Chapter 3 of 30

O Convite Sombrio

3.1k words

A mão no meu ombro é leve, mas me faz paralisar. Viro-me, ainda com a adrenalina de Malik correndo nas veias, pronto para outro confronto. Meus olhos encontram um sorriso que desarma mais do que qualquer ameaça. É um rosto diferente, traços mais suaves que os de Malik, mas com uma intensidade que o faz parecer ver através de mim. —Gabriel, certo? A voz é um murmúrio suave, quase uma melodia, e ele não espera por uma resposta. O garoto se inclina, o cabelo castanho-claro caindo ligeiramente sobre os olhos de um verde profundo. Ele é alto, mas sua postura não é agressiva, e sim elegante. Sinto um arrepio que não tem nada a ver com medo, mas com uma estranha curiosidade. —Eu sou James. Vi você por aqui algumas vezes. Você é calouro de Biologia, certo? Minhas costas ainda doem da cadeira dura, e a presença de Malik ainda pesa no ar, mesmo que ele esteja a alguns metros de distância. Mas James me puxa para um canto da cantina com um gesto discreto, como se estivesse me protegendo de algo invisível. Ou me escondendo. —Sim, eu sou, mas como você sabe? Ele ri, um som baixo e agradável. James parece ser o oposto do predador que Malik representava, mas há algo em seus olhos, uma centelha de astúcia, que me alerta. É como se ele soubesse exatamente o que estou pensando. —Ah, a universidade é um lugar pequeno, Gabriel. E calouros como você se destacam. Especialmente quando estão em meio a pequenas confusões. Ele gesticula vagamente na direção onde Malik e seus dois gorilas ainda estão, embora Malik me encare com uma intensidade que quase posso sentir queimar minha pele. Não há ironia na voz de James, apenas uma observação neutra, quase empática. —Confusões? Não sei do que você está falando. Minha voz é mais dura do que pretendo. Odeio que me vejam como um problema, ou que meu encontro com Malik já tenha virado fofoca. Vim para cá para fugir disso, para ser invisível. Mas parece que o universo tem outros planos. —Não precisa se fazer de difícil, Gabriel. Vi o Malik te encurralando. Ele tem uma tendência a fazer isso com as pessoas que chamam a atenção dele. E você, definitivamente, chamou a atenção dele. Ele fala com uma naturalidade que me desarma. Não há julgamento, apenas fatos. Sua boca se curva em um sorriso tênue que alcança seus olhos, e me pego por um instante relaxando na conversa. James não está me intimidando, não está me desafiando. Ele está me observando, me avaliando. —Ele é só um idiota. —Talvez. Mas um idiota com influência. E aqui na universidade, a influência pode ser mais perigosa do que a força bruta. James faz um gesto com a mão, como se estivesse descartando algo trivial. Ele me olha nos olhos, e não desvia o olhar, mas também não me desafia. É um tipo de contato visual que me faz sentir visto, compreendido de alguma forma. É perturbador. —Você parece saber muito sobre ele. —Conhecemos uns aos outros. Há muito tempo. E sei o tipo de jogo que ele gosta de jogar. E o tipo de peças que ele gosta de mover no tabuleiro. Você é uma peça nova, Gabriel. E ele parece querer te manter por perto. O tom de James é leve, mas a mensagem é clara. Malik é um predador, e eu sou a presa. Mas James não me trata como uma. Ele me trata como um igual, ou talvez como alguém que ele possa usar de alguma forma. A naturalidade da conversa é uma máscara, e sinto a tensão retornando aos meus ombros. —E você? O que você é nesse jogo? James sorri, um sorriso enigmático que esconde mais do que revela. Ele se aproxima um pouco mais, e posso sentir o cheiro suave de algo cítrico e amadeirado vindo dele. É um cheiro caro, sofisticado, que me faz pensar nos corredores limpos e luxuosos dos prédios mais novos. —Eu? Eu sou o cara que pode te ajudar a entender as regras. Ou talvez, a quebrar algumas delas. Depende do que você preferir. --- A mão no meu ombro é leve, mas me faz paralisar. Viro-me, ainda com a adrenalina de Malik correndo nas veias, pronto para outro confronto. Meus olhos encontram um sorriso que desarma mais do que qualquer ameaça. É um rosto diferente, traços mais suaves que os de Malik, mas com uma intensidade que o faz parecer ver através de mim. —Gabriel, certo?A voz é um murmúrio suave, quase uma melodia, e ele não espera por uma resposta. O garoto se inclina, o cabelo castanho-claro caindo ligeiramente sobre os olhos de um verde profundo. Ele é alto, mas sua postura não é agressiva, e sim elegante. Sinto um arrepio que não tem nada a ver com medo, mas com uma estranha curiosidade. —Eu sou James. Vi você por aqui algumas vezes. Você é calouro de Biologia, certo?Minhas costas ainda doem da cadeira dura, e a presença de Malik ainda pesa no ar, mesmo que ele esteja a alguns metros de distância. Mas James me puxa para um canto da cantina com um gesto discreto, como se estivesse me protegendo de algo invisível. Ou me escondendo. —Sim, eu sou, mas como você sabe?Ele ri, um som baixo e agradável. James parece ser o oposto do predador que Malik representava, mas há algo em seus olhos, uma centelha de astúcia, que me alerta. É como se ele soubesse exatamente o que estou pensando. —Ah, a universidade é um lugar pequeno, Gabriel. E calouros como você se destacam. Especialmente quando estão em meio a pequenas confusões.Ele gesticula vagamente na direção onde Malik e seus dois gorilas ainda estão, embora Malik me encare com uma intensidade que quase posso sentir queimar minha pele. Não há ironia na voz de James, apenas uma observação neutra, quase empática. —Confusões? Não sei do que você está falando.Minha voz é mais dura do que pretendo. Odeio que me vejam como um problema, ou que meu encontro com Malik já tenha virado fofoca. Vim para cá para fugir disso, para ser invisível. Mas parece que o universo tem outros planos. —Não precisa se fazer de difícil, Gabriel. Vi o Malik te encurralando. Ele tem uma tendência a fazer isso com as pessoas que chamam a atenção dele. E você, definitivamente, chamou a atenção dele.Ele fala com uma naturalidade que me desarma. Não há julgamento, apenas fatos. Sua boca se curva em um sorriso tênue que alcança seus olhos, e me pego por um instante relaxando na conversa. James não está me intimidando, não está me desafiando. Ele está me observando, me avaliando. —Ele é só um idiota. —Talvez. Mas um idiota com influência. E aqui na universidade, a influência pode ser mais perigosa do que a força bruta.James faz um gesto com a mão, como se estivesse descartando algo trivial. Ele me olha nos olhos, e não desvia o olhar, mas também não me desafia. É um tipo de contato visual que me faz sentir visto, compreendido de alguma forma. É perturbador. —Você parece saber muito sobre ele. —Conhecemos uns aos outros. Há muito tempo. E sei o tipo de jogo que ele gosta de jogar. E o tipo de peças que ele gosta de mover no tabuleiro. Você é uma peça nova, Gabriel. E ele parece querer te manter por perto.O tom de James é leve, mas a mensagem é clara. Malik é um predador, e eu sou a presa. Mas James não me trata como uma. Ele me trata como um igual, ou talvez como alguém que ele possa usar de alguma forma. A naturalidade da conversa é uma máscara, e sinto a tensão retornando aos meus ombros. —E você? O que você é nesse jogo?James sorri, um sorriso enigmático que esconde mais do que revela. Ele se aproxima um pouco mais, e posso sentir o cheiro suave de algo cítrico e amadeirado vindo dele. É um cheiro caro, sofisticado, que me faz pensar nos corredores limpos e luxuosos dos prédios mais novos. —Eu? Eu sou o cara que pode te ajudar a entender as regras. Ou talvez, a quebrar algumas delas. Depende do que você preferir.---James se recosta, um brilho divertido nos olhos. A cantina ainda zumbia, mas a bolha que ele criara ao nosso redor parecia abafar o som. O cheiro cítrico-amadeirado dele era mais forte agora. Eu ainda sentia o olhar de Malik, pesado como uma âncora, mas James agia como se não houvesse mais ninguém no mundo além de nós dois. —Você é novo aqui, Gabriel. E tem um certo... brilho.Ele faz uma pausa, como se estivesse escolhendo as palavras com cuidado. O sorriso dele se suaviza, perdendo um pouco da astúcia e ganhando uma qualidade quase gentil. Isso me deixa ainda mais desconfiado. Gosto de inimigos que se mostram. —A universidade pode ser um labirinto para quem está começando. Notas, trabalhos, os professores que são impossíveis de agradar, os que só querem ser paparicados.Ele gesticula com a mão, como se listasse itens invisíveis no ar. Seus olhos não me deixam, mas o foco dele parece estar em um futuro distante, um onde eu estou lutando sozinho contra tudo isso. Ele está pintando um quadro de dificuldade, um problema para o qual ele, e só ele, tem a solução. —É muita coisa para absorver de uma vez. E muita gente tenta te puxar para baixo antes mesmo de você conseguir se levantar. Malik é só um exemplo disso.A menção de Malik me faz apertar os lábios. Ele está certo, eu senti a pressão dele. James está tocando em um ponto sensível, a insegurança de ser um calouro perdido em um lugar novo. Ele está construindo a ponte. —Eu conheço as pessoas certas. Sei quais atalhos funcionam, onde encontrar as informações que ninguém mais te dá. Posso te apresentar a alguns professores que realmente importam, te dar umas dicas sobre quais projetos vão te dar mais destaque.Ele inclina a cabeça ligeiramente, a proposta soando casual, quase um favor entre amigos. Mas o peso em suas palavras não é de um favor. É o peso de uma oferta calculada, de algo que vem com um custo implícito. —Não é fácil se destacar em Biologia. É um curso competitivo. Mas se você tiver a orientação certa, alguém para te mostrar o caminho...James deixa a frase inacabada, mas a imagem que ele conjura é tentadora. Alguém me mostrando o caminho. Alguém me protegendo das armadilhas, me impulsionando para frente. Eu sempre tive que lutar por cada conquista, cada passo. A ideia de ter alguém facilitando as coisas, nem que fosse um pouco, era sedutora. —Eu não preciso de ajuda para estudar.Minha voz soa mais forte do que meu próprio pensamento. Estou resistindo instintivamente, mesmo que uma parte de mim esteja ouvindo com atenção. A ideia de depender de alguém, de ser devedor, me aperta o peito.James sorri, um sorriso que atinge os olhos. Ele parece ter antecipado minha objeção. —Não é só sobre estudar, Gabriel. É sobre navegação. A universidade é um ecossistema próprio. Existem predadores, presas, e aqueles que controlam o fluxo. Eu sou um dos que controlam o fluxo. E vejo potencial em você. Um potencial que seria um desperdício se fosse engolido por um tubarão como o Malik.Ele fala de mim como se eu fosse um projeto, algo a ser lapidado, protegido. A forma como ele enquadra a situação, não como uma ajuda, mas como um investimento no meu "potencial", é um tipo de manipulação que eu reconheço. —Seria uma pena. Você tem um jeito, uma energia, que não se vê todo dia.Ele me analisa de cima a baixo, e a intensidade do olhar me faz sentir exposto. É uma mistura de elogio e escrutínio, uma promessa velada de que, se eu aceitar, serei observado de perto. Não como um amigo, mas como uma posse, um recurso. —Pense nisso como... uma mentoria informal. Nada grandioso, claro. Apenas alguém para te dar um toque, te apontar na direção certa. Para que sua vida de calouro seja menos árdua, mais focada no que realmente importa.Ele se inclina um pouco, o tom de voz baixando ainda mais, como se estivesse compartilhando um segredo valioso. —E para manter o Malik longe do seu encalço. Ele perde o interesse em quem já está 'marcado' por outra pessoa. Principalmente se essa pessoa for eu.A última frase me atinge como um choque. Ele não está apenas oferecendo ajuda; ele está se colocando como um escudo, um protetor. E isso, de alguma forma, é mais perturbador do que a oferta de facilidades. Significa que, ao aceitar a proteção de James, eu me tornaria uma peça no jogo DELE. Uma peça com um novo dono, talvez. A ideia é repulsiva, mas a ameaça de Malik ainda paira.James parece ler minha hesitação. Ele não pressiona. Apenas entrega um pequeno cartão branco, com apenas um número de telefone e um "J." gravados em um tipo de letra elegante. —Pense nisso. Não há pressa. Mas, quanto antes você se posicionar, mais fácil será.Ele me dá um último sorriso enigmático, um aceno quase imperceptível, e se vira, desaparecendo na multidão da cantina tão rapidamente quanto surgiu. Deixo-me levar pelo impulso de observar Malik. Ele ainda me observa. Seus olhos fixos em mim, mas por um instante, o olhar se desvia para onde James acabara de estar, antes de voltar para mim, carregado de uma nova intensidade. Uma que eu não conseguia decifrar.---O cartão de James queima na palma da minha mão. É um pedaço de papel fino, mas parece carregar o peso de uma decisão. Eu saio da cantina, o burburinho se esvaindo atrás de mim, e me dirijo ao pátio principal, onde o sol da tarde filtrava através das folhas das árvores antigas. As sombras dançam no chão de paralelepípedos, e cada passo meu é acompanhado por um eco dos pensamentos.A oferta de James. Era como um presente embrulhado em seda, com uma armadilha escondida dentro. Por um lado, a promessa de uma vida mais fácil aqui. Sem Malik me seguindo, sem a burocracia esmagadora, talvez até com algumas notas melhores sem tanto esforço. A ideia de ter um caminho pavimentado, apenas por uma vez na vida, era estranhamente atraente. A luta constante estava me exaurindo, e James parecia ter percebido isso. Ele enxergava o cansaço por trás da minha fachada de resistência.Ele não era como Malik, que agia pela força bruta. James era mais sutil, mais perigoso por isso. Ele manipulava com promessas, com a ilusão de escolha. A oferta de "mentoria", o jeito como ele falou de "potencial" e "investimento" – tudo era uma isca cuidadosamente elaborada. Ele sabia o que eu precisava ouvir. Aquele ar de quem controlava o "fluxo", a sugestão de que ele poderia me proteger.A proteção. Essa palavra me faz estremecer. A última vez que alguém se ofereceu para me "proteger", minha vida virou um inferno de regras e expectativas. Minha tia Clara. Ela dizia que estava me dando um lar, me livrando do caos, mas cada refeição, cada nota na escola, cada amigo que eu fazia era monitorado, avaliado. Eu não podia respirar sem sentir o olhar dela, a aprovação ou desaprovação silenciosa. "Faço isso para o seu bem, Gabriel", ela repetia, enquanto lentamente me sufocava com sua 'bondade'. Eu fugi disso. Eu vim para a universidade para ser livre, para construir minha própria vida, minhas próprias regras.James me lembrava dela, não na aparência, mas na essência. A forma como ele falava de me "marcar" para manter Malik afastado. Era uma forma de controle. Aceitar a "ajuda" de James significaria me colocar sob a alçada dele, trocar um predador por outro, talvez mais astuto, mais difícil de escapar. Eu seria a peça dele no tabuleiro. Não mais livre.Minhas mãos suam, o cartão amassando ligeiramente entre meus dedos. A atração é real. A vida de calouro, por si só, já é uma montanha para escalar. E com Malik à espreita, a subida se torna ainda mais íngreme. James oferecia uma tirolesa. Mas a tirolesa teria alguém no controle do outro lado, alguém que decidiria quando e como eu desceria.Respiro fundo, o ar fresco da tarde entrando nos meus pulmões. Olho para o céu azul, vasto e sem limites. É a liberdade que eu busco. A liberdade de falhar e me levantar sozinho, de cometer meus próprios erros e aprender com eles. A liberdade de ser quem eu sou, sem ter que me encaixar nas expectativas de ninguém.Mas a visão de Malik na cantina, o escárnio em seus olhos, a sensação de ser encurralado, me puxa de volta. James se ofereceu como uma alternativa, uma fuga. Era uma escolha entre o fogo e as cinzas, talvez. Ou talvez, entre o fogo e o pântano, onde as coisas afundavam lentamente e sem alarde.O dilema é um nó no meu estômago. Recusar James significa enfrentar Malik sozinho, e toda a complexidade da universidade sem um guia. Aceitar significa abrir mão de uma parte da minha independência, da minha autonomia, e me colocar nas mãos de alguém que, por mais charmoso que fosse, tinha seus próprios jogos.Jogo. Essa palavra James usou. E eu odeio jogos que não entendo as regras. Especialmente quando eu sou a peça. A memória da tia Clara retorna, o peso daquelas correntes invisíveis. Eu não podia voltar para aquilo. Não podia me permitir ser controlado novamente, nem mesmo por uma promessa de facilidade.Mas e se James estivesse realmente oferecendo uma mão? E se a minha desconfiança fosse apenas o reflexo das minhas cicatrizes passadas, me impedindo de ver uma ajuda genuína? Ele parecia genuíno em sua preocupação, embora houvesse aquela astúcia. Era difícil discernir.Passei a mão pelo cabelo, sentindo a confusão crescer. O cartão de James ainda está na minha mão, um convite silencioso para um mundo de possibilidades, e de perigos. O sol começa a se pôr, pintando o céu em tons de laranja e roxo, e eu ainda estou parado ali, sentindo o peso de uma decisão que poderia moldar todo o meu futuro aqui na universidade, e além.Eu olho para o número "J." no cartão. Discar significava aceitar a mão estendida, com todas as suas implicações. Não discar significava abraçar o desconhecido, e os perigos que vinham com ele. E Malik. Malik era um perigo bem conhecido.Ainda sinto o olhar de Malik em mim, mesmo a distância. Mesmo que eu não o veja. O arrepio na espinha era real. James tinha prometido me proteger dele. A um custo.Minha respiração se torna irregular. A noite está caindo, e a decisão precisa ser tomada. O número de James era a única ponte que eu via, mas para onde ela levaria? Era um abismo, mas com uma corda. Ou uma teia de aranha.Eu aperto o cartão, sentindo a textura do papel contra a pele.

End of Chapter 3