Chapter 4 of 30

Entre a Cruz e a Espada

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Professor Alves rabiscava no quadro, a voz monótona ecoando pelo anfiteatro. Gabriel tentava forçar os olhos a seguir as fórmulas de bioquímica, mas o ácido ribonucleico parecia distorcido, formando os contornos de um sorriso. Não o do professor, mas um sorriso que o perseguia desde a cantina. James. E o outro, Malik. Gabriel apertou a caneta. — Ei, você está anotando isso? — A voz sussurrada de um colega, Lucas, cortou seus pensamentos. Lucas apontava para a lousa, a testa franzida. — Claro — Gabriel respondeu, a voz mais rouca do que pretendia. Ele se inclinou, fingindo copiar um diagrama complexo de cadeia de DNA, mas as linhas se transformavam em teias. Teias que pareciam se estender para ele. — Não parece muito animado com a regulação de genes — Lucas brincou, um leve sorriso. Gabriel balançou a cabeça. — Apenas... um pouco distraído. Ele sentia os músculos do pescoço tensos. Não era apenas a aula. Era a sensação de que, mesmo ali, protegido por centenas de estudantes, a ameaça pairava. Malik havia dito: "Eu adoro brincar com o que é meu." Aquela frase, um sussurro de possessão, se repetia em sua mente como um eco sinistro. — Distraído com o quê? — Lucas perguntou, a curiosidade velada. Gabriel respirou fundo. Não podia falar sobre isso. Ninguém entenderia. Diriam para ele ignorar, ou pior, que ele estava imaginando coisas. — Com a quantidade de matéria, talvez — ele forçou um riso seco. — Parece que eles querem que a gente vire enciclopédias ambulantes no primeiro mês. Lucas riu, uma risada genuína. — Verdade. Mas o Alves é tranquilo. Só não perca o foco. Perder o foco. Era exatamente o que Gabriel estava fazendo. Ele tentou, de novo, focar nas palavras do professor. "Expressão gênica controlada..." Controlada. A palavra o atingiu como um golpe. Ele veio para a universidade para escapar do controle. Para ter suas próprias escolhas. E agora, em menos de uma semana, dois veteranos se apresentavam como novos controladores. O olhar de James, aquele sorriso convidativo, mas com um brilho calculista nos olhos. A oferta de "mentoria", a proteção que vinha com um preço. "Isso o marcaria como meu." A frase de James era um eco da de Malik, apenas mais polida, mais perigosa. Ele fechou os olhos por um segundo. A imagem de Malik, os olhos escuros fixos nele, o corpo imponente, e os dois brutamontes ao seu lado, sempre presentes. Pareciam sombras estendidas do próprio Malik. O que eles queriam? O que James queria? Ele não era um objeto. Não era propriedade de ninguém. A campainha tocou, abrupta, sinalizando o fim da aula. Gabriel quase pulou. — Até mais, Gabriel — Lucas disse, já de pé. — Até — Gabriel murmurou, juntando os cadernos com pressa. Ele precisava sair dali, daquele espaço onde as palavras do professor se misturavam com as ameaças não ditas. Ele precisava de ar. Precisava de distância. A multidão se dispersava. Gabriel se moveu com ela, varrendo o olhar pelo ambiente, uma busca instintiva. Nenhum sinal de Malik. Nenhum sinal de James. Apenas o zumbido de estudantes saindo apressadamente. Um alívio momentâneo, mas a tensão permaneceu em seus ombros. A perseguição não terminava com a aula. A perseguição apenas mudava de cenário. --- O sol da tarde castigava o gramado principal do campus. Gabriel decidiu comer um sanduíche rápido perto da fonte, longe da agitação da cantina. Ele observava os pássaros, tentando fingir normalidade. A cada grupo que passava, seu olhar se fixava, buscando. Não encontrou. Então, ele os viu. No topo da escadaria que levava ao prédio da Reitoria, Malik e seus dois satélites. Eles estavam parados, de braços cruzados, como estátuas de pedra. Não olhavam diretamente para ele, mas Gabriel sentia o peso do olhar deles, mesmo que invisível. Apenas a presença, forte e inegável, já era uma mensagem. Ele engoliu em seco. O sanduíche perdeu o gosto. — Não parece muito interessado no seu almoço. A voz era suave, familiar. James. Gabriel girou no banco, e lá estava ele, parado a poucos metros, um sorriso fácil nos lábios. Ele segurava uma garrafa de água, os dedos longos enrolados no plástico. — James — Gabriel disse, o tom neutro. — Gabriel — James respondeu, aproximando-se e sentando-se na beirada da fonte, de frente para ele. — Coincidência, não? Gabriel forçou um sorriso. — Coincidências demais ultimamente. James riu, o som agradável. — Talvez eu tenha um radar para calouros perdidos. Ou talvez para os mais... interessantes. Gabriel sentiu um arrepio. Ele sabia que James não estava ali por acaso. — O que você quer, James? — Gabriel perguntou, sem rodeios. A diplomacia era um luxo que ele não podia se dar. James ergueu uma sobrancelha, um brilho divertido nos olhos. — Direto ao ponto. Gosto disso. Mas já te disse. Quero te ajudar. — Me ajudar a quê? — Gabriel retrucou. — A me sentir mais preso? James inclinou a cabeça, o sorriso inabalável. — Liberdade é uma ilusão, Gabriel. Apenas trocamos um conjunto de correntes por outro. A questão é: quem segura a chave? Gabriel apertou o punho. — Eu seguro a minha própria chave. — Por enquanto — James disse, o tom ficando mais sério, mas ainda suave. — Malik não pensa assim. Ele acredita que ele segura a chave. E a porta. E a jaula. Gabriel olhou para a escadaria. Malik e os outros ainda estavam lá. E, como se sentisse o olhar de Gabriel, Malik virou ligeiramente a cabeça. Seus olhos encontraram os de Gabriel por um milésimo de segundo. Um reconhecimento frio, uma promessa silenciosa. — Eles estão sempre por perto, não é? — James sussurrou, seguindo o olhar de Gabriel. — Uma sombra que se estende. — Eu não sou um brinquedo — Gabriel afirmou, a voz baixa, mas firme. — Eu sei. Você é muito mais que isso — James disse, o olhar fixo no de Gabriel. — É por isso que você precisa de alguém que entenda como esse jogo funciona. Alguém que possa te dar a margem de manobra que Malik nunca daria. — E você é esse alguém? — Gabriel perguntou, cético. — Eu sou o único que está te oferecendo uma escolha real. Entre a submissão total ou a proteção que vem com... uma certa lealdade. — Lealdade a você — Gabriel completou. James acenou. — Um investimento mútuo. Eu te protejo do Malik, te ajudo a navegar por aqui, e você... bem, você evita problemas. E fica fora do alcance dele. Gabriel sentiu o peso das palavras. Uma oferta que parecia uma prisão diferente. Era a mesma lógica de sua tia Clara, que oferecia "ajuda" em troca de obediência. — Eu posso me virar sozinho — Gabriel disse, levantando-se. James permaneceu sentado, observando-o. — Todos pensam isso. Até que se encontram perdidos em um corredor escuro, e a mão que se estende não é a que você esperava. Pense nisso, Gabriel. A universidade é um lugar grande, mas os círculos de poder são bem pequenos. Gabriel deu as costas, o sanduíche intocado. Ele podia sentir o olhar de James em suas costas, e o peso da presença de Malik no topo da escadaria. Ambos o observavam. Ambos o queriam. Ele precisava de ar. Precisava de um lugar onde pudesse pensar, onde pudesse ser invisível. Mas parecia que não existia tal lugar. --- A biblioteca era um refúgio de silêncio denso, o ar pesado com o cheiro de livros velhos e café frio. Gabriel se aninhou em uma mesa isolada no fundo, cercado por estantes altas. A luz amarelada dos abajures lançava sombras longas, dançando com cada movimento. Ele tentou mergulhar em um artigo sobre microbiologia, mas cada farfalhar de página, cada rangido distante do piso, fazia seu pescoço se virar. A caneta em sua mão estava parada. — Gabriel? — Uma voz suave fez seu corpo enrijecer. Ele levantou a cabeça. Era uma bibliotecária, uma mulher baixinha com óculos na ponta do nariz. Ela sorria gentilmente. — Sim? — Você está bem? Parece um pouco... tenso. Gabriel forçou um sorriso. — Apenas a matéria, sabe como é. Muita coisa para absorver. — Entendo — ela disse, e seu olhar demorou um pouco mais do que o necessário, como se buscasse algo em seus olhos. — Apenas certifique-se de fazer pausas. E não fique até muito tarde. A segurança fecha as portas em breve. — Eu vou — Gabriel respondeu, agradecendo o aviso. Ele esperou até que ela se afastasse, o som suave de seus sapatos desaparecendo entre as estantes. Sua respiração estava acelerada. Ele não queria que ninguém o visse daquele jeito. Paranoico. Assustado. Isso era exatamente o que Malik e James queriam. Que ele perdesse o controle, que ele se sentisse caçado. Ele passou a mão pelos cabelos, os olhos correndo pelas estantes. As lombadas dos livros pareciam olhos o encarando. Será que era apenas sua imaginação? Sua mente cansada pregando peças? Ele não tinha dormido direito nos últimos dias. Cada sombra no quarto se transformava em uma figura, cada rangido da porta em um passo furtivo. Um som. Um arrastar de cadeira. Ouviu-o claramente, vindo de uma fileira mais distante. Gabriel congelou. Virou a cabeça devagar. Ninguém. A fileira estava vazia. Mas ele tinha ouvido. Ele levantou-se, devagar, sem fazer barulho. Seus passos eram leves sobre o carpete desgastado. Ele espiou pelo corredor entre as estantes, o coração batendo forte contra as costelas. Nada. Será que estava perdendo a cabeça? Não. Ele sabia que não. Aquele sentimento de ser observado, era real. Aquele peso, aquela premonição. Não era só a paranoia. Era um instinto. Ele se sentou novamente, mas não conseguiu mais se concentrar. As palavras no livro se transformaram em borrões. Ele pegou o celular, verificando a hora. Quase meia-noite. Era hora de ir. A bibliotecária estava certa. A segurança fecharia as portas. Ele precisava sair dali. Juntou suas coisas rapidamente, os movimentos apressados e nervosos. Ele não olhou para trás. Queria apenas escapar do silêncio opressivo, das sombras que pareciam se mover nas paredes. A saída parecia uma miragem. Ao passar pela catraca, o segurança acenou com a cabeça. — Boa noite, Gabriel. Cuidado ao voltar para o dormitório. Gabriel assentiu, sem realmente processar as palavras. Era apenas um aviso padrão, ele sabia. Mas, naquele momento, cada frase parecia ter um segundo significado, uma camada de ameaça velada. O frio da noite o atingiu, mas ele preferiu o ar gélido à sensação de asfixia na biblioteca. Ele só queria chegar ao seu quarto. Trancar a porta. E, talvez, pela primeira vez em dias, sentir-se seguro, mesmo que por um breve instante. --- A porta do dormitório rangeu, ecoando no corredor vazio. Gabriel a empurrou com o ombro, o cansaço pesando em seus ossos. A luz fraca do corredor mal alcançava o interior do quarto. Ele estendeu a mão, tateando pela parede até encontrar o interruptor. Um clique suave. A lâmpada de teto iluminou o pequeno espaço, revelando a bagunça familiar de livros e roupas espalhadas. Gabriel jogou a mochila no chão, o som abafado. Ele estava exausto. A perseguição, visível e invisível, havia drenado cada pedaço de sua energia. Ele só queria desabar na cama, fechar os olhos e acordar em um mundo onde Malik e James não existissem. Seu olhar varreu o quarto. Tudo estava como ele tinha deixado. Ou quase. Uma pequena mancha escura na mesa, perto de seu laptop, chamou sua atenção. Um envelope. Preto. Sem remetente, sem selo, apenas ali, colocado de forma precisa sobre uma pilha de apostilas. Um arrepio frio percorreu sua espinha. Não era correspondência normal. Ninguém entrava em seu quarto. A porta estava trancada quando ele saiu. Sua mente correu. Quem? Como? Ele se aproximou da mesa, os passos lentos, hesitantes. Estendeu a mão, os dedos roçando o papel áspero. O envelope parecia pesado. Gabriel o virou, buscando qualquer indício, mas não havia nada. Apenas o preto opaco do material. Ele rasgou a aba com cuidado, o som alto no silêncio do quarto. Seus olhos se arregalaram. Dentro, havia apenas uma fotografia. Uma foto dele. Tirada de longe, do outro lado do campus, enquanto ele comia seu sanduíche perto da fonte. A mesma fonte onde James o havia abordado horas atrás. Mas não era apenas ele na foto. Em segundo plano, quase imperceptíveis, estavam Malik e James. Ambos sorriam. Um sorriso sádico no rosto de Malik, um sorriso calculista no rosto de James. Eles estavam à espreita, como predadores que acabavam de encontrar sua presa, e Gabriel era o alvo. A imagem parecia gritar: "Nós estamos assistindo. Nós estamos esperando."

End of Chapter 4