A cantina borbulhava com o som abafado de centenas de vozes, um caos organizado de talheres contra pratos e cadeiras arrastando no chão de cimento polido. Gabriel apertou a bandeja, procurando uma mesa vazia, um canto que pudesse chamar de seu. Ele queria desaparecer, fazer-se pequeno, um mero detalhe na tapeçaria ruidosa da universidade.
Seu olhar varreu o salão, evitando conscientemente a área central. Lá, Malik estava. Gabriel sentiu a presença do veterano antes mesmo de vê-lo, uma espécie de pressão no ar, um calafrio na nuca que não tinha nada a ver com o ar condicionado do ambiente. Era um pressentimento que a liberdade, tão desesperadamente buscada, já estava sob ameaça.
Finalmente, ele avistou um assento solitário perto de uma janela, em um canto mais afastado. O raio de sol que entrava parecia uma promessa de calor, de normalidade. Ele se dirigiu para lá, a tigela de macarrão com queijo em suas mãos, o cheiro forte de molho inundando seus sentidos. Sentou-se, apoiando a mochila surrada na cadeira ao lado, um gesto simbólico de demarcação de território.
Ergueu os olhos. A mesa de Malik ficava exatamente no campo de sua visão periférica. Malik não estava apenas lá; ele estava olhando. Um sorriso lento e perigosamente calmo se espalhava pelo rosto do veterano. Ao lado dele, dois outros garotos – musculosos, com braços cobertos de tatuagens – riam de algo que Malik havia dito, mas seus olhos ocasionalmente se desviavam para Gabriel. Eles não disfarçavam o escrutínio.
Gabriel sentiu o calor subir por seu pescoço. Ele não queria dar a Malik a satisfação de vê-lo reagir. Pegou seu livro, um volume pesado de biologia molecular, e o abriu, fingindo profunda concentração. Seus olhos corriam pelas palavras, mas nenhuma delas fazia sentido. A adrenalina pulsava em suas veias, um tambor surdo e incessante.
Tentou se convencer de que era imaginação, que a tensão da manhã o estava fazendo ver coisas. Mas o peso do olhar de Malik era palpável, como uma mão invisível em seu ombro. Ele sentiu a garganta seca, o macarrão de repente sem gosto. Seus dentes moeram um ao outro enquanto ele forçava a si mesmo a pegar o garfo e levar uma garfada à boca.
Cada mastigada era um esforço. Ele podia sentir os sussurros, mesmo sem ouvir as palavras, como um zumbido distante que invadia seu espaço pessoal. Aquilo não era liberdade. Não era o recomeço que ele sonhara. Era uma jaula com as grades invisíveis, mas muito reais. A raiva começou a se formar, uma brasa no fundo do estômago, aquecida pela familiaridade da situação.
Ele queria gritar, queria levantar-se e confrontar Malik, exigir que o deixasse em paz. Mas a experiência o ensinara a não mostrar suas fraquezas, a não dar ao predador a satisfação de sua presa se debatendo. Ele respirou fundo, tentando estabilizar o ritmo acelerado de seu coração. O sol na janela já não parecia tão convidativo. A cantina inteira parecia ter diminuído, o ar rarefeito.
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Um movimento em sua visão periférica. Uma sombra alta e imponente. Gabriel não precisava olhar para saber quem era. Ele apertou os lábios, o livro ainda aberto sobre a mesa, uma barreira inútil entre ele e o veterano. Malik parou ao lado da mesa de Gabriel, bloqueando o sol que antes o confortava. Sua presença era um muro, denso e opressor.
— Sozinho, novato? — A voz de Malik era baixa, um murmúrio que, mesmo assim, cortou o barulho da cantina. Não havia pergunta na entonação, apenas uma afirmação fria. — Gosta de se esconder nos cantos?
Gabriel não respondeu de imediato. Ele fechou o livro, colocando-o com cuidado sobre a mesa. Seus dedos formigavam. Levantou o olhar e encontrou os olhos de Malik, escuros e impenetráveis, um sorriso preguiçoso brincando nos lábios do veterano. Os dois garotos do grupo de Malik assistiam de longe, como se esperassem um show.
— Estou almoçando — disse Gabriel, sua voz mais controlada do que esperava. — Como qualquer outra pessoa.
Malik inclinou a cabeça, os olhos nunca deixando os de Gabriel. Ele puxou uma cadeira vazia da mesa ao lado e a arrastou, com um ruído estridente, para o lado de Gabriel, sentando-se sem permissão. O espaço diminuiu ainda mais, as pernas de Malik quase tocando as suas sob a mesa. O cheiro de seu perfume amadeirado, misturado com algo mais forte e animal, invadiu o ar.
— Ah, sim. Almoçando — Malik esticou a mão, pegando um dos talheres descartáveis de Gabriel, um garfo de plástico branco. — E o que te trouxe para este paraíso de conhecimento, uh? Biologia, certo? Uma mente tão… curiosa.
— O curso me interessou — Gabriel respondeu, os olhos fixos no garfo que Malik girava entre os dedos. Aquele gesto, tão casual, parecia uma provocação deliberada, uma maneira de afirmar controle sobre os objetos de Gabriel.
— Interessou? Ou foi uma fuga? — O sorriso de Malik se alargou, revelando uma série de dentes brancos e perfeitos. — As pessoas vêm para a universidade por vários motivos. Alguns por paixão. Outros para se reinventar. Quais são os seus, Gabriel?
O nome, pronunciado por Malik, soou diferente, quase íntimo, mas com uma camada de ameaça. Era como se Malik estivesse testando as águas, sondando os limites, procurando as fissuras na fachada de Gabriel. A pergunta sobre ‘fuga’ atingiu uma corda sensível, uma lembrança dos ‘batalhas maiores’ que ele acreditava ter deixado para trás.
— Isso não é da sua conta — Gabriel disse, a voz endurecendo. Ele sentiu a raiva borbulhar, quente e familiar. Não podia deixar que Malik invadisse seu passado, não podia permitir que ele tocasse as feridas ainda abertas.
— Tudo é da minha conta, Gabriel — Malik respondeu, a voz ainda baixa, mas com uma inflexão que arrepiou a pele de Gabriel. — Especialmente o que é meu. E você… — Ele parou, a ponta do garfo batendo suavemente na mesa, um ritmo lento e metódico. — Você é muito interessante.
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O ar entre eles estava denso, quase elétrico. Gabriel sentiu o estômago apertar, uma mistura de medo e fúria que ameaçava explodir. Malik estava jogando, e Gabriel odiava ser um peão. Ele não seria, não depois de tudo que havia passado para se libertar. Seus olhos se estreitaram, a mandíbula travada. Aquilo não era um jogo, era uma invasão.
— Eu não sou seu — Gabriel retrucou, cada palavra carregada de desafio. Ele pegou o garfo de Malik, o plástico rangendo sob seus dedos, e o jogou de volta na bandeja com um clique agudo. — E não estou à venda.
Malik riu, um som rouco e sem humor que fez alguns estudantes próximos olharem em sua direção. O veterano se recostou na cadeira, cruzando os braços, os músculos sob a camisa justos e definidos. Ele parecia uma estátua de bronze, inabalável, mas seus olhos brilhavam com uma satisfação predatória. Ele estava gostando da resistência de Gabriel.
— Que temperamento, não é? — Malik provocou, a voz quase um ronronar. — Gosto disso. Mas não importa o quanto você resista, Gabriel. Você já derramou o café. Você já faz parte da minha diversão. E eu adoro brincar com o que é meu.
— Eu não sou um brinquedo — Gabriel se levantou abruptly, a cadeira arrastando com um som estridente. Ele não conseguia mais ficar sentado, não conseguia mais suportar a proximidade opressora de Malik. Seu corpo tremia ligeiramente, mas ele se recusava a demonstrar. — Me deixe em paz. Eu não quero nada com você.
Malik não se mexeu. Ele continuou reclinado, os olhos fixos em Gabriel, como um felino observando sua presa. O sorriso em seu rosto não vacilou. Seus colegas de mesa agora observavam abertamente, os sorrisos de escárnio em seus rostos, esperando a próxima jogada de seu líder. Gabriel podia sentir os olhares, as risadas contidas, a humilhação borbulhando.
— Você pode dizer que não quer — Malik disse, sua voz ainda calma, estranhamente persuasiva. — Mas seus olhos contam uma história diferente. Aquele pequeno tremor na sua mão. A forma como sua respiração acelerou. Você está fascinado, Gabriel. Tanto quanto eu estou com você.
— Você está enganado — Gabriel disparou, o tom cortante. Ele deu um passo para trás, as mãos cerradas em punhos ao lado do corpo. Seu coração batia como um tambor de guerra. Malik estava tentando manipulá-lo, tentar fazê-lo duvidar de si mesmo, exatamente o tipo de controle que ele mais temia. Ele não cederia. Não dessa vez.
Malik soltou uma risada baixa, uma melodia sombria que parecia reverberar por toda a cantina. Ele se levantou, finalmente, e Gabriel deu mais um passo para trás, preparado para qualquer movimento inesperado. O veterano era alto, a sombra que ele projetava era ainda maior, cobrindo Gabriel por completo. O sorriso de Malik permaneceu, mas seus olhos continham uma promessa perigosa.
— Veremos, Gabriel. Veremos — Malik disse, sua voz um sussurro ameaçador. — A diversão está apenas começando. E você não tem para onde correr.
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Gabriel sentiu o sangue ferver. Ele pegou sua mochila, jogou-a sobre o ombro com um movimento brusco. Não haveria mais palavras, não mais provocações. Ele precisava sair dali, respirar um ar que não estivesse saturado pela presença sufocante de Malik. Ele virou as costas para Malik, ignorando o olhar do veterano e o escrutínio de seus amigos. Cada passo era um ato de desafio, uma afirmação de sua autonomia.
Ele caminhou rapidamente entre as mesas, ignorando os rostos curiosos e os murmúrios que o seguiam. A cantina parecia um labirinto, cada saída mais distante do que a anterior. Sua visão estava um pouco turva, a raiva nublando seu julgamento, mas ele se concentrou em seguir em frente. Malik havia cruzado uma linha, e Gabriel não o perdoaria por isso. Sua liberdade não era negociável.
Ele alcançou o corredor de saída, sentindo um alívio temporário ao ver a porta. A luz lá fora parecia mais clara, o ar menos pesado. Estava a um passo de escapar, de deixar Malik e sua influência para trás, pelo menos por enquanto. O plano era ir para a biblioteca, encontrar um canto ainda mais isolado, e tentar se perder nos estudos, longe de olhares possessivos e perguntas invasivas.
Ele empurrou a porta da cantina, sentindo o ar fresco do corredor em seu rosto. O plano parecia bom. Talvez ele pudesse realmente afastar Malik, ignorá-lo até que o veterano se cansasse e encontrasse uma nova vítima. Era uma esperança frágil, mas era tudo o que ele tinha naquele momento. A universidade era grande, ele podia se perder na multidão. Podia se tornar invisível novamente.
Ele estava quase livre. Estava quase lá. O alívio começou a se instalar, um pequeno relaxamento em seus ombros tensos. Ele deu mais um passo, sentindo a mochila pesar em suas costas, o livro de biologia ainda lá dentro, um lembrete de seu propósito original.
Mas antes que ele pudesse se afastar completamente, antes que ele pudesse dar outro passo em direção à sua tão sonhada liberdade, uma mão firme e inesperada pousou em seu ombro. Ele congelou. Não era a mão de Malik, não tinha a mesma pressão bruta, mas era igualmente decisiva. A voz que ecoou atrás dele, no entanto, era suave, sedosa, e completamente desconhecida.
— É bom ver rostos novos por aqui. Gabriel, não é?