, disfarçado de carinho. Ela nunca entendeu que o que ele queria era apenas ser deixado em paz. O som da música ficava mais alto à medida que ele se aproximava do pátio central. Luzes coloridas piscavam em árvores e barracas improvisadas. Calouros riam, bebiam, alguns já dançavam desajeitadamente. Era um mar de rostos desconhecidos, um campo minado. Ele se misturou à beira da multidão, a mão no bolso, o celular pesado contra a coxa. Observava, analisava, buscando uma saída, um ponto cego. A ansiedade arranhava sua garganta. Ele tentou focar na música, no cheiro doce de algodão doce e cerveja barata, em qualquer coisa que não fosse a sensação de estar exposto. --- Um braço musculoso de repente pousou em seu ombro, fazendo-o enrijecer. O cheiro de colônia forte e tabaco. Gabriel não precisava olhar para saber. O pânico gelou suas veias, mas ele se forçou a manter a expressão neutra. Ele virou a cabeça devagar. Malik sorria, um sorriso que não alcançava seus olhos escuros. —Ora, ora, o novato rebelde resolveu dar as caras, —Malik disse, a voz rouca, perto demais do seu ouvido. Os dois capangas de Malik estavam logo atrás, formando uma barreira discreta que o separava da multidão. Gabriel não respondeu. A irritação subiu por sua espinha, quente e incontrolável. Ele sentia o peso do olhar de Malik, a pressão do braço no ombro. Era como se tentasse esmagá-lo sem sequer fazer força. —Não vai me dar as boas-vindas, Gabriel? —Malik pressionou, o polegar esfregando a pele do pescoço de Gabriel. Um gesto possessivo, íntimo demais para o ambiente barulhento do festival. —Não vejo por que deveria, —Gabriel retrucou, a voz mais firme do que esperava. Seu corpo, porém, tremia ligeiramente. Ele odiava a sensação de ser encurralado, a memória de outras vezes, outros olhares, outros toques indesejados. Malik riu, um som seco e baixo. —Que corajoso. Eu adoro brincar com o que é meu, sabia? E você, Gabriel, é uma diversão e tanto. —Ele apertou o ombro de Gabriel com mais força, quase como um aviso. —Eu não sou seu, —Gabriel sibilou, os dentes cerrados. Ele tentou se afastar, mas o aperto de Malik era de aço. Os olhos dos capangas pareciam divertidos, cúmplices da humilhação. Ele se sentia como um rato na jaula, observados por gatos. —Você ainda não entendeu as regras deste lugar, não é? —Malik inclinou a cabeça, o sorriso se alargando. —Aqui, todo mundo pertence a alguém. E você, meu caro, já tem um dono. —Ele deslizou a mão do ombro para o cabelo de Gabriel, puxando levemente. A raiva explodiu dentro de Gabriel. A familiar sensação de ser tratado como um objeto. Ele pensou em empurrar Malik, em gritar, mas sabia que isso só alimentaria o jogo. Precisava manter a calma, respirar. Não dar a eles o que queriam. —Você se engana, —Gabriel disse, forçando um tom de desinteresse. —Eu não pertenço a ninguém. Nunca. —Ele tentou desviar o olhar, mas Malik o prendeu com o seu. —Veremos, novato. Veremos, —Malik sussurrou, a voz carregada de ameaça. O som da bateria da banda de rock no palco parecia abafar suas palavras, mas Gabriel as ouviu perfeitamente. Ele sentiu o suor frio escorrer pelas costas. --- —Malik, não assuste os calouros tão cedo. Eles ainda precisam aproveitar a festa, —uma voz suave e melodiosa cortou o ar. James apareceu do nada, deslizando entre os capangas de Malik com uma naturalidade impressionante. Ele tinha um sorriso acolhedor no rosto, mas seus olhos brilhavam com uma astúcia que Gabriel já reconhecia. Malik soltou Gabriel, a expressão endurecendo ligeiramente. Os dois trocaram um olhar rápido, indecifrável para Gabriel. Era uma tensão quase palpável, como dois predadores avaliando um ao outro. —James. O que faz aqui? —Malik perguntou, a voz menos relaxada agora. —Apenas cumprimentando os novos rostos. E protegendo os inocentes dos lobos velhos, —James respondeu, o sorriso direcionado a Gabriel agora. Ele tocou levemente o cotovelo de Gabriel, um toque que parecia protetor, mas também firmemente possessivo. —Vem, Gabriel. Malik tem suas próprias diversões. Você deve estar morrendo de fome. Gabriel hesitou. A mão de James em seu cotovelo era quente, diferente do aperto frio de Malik. Ele se sentia puxado em duas direções opostas. A proposta de James era sedutora: uma saída da situação sufocante com Malik. Mas ele se lembrava do aviso de James sobre lealdade. Uma nova armadilha. —Eu estou bem, —Gabriel tentou dizer, olhando para Malik. Ele não queria dar a James a vitória de tirá-lo dali, nem a Malik a satisfação de vê-lo aceitar ajuda. Ele queria fugir de ambos. —Não seja bobo. Você parece um fantasma, —James retrucou, o tom carinhoso, quase de irmão mais velho. Ele já o estava arrastando, sutilmente, para longe do grupo de Malik. —Vou te apresentar à melhor barraca de comida. A fila é sempre enorme, mas tenho meus truques. Malik observava, os braços cruzados sobre o peito. Seus olhos seguiam Gabriel e James enquanto se afastavam. Não havia raiva explícita, mas um brilho de possessividade ainda persistia. Parecia que ele estava apenas esperando seu momento, como um observador astuto. —Não se preocupe com ele, —James disse, baixando a voz assim que estavam a alguns metros. —Ele adora um bom show. E você, meu caro, é a estrela do momento. —Ele riu suavemente. —Mas uma estrela precisa de um bom empresário, não é? Gabriel puxou o cotovelo de volta, libertando-se do toque de James. —Eu não preciso de empresário. Eu preciso que vocês me deixem em paz. —A frustração era um nó em sua garganta, apertando-o. —Liberdade é uma ilusão, Gabriel. Já te disse isso, —James respondeu, o sorriso não vacilando. —Você está aqui há pouco tempo, mas já se viu no centro da tempestade. Não acha que seria mais inteligente ter um guarda-chuva? --- Gabriel se viu parado entre James e o rescaldo da presença de Malik, a tensão entre os dois pairando sobre ele como uma nuvem carregada. James continuava a falar, sua voz suave, mas cada palavra era uma teia sutil que ele tentava tecer ao redor de Gabriel. —Malik é um predador previsível. Ele gosta de quebrar o que é novo e brilhante, —James disse, com um tom quase confidencial. —Mas há outras maneiras de jogar. Mais inteligentes. —Ele deu um passo mais perto, diminuindo a distância entre eles. Gabriel recuou um passo, a cada palavra de James sentindo-se mais preso. Ele olhou por cima do ombro, os olhos de Malik ainda fixos nele à distância, como um farol sombrio. Ele era a presa, e ambos os caçadores o queriam. —Eu não quero jogar, —Gabriel rebateu, a voz carregada de uma exaustão que ele tentava esconder. —Eu só quero viver minha vida, estudar. É por isso que vim para cá. James riu, um som sem humor. —Oh, Gabriel. Quão ingênuo. A universidade é o maior jogo de todos. Poder, influência, desejos escondidos. Você acha que pode simplesmente se sentar e observar? Não quando você já chamou a atenção dos jogadores mais perigosos. —Vocês estão me transformando em um brinquedo, —Gabriel acusou, a raiva fervendo. Ele via os sorrisos sádicos na foto, a colaboração implícita. Eles se divertiam com sua miséria, com sua luta pela autonomia. —Um brinquedo? Que palavra forte, —James disse, fingindo ofensa. —Eu diria que estamos oferecendo opções. Proteção. Um atalho para o sucesso. Malik oferece... bem, Malik oferece o que Malik sempre oferece. Dor e submissão. —Ele ergueu uma sobrancelha, esperando a reação de Gabriel. Gabriel sentia o nó em seu estômago apertar. A escolha parecia ser entre ser devorado por um leão ou por uma cobra. Ambas as opções o levariam a perder o controle, a entregar sua liberdade. A lembrança de sua tia Clara, com sua rede de obrigações e chantagens emocionais, surgiu forte em sua mente. —E o que você ganha com isso? —Gabriel perguntou, desconfiado. Não havia bondade real nos olhos de James, apenas cálculo. Não havia liberdade em suas ofertas, apenas uma troca de correntes. James sorriu, um sorriso que prometia segredos e perigo. —Ah, Gabriel. Essa é a pergunta errada. A pergunta certa é: o que *você* ganha? E o que *você* está disposto a dar para ter isso? —Ele estendeu a mão, como se oferecesse algo invisível. —Pense nisso. Eu sou a saída mais fácil. Malik é a porta para o inferno. Escolha sabiamente. Gabriel ignorou a mão estendida. Ele sentiu o peso de ambos os olhares, o de James, esperando, e o de Malik, observando de longe. O festival, com suas luzes e risadas, parecia uma cortina de fumaça para o campo de batalha em que ele havia se tornado. --- Gabriel conseguiu se desvencilhar de James, usando a desculpa de precisar de um copo d’água. Ele se afastou da multidão principal, buscando a relativa calma de uma área menos iluminada perto dos banheiros. O ar parecia mais fino ali. Ele encostou-se a uma parede fria de tijolos, tentando respirar fundo, acalmar o batimento acelerado do coração. O som da música ainda ressoava, mas parecia distante, abafado por seu próprio turbilhão de pensamentos. A frustração era um gosto amargo em sua boca. Ele não havia vindo para a universidade para se tornar um peão em um jogo de poder. Ele queria ser invisível, livre. Ele tirou o celular do bolso, a tela acendendo no escuro. Nenhuma mensagem da mãe. Nenhuma mensagem de Lucas. Apenas o vazio da caixa de entrada, refletindo a solidão que sentia. Ele rolou os olhos pelas fotos que tinha, tentando encontrar alguma normalidade, alguma âncora. De repente, o celular vibrou. Uma notificação de uma mensagem. O número era desconhecido. Ele hesitou por um segundo, o pressentimento ruim já se instalando. A foto. Como ela havia chegado ao seu quarto? Quem mais estava observando? Ele clicou na mensagem. As palavras apareceram, nítidas e ameaçadoras, na tela brilhante. Era como se o próprio festival tivesse parado, e apenas aquelas letras existissem no mundo. O queixo de Gabriel travou. Uma sensação gelada percorreu seu corpo, mais profunda que o medo. “Bem-vindo ao jogo, novato. Escolha seu lado com sabedoria, ou eles escolherão por você.”

End of Chapter 5