Chapter 22 of 30

Capítulo 22: O Confronto Bruto

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O ar no quarto de Gabriel ainda zumbia com a energia estática da tarde. Ele tentava afastar o peso do que vira, do que sabia. Cada sombra parecia se contorcer, e o sussurro distante dos outros estudantes no corredor era uma afronta à sua solitude forçada. A porta, que ele jurava ter trancado, rangeu. Não foi um erro, mas uma explosão. Malik e James invadiram o espaço. O golpe na madeira ecoou, um som oco que fez Gabriel saltar da cadeira. Malik entrou primeiro, um furacão de raiva mal contida, os olhos escuros ardendo. James o seguiu, mais como uma sombra, a calma dele um contraste arrepiante com a fúria do outro. A porta se fechou com um baque seco, cortando o mundo exterior. — Você esteve lá. Não esteve? — A voz de Malik era um rosnado baixo, mas cheio de ameaça. Ele deu um passo, depois outro, fechando a distância entre eles. O cheiro de suor e algo metálico, como o suor depois de um treino intenso, encheu o pequeno quarto. Gabriel recuou, a cadeira raspando no chão. O coração batia descompassado contra as costelas. Ele sentia o peso do olhar de James, frio e avaliador, mas os olhos de Malik eram brasas prontas para queimar. — Lá onde? — A pergunta saiu mais fraca do que ele pretendia. O medo rastejou pela sua espinha, um arrepio gelado. Malik riu, um som sem humor. Ele parou a poucos centímetros de Gabriel, a altura e a largura de seus ombros bloqueando a pouca luz que entrava da janela. A sombra dele engoliu Gabriel. — Não se faça de inocente. Você sabe exatamente onde. Os túneis. A câmara. — As palavras eram cuspidas, cada uma delas um projétil. — Você viu. Admito, é impressionante que tenha chegado lá sem ser convidado. — É mais impressionante que vocês esperavam que eu ficasse com o jogo de vocês — Gabriel conseguiu dizer, a voz tremendo, mas o desafio começando a brilhar em seus olhos. A fúria borbulhava sob o medo. Ele não seria mais um fantoche. Malik inclinou a cabeça, um gesto lento e perigoso. — O jogo é nosso, Gabriel. Sempre foi. Você é apenas uma peça que teima em se mover por conta própria. Uma peça que precisa ser controlada. — Você não controla ninguém — Gabriel retrucou, erguendo o queixo. Ele se recusava a se encolher. — Muito menos a mim. James pigarreou. — Malik, não precisamos de… demonstrações agora. Gabriel parece disposto a conversar. Não é, Gabriel? O tom de James era suave, mas a ameaça era palpável. Era a voz de quem controlava Malik, e isso era ainda mais aterrorizante. Malik não tirou os olhos de Gabriel, mas a tensão em seus ombros diminuiu minimamente. Não era obediência, mas uma pausa calculada. — Não tenho nada para conversar com vocês — Gabriel disse, seu corpo rígido. Ele não podia ceder, não agora. A dignidade era a única coisa que lhe restava. — Ah, mas tem — Malik sibilou, e sua mão se estendeu, agarrando o colarinho da camisa de Gabriel. A força era brutal, repentina. Gabriel foi puxado para frente, perdendo o equilíbrio. O tecido da camisa esticou, sufocando-o momentaneamente. — Você sabe sobre o programa. Sobre o Arquiteto. Você sabe demais. --- O aperto de Malik em seu colarinho era como um garrote. Gabriel sentiu o ar rarear, a raiva dele era quase física. Mas em meio ao pânico, uma chama de fúria se acendeu, queimando mais forte do que o medo. Ele não seria quebrado. — Eu sei que vocês são uns mentirosos — Gabriel cuspiu, o som abafado pela pressão em sua garganta. — Que a rivalidade de vocês é uma farsa. Uma maldita peça de teatro para… para controlar tudo! Para me controlar! Os olhos de Malik se arregalaram. Um músculo saltou em sua mandíbula. Ele não esperava que Gabriel soubesse tanto, ou talvez não esperasse que Gabriel tivesse a coragem de dizer em voz alta. A surpresa durou apenas um instante, substituída por um ódio ainda mais frio. — Então você ouviu. Você entendeu — Malik disse, sua voz agora mais baixa, mas carregada de veneno. — Você acha que sabe de tudo, não é? Acha que descobriu o grande segredo. Que piada. — Eu vi vocês lá — Gabriel rebateu, a voz rouca. — Vi os capuzes. Vi vocês liderando aquela… aquela loucura. E ouvi sobre a ‘aquisição’. Eu sou a porra da aquisição, não sou? James deu um passo à frente, sua expressão inescrutável. — Gabriel, você está interpretando as coisas de uma forma muito… limitada. Há nuances. Contexto. Coisas que você não pode entender sem a orientação correta. — Orientação? — Gabriel riu, um som amargo. — Vocês me trancaram em uma sala escura, me forçaram a comer uma gosma nojenta e me fizeram decifrar enigmas. Isso não é orientação, James. É tortura. É manipulação. — É um teste — Malik interveio, o aperto em Gabriel ainda firme. — Para ver se você era digno. Para ver se tinha o que era preciso. E para ser sincero, Gabriel, você nos surpreendeu. Mais do que esperávamos. — Eu não quero ser digno do jogo de vocês! — A voz de Gabriel se elevou, um grito de frustração e desafio. — Eu não sou uma peça! Eu não sou uma ‘aquisição’! Eu sou Gabriel. E eu vou destruir o ‘programa’ de vocês. Eu vou expor cada um de vocês. Um sorriso lento e cruel se espalhou pelos lábios de Malik. — Que lindo. Que bravata. Mas não se esqueça, Gabriel. Quem sabe o nome do Arquiteto? Quem te colocou nessa posição de ‘saber’? Nós. Sempre nós. Você nunca esteve no controle. Gabriel sentiu o desespero e a raiva se misturando. Eles estavam se divertindo com isso. Eles estavam se divertindo com o terror dele. A ideia de ser uma marionete, um brinquedo, era insuportável. Seus olhos se cravaram nos de Malik, recusando-se a desviar. — Eu não vou cair nessa. Eu não vou. — Cada palavra era um ato de vontade pura. — Vocês subestimaram a pessoa errada. --- O sorriso de Malik vacilou por um instante, a fúria em seus olhos se intensificando. Ele soltou o colarinho de Gabriel apenas para agarrá-lo pelo braço, a força esmagadora. Gabriel foi girado e arremessado contra a parede de gesso do quarto. O impacto fez seu ombro protestar, uma dor aguda irradiando pelo braço. Ele escorregou, caindo de joelhos, ofegando. O gosto metálico do próprio sangue encheu sua boca, cortesia de ter mordido a língua. — Subestimado? — Malik se inclinou, sua voz um sibilo furioso. — Você não subestima um leão, Gabriel. Você corre. Você se submete. E você está testando a minha paciência como ninguém jamais testou. Gabriel se apoiou na parede, tentando se levantar. A dor era um lembrete constante, mas a raiva era um fogo que o impulsionava. Ele não podia ceder. Ele não podia dar a eles a satisfação de vê-lo quebrado. — Eu não corro de tiranos — Gabriel retrucou, sua voz rouca. Ele tentou se firmar, as pernas bambas. — Vocês não são leões. São apenas… valentões. Com um esquema infantil de controle. Malik se agachou na frente dele, o rosto a centímetros do seu. O hálito quente e raivoso atingiu Gabriel. — Infantil? Você acha que tudo isso é infantil? Você não tem a menor ideia do que está acontecendo aqui, garoto. Você não entende o poder. O que estamos construindo. — Eu entendo que vocês me enganaram — Gabriel disse, forçando-se a olhar nos olhos furiosos de Malik. — Que usaram minha busca por liberdade contra mim. Que me veem como um objeto. E eu entendo que isso me dá o direito de lutar. Malik grunhiu, a mão subindo. Por um instante, Gabriel pensou que ele iria bater nele. Ele cerrou os olhos, mas o golpe não veio. Em vez disso, a mão de Malik agarrou seu cabelo, puxando com força, forçando sua cabeça para trás. Uma dor aguda explodiu em seu couro cabeludo. — Lutar? Você? — Malik sussurrou, a voz carregada de escárnio. — Você não tem ideia do que significa lutar contra nós. Nós temos olhos em todo lugar. Ouvidos em cada esquina. Você acha que está sozinho nesta guerra? Que erro ingênuo. Gabriel se contorceu, tentando se libertar do aperto, mas era inútil. Malik era uma rocha. O terror paralisante ameaçava engoli-lo, mas a imagem dos túneis, do Arquiteto, da traição, reacendeu sua fúria. Ele não seria a vítima indefesa. — O que você viu, Gabriel? — Malik exigiu, puxando mais forte. — Me diga cada detalhe. Cada rosto, cada palavra. Ou eu juro por Deus que você vai se arrepender de cada decisão estúpida que tomou hoje. Gabriel arfou, seus olhos fixos no teto. Ele não podia. Não podia dar a eles o que queriam. Não podia permitir que vencessem tão facilmente. A dor era imensa, mas a recusa em ceder era maior. --- James deu um passo à frente, sua mão pousando no ombro de Malik. A ação foi sutil, mas a tensão na postura de Malik diminuiu, mesmo que minimamente. Malik soltou o cabelo de Gabriel, empurrando sua cabeça para baixo antes de se afastar, os olhos ainda chamejantes. Gabriel massageou o couro cabeludo, o pescoço dolorido. — Malik, chega. Não é assim que conseguimos informações — James disse, sua voz calma, mas com uma autoridade inegável. Ele se ajoelhou na frente de Gabriel, a uma distância respeitosa, mas seu olhar era penetrante. — Gabriel, não há necessidade de tornar isso mais difícil do que já é. Você sabe que está em uma posição delicada. — Delicada? Vocês invadem meu quarto, me agridem e esperam que eu colabore? — Gabriel retrucou, tentando se recompor. Ele se sentou, apoiando-se na parede, as pernas esticadas à frente. O suor frio escorria pelas suas têmporas. James sorriu, um sorriso polido que não alcançava seus olhos. — Nós estamos tentando evitar que você cometa um erro ainda maior. Você não entende a magnitude do que está envolvido aqui. As famílias. O programa. Você é um calouro, Gabriel. Um calouro muito curioso, e agora, muito problemático. — Não sou problema de vocês — Gabriel retrucou, a voz ainda rouca. Ele sentiu o ar frio da janela no seu rosto, um pequeno lembrete do mundo exterior que parecia tão distante agora. — Eu só quero sair disso. Deixar essa loucura para trás. — Sair? — Malik zombou, cruzando os braços. — Você acha que é assim que funciona? Uma vez que você entra, Gabriel, não há saída. Você é uma parte. Uma peça valiosa. E agora, uma peça que se moveu para onde não deveria. — Nós não somos seus inimigos, Gabriel — James continuou, ignorando Malik. Sua voz era quase sedutora, uma cobra na grama. — Nós poderíamos ser seus protetores. Seus guias. Seus… parceiros. Pense no que podemos oferecer. Pense no poder que você poderia ter, ao nosso lado. Gabriel balançou a cabeça, recusando a oferta de controle, de uma jaula de ouro. Ele não era ingênuo. Ele sabia que a parceria de James vinha com uma coleira invisível, mais forte do que qualquer corrente. Ele sabia que o que eles ofereciam era apenas mais uma forma de cativeiro. — Eu não quero fazer parte de nada disso — Gabriel disse, sua voz firme, apesar da dor em seu ombro e da palpitação em seu peito. — Eu quero minhas escolhas de volta. Minha vida. James suspirou, um som de resignação forçada. Ele se levantou, a sombra caindo sobre Gabriel mais uma vez. Seus olhos se encontraram, e o olhar de James era frio e desapaixonado, como o de um açougueiro avaliando um pedaço de carne. — Que pena. Poderíamos ter evitado isso. — James se virou para Malik, que estava observando a cena com uma antecipação sombria. — Ele não vai falar sem um pequeno incentivo, Malik. Malik sorriu, um sorriso que congela o sangue, e James, com uma voz fria e calculista, diz: — Agora, Gabriel, você vai nos contar tudo o que sabe. Ou vamos mostrar a você o que acontece quando se brinca com o fogo errado.

End of Chapter 22