Chapter 21 of 30

O Silêncio Ameaçador

2.9k words

A lâmpada de teto no quarto de Gabriel zumbia, um som quase inaudível, mas que agora parecia um aviso constante. Ele tentava ler o capítulo sobre bioengenharia, mas as palavras escorregavam, embaçadas pela expectativa. Três dias. Três dias desde a descoberta nos túneis, e o silêncio de Malik e James era um veneno lento, mais potente que qualquer ameaça direta. Ele esperava a explosão, o confronto, mas nada vinha. — Você está bem, Gabriel? — Lucas pergunta, a voz casual, mas os olhos fixos na tela do laptop. Ele não se vira, mas Gabriel sente o peso do seu olhar. — Só... cansado, — Gabriel responde, a mentira pesando na língua. Ele vira a página, sem absorver nada. — A faculdade é assim mesmo. Pega a gente de jeito, — Lucas comenta, e um clique suave, quase inaudível, ecoa do laptop. Gabriel se pergunta se Lucas está realmente trabalhando ou apenas fingindo. Gabriel se levanta, a cadeira raspando no chão de linóleo. Ele precisa de ar. Precisa de movimento. A opressão dentro das quatro paredes era sufocante. Caminha até a pequena janela, observando o campus. Alunos passavam, rindo, abraçados. Ninguém parecia notar a guerra invisível que Gabriel sentia borbulhar sob a superfície da normalidade. — Vai sair? — Lucas pergunta, e Gabriel vira o pescoço tão rápido que sente um estalo. — Sim. Preciso de um café. — A voz de Gabriel soa mais brusca do que ele pretendia. Ele pega a chave e a carteira, os dedos ligeiramente trêmulos. — Não se preocupe demais. As coisas se ajeitam, — Lucas diz, finalmente virando o rosto. Um sorriso suave brinca em seus lábios, mas os olhos são opacos, distantes. É o mesmo olhar que Gabriel viu no rosto de James. Gabriel não responde. A porta se fecha atrás dele com um baque seco, amplificando o vazio do corredor. O silêncio da ausência deles era uma forma de tortura. Era como estar no olho de um furacão, esperando a próxima rajada de vento que o jogaria contra as paredes. Ele desce as escadas, cada degrau um eco na quietude artificial. A falta de um movimento deles, de uma ligação, de um olhar de desprezo, era a prova mais clara de que eles sabiam. Sabiam que ele os vira. E estavam esperando. Para quê? Para que ele se desesperasse? Para que ele baixasse a guarda? A cada segundo, a calma o afundava mais fundo na escuridão da incerteza, e ele odiava o medo que começava a corroer sua coragem. --- Gabriel atravessa o campus, os olhos varrendo os grupos de estudantes, as mesas do refeitório, os bancos sob as árvores. Cada pessoa é uma potencial lente, cada sussurro um fragmento de uma conversa sobre ele. Ele pega um café na lanchonete, o vapor quente subindo em espiral, mas o cheiro de grãos torrados não consegue acalmar seu nervosismo. Ele paga, os trocados escorregando de seus dedos. — Tudo bem, Gabriel? Parece que viu um fantasma. — A moça do caixa, uma caloura de Letras, dá um sorriso gentil. Ele a conhece de uma aula optativa. — Estou ótimo, Mariana. Só um pouco distraído, — Gabriel mente, forçando um sorriso que não alcança seus olhos. Ele pega o copo e se afasta rapidamente, sentindo a necessidade de ser invisível. Ele se senta em um canto isolado do refeitório, o olhar fixo no copo. A paranoia era uma névoa densa, turvando tudo. A garota de cabelo vermelho no fundo da sala ri alto demais. Ele vira a cabeça. O rapaz com o boné azul fala ao telefone, gesticulando. Ele estreita os olhos. São apenas estudantes. Mas a mente de Gabriel não conseguia aceitar isso. Era Lucas no quarto. Era Elisa no laboratório. Era a recepcionista da biblioteca. Ele jura que, por um instante, o reflexo na vitrine da lanchonete mostra uma figura alta e esguia, com um brilho metálico no dedo, antes de desaparecer. James. Ele se vira bruscamente. Nada. Apenas a rua movimentada, os carros passando. — Você devia comer alguma coisa, — uma voz profunda ressoa ao seu lado. Gabriel pula, derramando um pouco de café quente na mão. É Professor Alves, seu professor de bioquímica, que se senta na mesa ao lado com um livro grosso. — Professor! Não o vi chegar. — Gabriel limpa a mão apressadamente. — Está muito aéreo, garoto. A vida acadêmica exige foco. — Alves o observa com uma sobrancelha arqueada. Seu tom é de preocupação, mas Gabriel sente um calafrio. — Eu sei. É que... as coisas estão um pouco intensas. — Gabriel se sente exposto, a cada palavra um passo em falso. Ele se pergunta se Alves é parte disso. Se todos são. A rede parecia se estender por toda a universidade. Alves apenas balança a cabeça, abrindo o livro. — A mente é uma ferramenta poderosa. Use-a bem. — Ele não acrescenta mais nada, mas as palavras ecoam, cheias de um significado não dito. Gabriel sente o suor escorrer pela nuca. Ele se levanta, o café intocado, e sai correndo, cada sombra se alongando, cada sussurro em seus calcanhares, a certeza de estar sendo caçado crescendo a cada passo. --- Os dias se arrastam, pesados, lentos, como um pântano. Gabriel evita seu quarto o máximo possível, mas o campus também não é um refúgio. Ele tenta se concentrar nas aulas, nos livros, na rotina, mas a tensão é uma corda esticada, vibrando a ponto de se romper. Ele mal come, mal dorme. Seus nervos estão à flor da pele, cada som amplificado, cada rosto uma ameaça potencial. Ele encontra Elisa no corredor, os braços cheios de papéis. — Gabriel, ainda não me entregou a revisão do projeto. Está tudo bem com o prazo? — Ela pergunta, a voz amável, mas os olhos fixos em Gabriel de uma forma que o faz sentir-se sob um microscópio. — Sim, Professora. Estou finalizando. — Gabriel aperta o passo, não querendo prolongar o contato. O sorriso dela parece falso, ensaiado. — Ótimo. Estou ansiosa para ver seu progresso. — Ela o observa enquanto ele se afasta, a sensação de ser monitorado se solidificando. Ele sabe que ela está reportando cada movimento seu. Cada falha. Cada sinal de fraqueza. No refeitório, ele ouve fragmentos de conversas. A lâmpada de teto no quarto de Gabriel zumbia, um som quase inaudível, mas que agora parecia um aviso constante. Ele tentava ler o capítulo sobre bioengenharia, mas as palavras escorregavam, embaçadas pela expectativa. Três dias. Três dias desde a descoberta nos túneis, e o silêncio de Malik e James era um veneno lento, mais potente que qualquer ameaça direta. Ele esperava a explosão, o confronto, mas nada vinha. — Você está bem, Gabriel? — Lucas pergunta, a voz casual, mas os olhos fixos na tela do laptop. Ele não se vira, mas Gabriel sente o peso do seu olhar. — Só... cansado, — Gabriel responde, a mentira pesando na língua. Ele vira a página, sem absorver nada. — A faculdade é assim mesmo. Pega a gente de jeito, — Lucas comenta, e um clique suave, quase inaudível, ecoa do laptop. Gabriel se pergunta se Lucas está realmente trabalhando ou apenas fingindo. Gabriel se levanta, a cadeira raspando no chão de linóleo. Ele precisa de ar. Precisa de movimento. A opressão dentro das quatro paredes era sufocante. Caminha até a pequena janela, observando o campus. Alunos passavam, rindo, abraçados. Ninguém parecia notar a guerra invisível que Gabriel sentia borbulhar sob a superfície da normalidade. — Vai sair? — Lucas pergunta, e Gabriel vira o pescoço tão rápido que sente um estalo. — Sim. Preciso de um café. — A voz de Gabriel soa mais brusca do que ele pretendia. Ele pega a chave e a carteira, os dedos ligeiramente trêmulos. — Não se preocupe demais. As coisas se ajeitam, — Lucas diz, finalmente virando o rosto. Um sorriso suave brinca em seus lábios, mas os olhos são opacos, distantes. É o mesmo olhar que Gabriel viu no rosto de James. Gabriel não responde. A porta se fecha atrás dele com um baque seco, amplificando o vazio do corredor. O silêncio da ausência deles era uma forma de tortura. Era como estar no olho de um furacão, esperando a próxima rajada de vento que o jogaria contra as paredes. Ele desce as escadas, cada degrau um eco na quietude artificial. A falta de um movimento deles, de uma ligação, de um olhar de desprezo, era a prova mais clara de que eles sabiam. Sabiam que ele os vira. E estavam esperando. Para quê? Para que ele se desesperasse? Para que ele baixasse a guarda? A cada segundo, a calma o afundava mais fundo na escuridão da incerteza, e ele odiava o medo que começava a corroer sua coragem. --- Gabriel atravessa o campus, os olhos varrendo os grupos de estudantes, as mesas do refeitório, os bancos sob as árvores. Cada pessoa é uma potencial lente, cada sussurro um fragmento de uma conversa sobre ele. Ele pega um café na lanchonete, o vapor quente subindo em espiral, mas o cheiro de grãos torrados não consegue acalmar seu nervosismo. Ele paga, os trocados escorregando de seus dedos. — Tudo bem, Gabriel? Parece que viu um fantasma. — A moça do caixa, uma caloura de Letras, dá um sorriso gentil. Ele a conhece de uma aula optativa. — Estou ótimo, Mariana. Só um pouco distraído, — Gabriel mente, forçando um sorriso que não alcança seus olhos. Ele pega o copo e se afasta rapidamente, sentindo a necessidade de ser invisível. Ele se senta em um canto isolado do refeitório, o olhar fixo no copo. A paranoia era uma névoa densa, turvando tudo. A garota de cabelo vermelho no fundo da sala ri alto demais. Ele vira a cabeça. O rapaz com o boné azul fala ao telefone, gesticulando. Ele estreita os olhos. São apenas estudantes. Mas a mente de Gabriel não conseguia aceitar isso. Era Lucas no quarto. Era Elisa no laboratório. Era a recepcionista da biblioteca. Ele jura que, por um instante, o reflexo na vitrine da lanchonete mostra uma figura alta e esguia, com um brilho metálico no dedo, antes de desaparecer. James. Ele se vira bruscamente. Nada. Apenas a rua movimentada, os carros passando. — Você devia comer alguma coisa, — uma voz profunda ressoa ao seu lado. Gabriel pula, derramando um pouco de café quente na mão. É Professor Alves, seu professor de bioquímica, que se senta na mesa ao lado com um livro grosso. — Professor! Não o vi chegar. — Gabriel limpa a mão apressadamente. — Está muito aéreo, garoto. A vida acadêmica exige foco. — Alves o observa com uma sobrancelha arqueada. Seu tom é de preocupação, mas Gabriel sente um calafrio. — Eu sei. É que... as coisas estão um pouco intensas. — Gabriel se sente exposto, a cada palavra um passo em falso. Ele se pergunta se Alves é parte disso. Se todos são. A rede parecia se estender por toda a universidade. Alves apenas balança a cabeça, abrindo o livro. — A mente é uma ferramenta poderosa. Use-a bem. — Ele não acrescenta mais nada, mas as palavras ecoam, cheias de um significado não dito. Gabriel sente o suor escorrer pela nuca. Ele se levanta, o café intocado, e sai correndo, cada sombra se alongando, cada sussurro em seus calcanhares, a certeza de estar sendo caçado crescendo a cada passo. --- Os dias se arrastam, pesados, lentos, como um pântano. Gabriel evita seu quarto o máximo possível, mas o campus também não é um refúgio. Ele tenta se concentrar nas aulas, nos livros, na rotina, mas a tensão é uma corda esticada, vibrando a ponto de se romper. Ele mal come, mal dorme. Seus nervos estão à flor da pele, cada som amplificado, cada rosto uma ameaça potencial. Ele encontra Elisa no corredor, os braços cheios de papéis. — Gabriel, ainda não me entregou a revisão do projeto. Está tudo bem com o prazo? — Ela pergunta, a voz amável, mas os olhos fixos em Gabriel de uma forma que o faz sentir-se sob um microscópio. — Sim, Professora. Estou finalizando. — Gabriel aperta o passo, não querendo prolongar o contato. O sorriso dela parece falso, ensaiado. — Ótimo. Estou ansiosa para ver seu progresso. — Ela o observa enquanto ele se afasta, a sensação de ser monitorado se solidificando. Ele sabe que ela está reportando cada movimento seu. Cada falha. Cada sinal de fraqueza. No refeitório, ele ouve fragmentos de conversas. '...o projeto...' '...Alves está estranho...' '...desapareceu...' As palavras dançavam ao redor dele, sem nexo e, ainda assim, carregadas de um peso inexplicável. Ele se levanta abruptamente, derrubando a cadeira com um estrondo. Todos os olhares se voltam para ele. O silêncio que se seguiu foi um grito mudo. A face de Gabriel esquenta. Ele murmura um pedido de desculpas desajeitado, puxa a cadeira para o lugar e sai. Ele precisava de um lugar onde pudesse respirar. Seu quarto, apesar de Lucas, era o único lugar que se aproximava de uma fortaleza. A caminhada de volta parecia um desfile. Cada janela do campus um olho, cada arbusto um esconderijo. A testa dele estava úmida, embora o ar estivesse fresco. Ele alcança o prédio do dormitório, a porta de madeira gasta parecendo mais pesada que o normal. Ele sobe os degraus, o som dos próprios passos o único ruído. Abre a porta do quarto e entra, fechando-a rapidamente atrás de si. A fechadura range enquanto ele a gira, o clique do metal soando alto demais. O cheiro de livro velho e café frio pairava no ar. Lucas não estava. Uma onda de alívio e, ao mesmo tempo, de uma solidão opressora o atinge. Pelo menos, por alguns minutos, ele estava sozinho. Realmente sozinho. Gabriel joga a mochila no chão, o som abafado. Ele caminha até a janela, empurrando as persianas. O sol da tarde pintava o gramado de ouro, mas Gabriel via apenas sombras se espreitando nas árvores distantes. Ele esfrega a nuca, a tensão uma pedra alojada ali. Ele tenta respirar fundo, mas o ar parecia denso, pesado. Ele pega um livro da prateleira, um romance antigo que o avô costumava ler. Ele precisava de algo para ancorá-lo, algo que não fosse bioengenharia ou esquemas de túneis. Ele se senta na beirada da cama, as molas rangendo. O livro em suas mãos parecia uma relíquia de um tempo mais simples, um mundo onde a maior ameaça era uma prova final. Ele abre em uma página aleatória, as palavras sobre um velho marinheiro e o mar. Ele sente os ombros relaxarem um pouco, a mente divagando por um instante, longe do campus e de seus predadores invisíveis. Um sopro de ar, talvez de segurança, entrava e saía de seus pulmões. De repente, um estrondo seco vindo da porta do quarto. Gabriel salta da cama, o livro caindo no chão com um baque surdo. O som não era de uma batida normal. Era um som de madeira se estilhaçando, de metal sendo forçado. Seu coração dispara, batendo contra as costelas como um pássaro preso. Ele recua, os olhos fixos na porta. Outro estrondo, mais forte. A moldura da porta tremeu, uma rachadura se estendendo da fechadura para cima. Não era Lucas. Lucas tinha uma chave. E não faria tanto barulho. Um pânico gélido se espalha por suas veias. Ele procura por algo, qualquer coisa. A única coisa em suas mãos era o livro, inútil. A porta estourou para dentro, arrancada das dobradiças, e bateu na parede com violência. Dois homens altos e corpulentos entraram no quarto. Eles não eram Malik nem James, mas seus olhos eram frios, vazios. Um deles usava um boné de beisebol virado para trás, o outro tinha uma cicatriz feia que ia da sobrancelha à maçã do rosto. Gabriel recuou, tropeçando na própria mochila, caindo de costas na cama. O homem do boné fecha a porta quebrada, empurrando-a de volta para a moldura, um aviso silencioso de que não haveria fuga. O outro, o da cicatriz, dá um passo à frente, um sorriso cruel se espalhando por seus lábios. Gabriel sente o colchão afundar sob ele, o suor escorrendo pela testa. Ele tenta gritar, mas a voz não vem. Seus pulmões se recusam a funcionar. O homem da cicatriz estende a mão, uma luva de couro preta, e agarra o colarinho da camisa de Gabriel. Ele o puxa para cima com uma força brutal, erguendo-o facilmente da cama. O ar é arrancado dos pulmões de Gabriel. Ele tenta se debater, chutar, mas seus movimentos são fracos, desajeitados. A mão do homem aperta mais forte, o tecido da camisa sufocando-o. "Achou que ia nos enganar?" a voz grave do homem da cicatriz sibila, perto do seu ouvido. O cheiro de nicotina e algo metálico envolve Gabriel. Seus pés mal tocam o chão. O outro homem, o do boné, se aproxima, um objeto escuro e retangular na mão. Gabriel tenta focar, mas a visão está embaçada. Sua cabeça gira. O medo, antes um sussurro, agora era um rugido ensurdecedor. Ele estava completamente indefeso, pendurado no ar, seus olhos implorando por uma misericórdia que sabia que não viria.

End of Chapter 21