Chapter 23 of 30
A Proposta Cruel
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A mão de Malik ainda apertava seu colarinho, os nós dos dedos brancos contra o tecido amassado. O rosto dele estava a centímetros do seu, a respiração quente e irregular contra sua pele. Gabriel sentia a raiva borbulhar, uma fúria fria que ardia por baixo do medo.
— Você acha que nos engana, Gabriel?
A voz de Malik era um rosnado baixo. Os olhos dele, escuros e implacáveis, pareciam perfurar os seus, buscando cada segredo. Gabriel mal podia respirar, a pressão no colarinho cortando o ar.
— Malik. Solte-o.
A voz de James cortou o ar como um bisturi, calma e firme. Malik hesitou, a mandíbula travada, mas afrouxou o aperto. Gabriel cambaleou para trás, massageando o pescoço, o tecido da camisa amassado e a garganta arranhada. Ele podia sentir o pulso vibrando nas têmporas, o cheiro de suor e adrenalina em seu próprio corpo.
James o observava com um sorriso fino, quase imperceptível. Não havia raiva nos olhos dele, apenas uma curiosidade estudada, como um cientista analisando uma amostra recalcitrante.
— Então, Gabriel. Os túneis. A reunião.
As palavras caíram pesadas no ar, cada uma um peso morto. O coração de Gabriel deu um salto, um baque seco contra as costelas. Eles sabiam. Não era uma suposição. Era um fato.
— Achou que passaria despercebido?
James deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles. Malik permaneceu parado, um guardião silencioso e ameaçador. Gabriel sentiu o suor frio escorrer pelas costas. Aquele medo, ele o conhecia bem. O medo de ser pego, de ter sua autonomia roubada. Mas com ele vinha a raiva.
— Você não é tão inteligente quanto pensa, Gabriel. Acha mesmo que este campus não tem olhos e ouvidos em cada sombra? Que as paredes não sussurram?
A voz de James era suave, quase sedutora, mas cada palavra era uma pontada afiada. Gabriel cerrou os punhos, as unhas cravando-se nas palmas das mãos. Ele tentou manter a expressão neutra, mas o tremor nas mãos o traía. O canto do olho de James pareceu registrá-lo.
— Foi ingênuo. Ou talvez apenas arrogante.
— Eu não vi nada.
A resposta de Gabriel saiu mais rápida do que ele pretendia, um reflexo. A mentira soou vazia, até para seus próprios ouvidos. James soltou uma risada baixa, sem humor.
— Não finja. Sabemos cada passo seu, Gabriel. Cada corredor que você percorreu, cada sombra em que se escondeu. Até mesmo o suor frio na sua testa agora.
Os olhos de James brilhavam com uma satisfação cruel. Ele sabia que o havia pegado. Sabia que a farsa de Gabriel havia desmoronado. Gabriel sentia o calor subir ao rosto, a humilhação queimando. Eles o observavam. Constantemente. Como um experimento em um laboratório.
— Quem te disse?
Gabriel não pôde evitar a pergunta. O desejo de saber a extensão da traição o consumia. James apenas inclinou a cabeça, um gesto de escárnio.
— Isso não importa. O que importa é que você entendeu. Ou começou a entender. Não há segredos neste lugar, Gabriel. Não de nós.
Malik pigarreou, um som áspero. Ele não parecia divertido como James, mas seu olhar era de pura satisfação. Como se cada palavra de James fosse uma confirmação do que ele já havia dito: Gabriel era uma peça no jogo deles. Uma peça que tentou se mover por conta própria e foi punida por isso.
— A liberdade que você tanto busca… é uma ilusão que construímos para você.
As palavras de James ecoaram, cortando mais fundo do que qualquer golpe físico. Gabriel sentiu o estômago revirar. A busca por autonomia, o desespero por não ser controlado, tudo havia sido uma farsa desde o início. Uma armadilha habilmente montada.
— Acha que pode desafiar o que nem mesmo compreende?
James balançou a cabeça lentamente, como se Gabriel fosse uma criança teimosa. O tom dele era de pena falsa, um insulto mais profundo que a raiva. Gabriel deu um passo para trás, a cabeça girando com a compreensão amarga.
Eles sabiam de tudo. E estavam ali para garantir que ele soubesse disso. A sala parecia encolher, o ar pesado com a ameaça implícita.
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— Mas não se preocupe, Gabriel.
A voz de James quebrou o silêncio tenso. Ele estendeu a mão, um gesto calmo, como se fosse oferecer uma trégua. Mas Gabriel viu a armadilha, a ponta afiada escondida sob a luva de veludo.
— Sempre há uma solução para aqueles que entendem seu lugar.
Gabriel não respondeu, apenas observou, os olhos estreitos. A raiva interna estava se solidificando em algo frio e perigoso. Ele não era uma solução. Ele era um problema.
— Você tem potencial. Um espírito… indomável, digamos. Isso é valioso. Mas precisa ser lapidado. Controlado.
Malik soltou uma risada curta, um som sem humor. Ele se aproximou, parando ao lado de James, os braços cruzados sobre o peito. A presença dos dois era esmagadora, sufocante. Gabriel sentiu-se como um inseto entre dois polegares.
— O programa tem planos para você, Gabriel. Grandes planos. Mas esses planos exigem… cooperação.
James fez uma pausa, os olhos fixos nos dele, testando, medindo. Gabriel manteve o silêncio, recusando-se a dar-lhes a satisfação de uma resposta imediata. Ele não cooperaria. Ele não se submeteria.
— E a melhor forma de garantir essa cooperação é… aliança.
— Aliança?
A palavra escapou de Gabriel antes que ele pudesse contê-la. O escárnio em sua voz era evidente. A que tipo de aliança James se referia? Entre um prisioneiro e seus carcereiros?
— Sim. Uma aliança. Mas uma aliança… especial.
James sorriu, um brilho perverso nos olhos. Ele se virou para Malik, e Malik retribuiu o olhar, um entendimento silencioso passando entre eles. Gabriel viu o que eles estavam fazendo. A farsa da rivalidade, desmascarada, dava lugar a uma colaboração ainda mais sinistra.
— Você se tornará nosso protegido.
A frase de James foi um golpe seco. Gabriel sentiu o ar sair dos pulmões. Protegido. Não um aliado, não um igual. Um item. Uma posse. O estômago de Gabriel se revirou com a náusea. O sangue fervia em suas veias.
— Sob nosso domínio. De ambos.
Malik acrescentou, a voz grave e autoritária. O controle. Era tudo sobre controle. A ironia era um veneno amargo na sua língua. Ele havia fugido de uma vida de controle, apenas para ser enredado em uma teia ainda mais complexa e perigosa. Uma gaiola dourada com duas chaves, cada uma na mão de um de seus captores.
— Você terá… poder. Status. Segurança.
James listou os “benefícios” com um tom de vendedor. Gabriel viu através da fachada. Poder e status que não seriam realmente seus, segurança que seria apenas a de um animal de estimação em um zoológico particular. Tudo em troca de sua total submissão.
— Nada de correr, nada de lutar. Apenas aceitar o seu destino.
Malik deu um passo adiante, os olhos fixos em Gabriel. Não havia uma sugestão na voz dele, mas uma ordem. Uma imposição. A raiva silenciosa dentro de Gabriel transformou-se em um incêndio. Ele se recusava. Ele jamais se curvaria a eles. Aquele enjoo, a bile subindo pela garganta, era a resposta mais honesta do seu corpo.
— Você tem uma semana para considerar a proposta.
A voz de James era final. Uma semana. Um prazo para que ele cedesse. Um prazo para que sua vontade fosse quebrada. Gabriel engoliu em seco, sentindo o gosto da traição em sua boca.
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— Ou talvez nem precise de uma semana.
Malik se adiantou, cortando o ar entre eles. A postura dele era de caçador, predador. James observava de trás, um sorriso sutil brincando em seus lábios, como se apreciasse o espetáculo. Malik queria ver a quebra, a submissão. James queria a peça perfeita para o seu jogo.
— Não há escapatória, Gabriel. Acha que pode nos vencer? Acha que pode correr de nós? Você não tem ideia do alcance de *o programa*.
As palavras de Malik eram como pedras, pesadas e dolorosas. Gabriel sentiu o tremor nas pernas. Ele não tinha ideia do alcance, era verdade. Mas sabia que não podia simplesmente ceder. Aquele era o seu pior pesadelo, a perda completa de sua identidade.
— A proteção de James é uma ilusão, Gabriel. Uma jaula bonita. Mas quem a tranca? Quem decide o que entra e o que sai? Nós. Ambos.
Malik apontou para si mesmo e depois para James. A colaboração era evidente agora, crua e descarada. Eles estavam agindo em uníssono, as vozes complementares, as ameaças entrelaçadas. Não havia mais a rivalidade fabricada, apenas a unidade de seus captores.
— Você está preso, Gabriel. Querendo ou não. É apenas uma questão de como você quer viver sua prisão.
O cinismo na voz de Malik era palpável. Gabriel sentiu um arrepio. Uma prisão. A palavra ecoou, fria e inescapável. Ele olhou para James, depois para Malik, buscando uma rachadura, uma falha. Não havia nenhuma. A frente deles era sólida, impenetrável.
— Se aceitar, terá seu conforto, seus estudos, sua pequena vida de privilégios. Mas estará sempre sob nosso olhar. Sob nosso comando.
James explicou, como se estivesse fazendo um favor a ele. Gabriel sentia a bile subir à garganta novamente. Eles estavam oferecendo uma vida de cativeiro como se fosse um presente. O insulto era profundo, a humilhação corrosiva.
— Se recusar… bem. A vida sem nossa proteção aqui é… árdua. Você já sentiu um pequeno gostinho, não sentiu?
Malik inclinou a cabeça, um brilho perigoso nos olhos. A menção dos homens corpulentos que invadiram seu quarto, a agressão que ele havia suportado. Não era uma ameaça vazia. Eles já haviam demonstrado seu poder.
— E pode ficar muito pior, Gabriel. Muito pior. A universidade é um microcosmo do mundo, e neste mundo, nós ditamos as regras.
A voz de James era fria, calculista. Gabriel sabia que eles não estavam blefando. A influência das famílias Costa e Almeida, o alcance de *o programa*, a rede de vigilância. Era tudo real. E ele estava no centro dela, uma mosca presa na teia.
— Não haverá escapatória. Não haverá trégua. Apenas a perseguição implacável até que você entenda. Até que você quebre.
Malik deu mais um passo, diminuindo ainda mais o espaço entre eles. Gabriel podia sentir o calor do corpo de Malik, a tensão irradiando dele. Ele recuou, mas suas costas encontraram a parede, impedindo qualquer fuga. Ele estava encurralado, tanto física quanto metaforicamente.
— Seu idealismo, sua rebeldia… são traços encantadores. Mas serão sua ruína se não aprender a dobrá-los à nossa vontade.
James observava a cena com uma satisfação contida. Gabriel sentiu o suor escorrer pela testa. A cada palavra, a parede de sua liberdade desmoronava um pouco mais. O futuro que ele havia imaginado, livre e autônomo, estava sendo esmagado diante de seus olhos.
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O ar no quarto parecia mais rarefeito. O silêncio que se seguiu às ameaças de Malik e James era pesado, carregado de uma pressão insuportável. Gabriel sentiu-se esvaziado, o corpo tenso, a mente correndo em círculos. Não havia saída. Não havia caminho de volta.
Seu peito subia e descia rapidamente, a respiração presa na garganta. Ele tentou pensar, tentou encontrar uma brecha, uma falha na lógica cruel deles, mas não encontrou. A proposta era um ultimato, um cativeiro disfarçado de oferta. A ironia mordia, afiada e dolorosa. Ele havia fugido de um controle, apenas para ser oferecido um controle duplo, mais insidioso, mais absoluto.
A raiva, contida por tanto tempo, começou a borbulhar. Não era mais a fúria cega que o dominava antes. Era uma raiva silenciosa, fria e calculista. Uma promessa sombria para si mesmo. Ele não se submeteria. Não desta forma. A busca por liberdade havia se transformado em uma luta pela sobrevivência, pela preservação de seu próprio ser.
Os olhos de Malik não o deixavam, cada olhar um tentáculo possessivo. James permanecia um pouco mais distante, mas sua presença era igualmente opressora, a mente por trás da estratégia, o arquiteto daquela jaula.
— Então, Gabriel.
A voz de James era suave, quase um murmúrio, mas carregava o peso de uma sentença. Ele deu um passo adiante, seus olhos fixos nos de Gabriel. Parecia buscar por um sinal de rendição, um vacilo em sua postura. Gabriel não lhe daria essa satisfação.
Malik se moveu. Com uma fluidez inesperada, ele se ajoelhou na frente de Gabriel. O gesto era teatral, carregado de um simbolismo sombrio. Ele não estava se curvando a Gabriel, mas exigindo sua reverência. Seus olhos, escuros e intensos, prenderam os de Gabriel. O contato era elétrico, perturbador. Gabriel sentiu um arrepio, um misto de repulsa e uma atração perigosa que ele se recusava a reconhecer.
O rosto de Malik estava sério, sem vestígios da crueldade anterior. A proximidade era demais, sufocante. Gabriel podia sentir a respiração dele, o cheiro amadeirado de seu perfume. Ele tremia, mas não de medo puro, e sim de uma fúria crescente, um desejo ardente de quebrar as correntes antes mesmo que fossem forjadas. O coração de Gabriel batia forte, um tambor de desafio dentro de seu peito. Ele não seria um brinquedo. Ele não seria uma peça.
— Escolha, Gabriel. Submeta-se a nós. Ou se prepare para um inferno que você nunca imaginou.