Chapter 20 of 30

A Fuga e o Pavor

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O ar nos túneis era denso, um cheiro de mofo e terra úmida preenchendo as narinas de Gabriel. Ele rastejava, os joelhos raspando no chão de concreto áspero, cada movimento doloroso e lento. O coração batia descompassado contra as costelas, um tambor frenético que ecoava no silêncio opressor. — Fui visto? Não. Não posso ter sido, ele pensou, a voz em sua cabeça um sussurro rouco. — Não olhei para trás. Um ranger metálico distante fez com que ele parasse, o corpo travando em pânico. Ele se encolheu, o pequeno espaço ao redor parecendo diminuir, apertando-o ainda mais. O suor frio escorria pela testa, misturando-se à poeira que grudava em sua pele. Ele não ousava respirar fundo, temendo que qualquer som pudesse delatá-lo. — Quem estava lá? Era o Arquiteto? Ou um deles? A escuridão era total, impenetrável. As mãos de Gabriel tateavam o chão à frente, buscando apoio, sentindo a umidade pegajosa e pequenos pedaços de entulho. Cada centímetro parecia uma milha. Ele precisava sair, precisava respirar o ar livre, longe daquele labirinto claustrofóbico de segredos e mentiras. — Eles sabem, a mente o torturava. — Eles sempre sabem. Um leve roçar próximo, um som quase imperceptível, fez seu sangue gelar. Ele congelou novamente, ouvindo com cada fibra do seu ser. Era um rato? Ou algo mais sinistro, rastejando nas sombras? Ele imaginou olhos vermelhos brilhando, observando-o. O medo era um nó apertado no estômago, uma náusea crescente. — Calma, ele se forçou. — Concentre-se. Você precisa sair. Ele engoliu em seco, sentindo a garganta seca e arranhada. A determinação lutava contra o pânico, uma batalha interna que o consumia. Ele não podia ceder. Não agora. Não depois de tudo o que tinha descoberto. Aquela visão de Malik e James, lado a lado, liderando, era uma faca cravada em sua confiança. — Eles me usaram. Me enganaram. E eu caí, como um idiota. Ele voltou a rastejar, ignorando a dor nos joelhos e cotovelos. A cada raspagem, a cada farrapo de roupa que se prendia nas arestas, ele sentia a urgência de escapar. O tempo parecia distorcido, cada segundo uma eternidade. Ele não sabia por quanto tempo esteve ali, mas parecia que horas haviam se passado. — Não pare. Não olhe para trás. A chave está em você. A mensagem antiga, a que ele havia decifrado na primeira vez que esteve nos túneis, voltou à sua mente. — A chave está em mim, ele murmurou, a voz quase inaudível. — E eu vou usá-la. Ele se forçou a acelerar, o corpo tremendo de exaustão e adrenalina. O medo de ser descoberto, de ser pego naqueles túneis, era uma força motriz brutal. Ele via as imagens dos encapuzados, seus rostos ocultos, suas intenções escuras. Aquela figura que se virara em sua direção, os olhos que talvez o tivessem encontrado. — Não era um erro estar aqui. Não era. Foi a única forma de saber a verdade. Ele não sabia para onde estava indo, apenas que precisava se mover, para longe daquele lugar macabro. Cada respiração era um esforço, cada músculo queimava. A humilhação de ter sido uma peça, um ‘ativo’, um ‘objeto’ naqueles jogos de poder, o impulsionava. Ele sentia a raiva fervendo, uma fúria fria que substituía o terror puro. — Eles vão pagar. Ah, se vão. --- As imagens se repetiam na mente de Gabriel, um loop cruel e incessante. Malik, com aquele sorriso arrogante e predatório, ao lado de James, com sua postura calculista e sedutora. Ambos, líderes de um ritual sombrio, os capuzes negros em fila, as vozes entoando ordens. A traição era um gosto amargo na boca, um veneno que se espalhava por suas veias. — Como pude ser tão cego? Ele perguntou a si mesmo, a voz em sua cabeça carregada de desprezo. — Eles me fizeram de bobo. Um grunhido escapou de seus lábios rachados. Ele ainda rastejava, mas a intensidade da raiva o impedia de sentir a dor física tão agudamente. Era uma fúria que o consumia, um fogo frio que prometia queimar tudo em seu caminho. — Malik disse que o ódio é o primeiro passo. Ele se lembrou das palavras do outro. — Ele estava certo. Mas não é o ódio que ele esperava. Ele se recordou daquele beijo no festival, da possessividade de Malik, daquela faísca inesperada que o havia perturbado. E James, com suas promessas de ‘gaiola dourada’, de ‘aliança’. Tudo uma farsa elaborada, um palco montado para um show de horrores. — Ferramentas. Eu era uma ferramenta para eles. Um brinquedo novo. O ar se tornou mais rarefeito, mas Gabriel não parou. A urgência de expor a verdade, de desmascarar aquele ‘programa’ e seus arquitetos, crescia a cada batida do coração. Ele não seria mais um peão. Nunca mais. Sua teimosia, antes uma falha, agora era sua armadura. — Eles acham que me controlam. Que sou deles. Ele riu sem humor, um som seco e rouco que ecoou brevemente. — Eles não têm ideia. Ele visualizou a cena novamente: James acenando, Malik olhando para o lado, como se conferindo que tudo estava em ordem. A performática rivalidade familiar, o jogo de poder na universidade – tudo uma cortina de fumaça. A manipulação dos fundos estudantis, a infiltração na diretoria. Os pedaços do quebra-cabeça se encaixavam em uma imagem grotesca. — E Lucas? O que ele sabe? O que ele faz? A pergunta pairou no ar escuro. — O 'guardião' de quê? A traição de Lucas, seu próprio colega de quarto, doeu de uma forma diferente. Mais íntima, mais traiçoeira. Era como se as paredes de seu santuário, seu dormitório, tivessem se tornado uma prisão. — Ninguém é quem parece ser. Ninguém. Ele se recusava a aceitar seu ‘destino como um fantoche’. A escolha oferecida pela voz distorcida naquele prédio de Química ecoava. Play the game? Não há regras? Ele agora entendia. As regras eram inventadas para controlá-lo. — Eu vou jogar. Mas do meu jeito. E eles não vão gostar. O ódio é o primeiro passo. E Gabriel havia dado o primeiro passo. Mas não em direção à rendição. Em direção à rebelião. Ele não era um objeto. Era uma pessoa com vontade, e ele a usaria para desmantelar o teatro que eles haviam construído. — Preparem-se. Vocês não me conhecem de verdade. --- Um feixe pálido de luz cinzenta se infiltrou através de uma fresta alta, um sinal tênue da superfície. Gabriel sentiu um alívio súbito e exaustivo, o corpo inteiro protestando. Ele se arrastou na direção da luz, cada músculo queimando. O ar ali era menos denso, mas ainda pesado com o cheiro de abandono. Ele forçou as mãos contra a parede úmida, usando o resto de sua força para se levantar, cambaleando. Os joelhos tremiam, a cabeça latejava. Ele estava coberto de poeira e teias de aranha, o rosto sujo, os cabelos emaranhados. Parecia um fantasma emergindo do subsolo. — Finalmente, ele sussurrou, a voz rouca, quase um gemido. A fresta era alta demais para que ele alcançasse, mas havia uma passagem mais adiante, uma porta de manutenção enferrujada, quase camuflada pela vegetação que crescia selvagem. Ele se arrastou até lá, a ânsia por ar puro e liberdade quase insuportável. — Não me pegaram. Não me viram. Ele repetiu como um mantra. Empurrou a porta com o ombro, o metal rangendo em protesto. A luz do dia, mesmo que fraca e opaca pelo céu nublado, o cegou por um momento. Ele piscou, sentindo a visão se ajustar lentamente. Estava em uma área isolada, perto do muro dos fundos do campus, entre alguns arbustos densos e árvores negligenciadas. O ar fresco encheu seus pulmões, trazendo consigo o cheiro de terra molhada e folhas. Ele respirou fundo, várias vezes, tentando acalmar o batimento cardíaco descontrolado. O terror ainda o apertava, mas agora vinha misturado a uma determinação fria e cortante. — Isso não acaba aqui, ele prometeu a si mesmo. — Isso só está começando. Ele se virou para olhar a porta de onde havia saído, um portal para um mundo de segredos e manipulações. Era uma entrada discreta, fácil de passar despercebida por quem não soubesse que estava ali. Ninguém o teria visto sair, ele esperava. — Preciso de um plano. Preciso saber mais. As imagens de Malik e James novamente assaltaram sua mente, mas agora ele os via sob uma nova ótica. Não eram adversários separados, mas peças de uma mesma máquina, engrenagens de um mecanismo maior. Ele era apenas um item a ser 'adquirido'. — Eu sou mais do que um ativo. Eu sou Gabriel. E eu não pertenço a ninguém. Ele limpou o rosto com a manga do casaco, sentindo a aspereza da poeira. A exaustão era imensa, mas a adrenalina ainda corria forte em suas veias. O medo não havia desaparecido, mas tinha sido temperado por uma raiva resoluta. Ele não seria mais uma vítima. Ele seria a pedra no sapato, a areia na engrenagem. — Vão se arrepender de terem me subestimado. Ele se endireitou, o olhar fixo em algum ponto distante, além do campus. A rebeldia que sempre o definira, seu desejo de autonomia, agora tinha um propósito claro e perigoso. Ele não estava fugindo mais. Ele estava se preparando para a guerra. — Que comecem os jogos. --- Gabriel caminhou de volta para o dormitório, cada passo carregado de uma mistura pesada de exaustão e paranoia. Ele se esgueirava pelas sombras, evitando os poucos estudantes que ainda circulavam pelo campus àquela hora tardia. Cada vulto, cada ruído distante, o fazia se encolher, a cabeça virando em busca de olhos que pudessem estar observando. Chegou ao prédio do dormitório, a chave parecendo pesada em sua mão trêmula. Entrou sem fazer barulho, subindo as escadas, os olhos fixos na porta do seu quarto. O corredor estava silencioso, as luzes baixas. — Lucas deve estar dormindo, ele pensou, sentindo um calafrio. — Ou fingindo. Ele destrancou a porta com o mínimo de som possível e deslizou para dentro. O quarto estava escuro, iluminado apenas pela luz tênue do poste lá fora. Fechou a porta suavemente, trancando-a novamente. Parou por um momento, encostado na madeira, respirando fundo e irregularmente. O quarto parecia o mesmo, mas a sensação de que algo estava errado era quase palpável. Seus olhos varreram o ambiente, buscando qualquer sinal, qualquer pista. Suas roupas sujas e rasgadas, sua pele empoeirada, contrastavam com a aparente ordem do lugar. — Estou seguro. Por enquanto. Ele se moveu em direção à sua cama, pronto para desabar. Foi então que o viu. Um bilhete cuidadosamente dobrado sobre seu travesseiro, branco contra o azul do tecido. Não estava ali quando ele saiu. O coração de Gabriel deu um salto, gelando-o por completo. — O quê...? Ele se aproximou, estendendo a mão, hesitante. O papel parecia novo, o vinco perfeito. Lentamente, com dedos trêmulos, ele o desdobrou. A luz fraca do poste mal alcançava a escrita, mas ele não precisava de muita luz. Seus olhos se arregalaram. Ali, desenhado com uma precisão assustadora, estava o símbolo tribal. Aquele mesmo símbolo que ele havia visto na tatuagem de Malik, na capa do livro de James, nas imagens dos túneis. O padrão intrincado, as linhas perfeitas, a representação da serpente entrelaçada com um olho. — Não... Ele murmurou, a voz falhando. Seu olhar desceu para a frase abaixo do desenho. As letras eram nítidas, em um tipo de caligrafia elegante e fria. Uma mensagem que o atingiu como um raio, confirmando seus piores medos, esmagando qualquer esperança de anonimato. 'Nós sabemos que você nos viu.'

End of Chapter 20