Chapter 1 of 30
Capítulo 1: A Primeira Faísca
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Gabriel empurrou a última caixa para dentro do minúsculo dormitório. O cheiro de tinta fresca e poeira antiga enchia o ar, uma mistura estranha que, de alguma forma, cheirava a liberdade. Ele soltou um suspiro, o som reverberando nas paredes vazias. Finalmente. Ninguém para respirar em seu pescoço, ninguém para ditar cada movimento. A universidade era a sua fuga, o seu novo começo, e ele se agarrava a essa ideia como um náufrago a um pedaço de madeira.\n\nJogou a mochila puída sobre a cama estreita, o colchão rangendo em protesto. O sol da tarde filtrava pela janela, pintando listras douradas no chão de linóleo. Ele pegou um dos pôsteres amassados da caixa, uma imagem desbotada de uma floresta densa, e tentou fixá-lo na parede com uma fita adesiva que não parecia querer colaborar. O canto superior descolou, pendendo desanimado.\n\n— Idiota, — ele murmurou para o pôster, um sorriso torto nos lábios. Era o tipo de batalha pequena que ele estava pronto para enfrentar. As batalhas maiores, as que o trouxeram até aqui, estavam, esperava ele, firmemente no passado.\n\nEle abriu outra caixa, revelando uma pilha de livros de biologia e um velho caneco de cerâmica com uma borda lascada. Sua avó tinha dado a ele, uma lembrança constante de um tempo mais simples. Ele segurou o caneco, sentindo o calor residual de suas memórias. Uma pontada de ansiedade perfurou a bolha de euforia. E se ele não conseguisse? E se essa liberdade fosse apenas mais uma armadilha?\n\nEle balançou a cabeça, afastando o pensamento. Não. Ele estava aqui agora. Estava no comando. Ele tirou uma pilha de camisetas escuras, jogando-as na cômoda de madeira barata. Cada movimento era um ato de afirmação, um juramento silencioso a si mesmo de que as coisas seriam diferentes. Ele pegou o celular, a tela acendendo para mostrar uma mensagem não lida de sua mãe, cheia de conselhos e preocupações. Ele a ignorou. Por enquanto. Ele precisava de café.\n\nO corredor era um labirinto de portas idênticas, cheiro de comida instantânea e risadas distantes. Gabriel segurava o copo de café fumegante, o cheiro amargo e forte prometendo o impulso de que precisava. Ele navegava pelo fluxo de estudantes, alguns com cadernos, outros com fones de ouvido, todos apressados demais para notar um calouro em seu primeiro dia. Era exatamente o que ele queria: invisibilidade. Mas não por muito tempo.\n\nEle tentou desviar de um grupo barulhento que bloqueava o caminho, virando bruscamente para a direita. Foi um erro. Sentiu um impacto sólido, como colidir com uma parede de tijolos. O café quente espirrou, queimando sua mão e, o que era pior, manchando uma camisa branca impecável à sua frente. Um rosnado baixo, quase inaudível, vibrou no ar.\n\nEle ergueu os olhos, seu coração batendo contra as costelas. O homem à sua frente era um bloco de músculo e fúria contida, alto o suficiente para fazê-lo se sentir pequeno, com ombros largos que pareciam preencher todo o corredor. Os olhos escuros eram como obsidiana, duros e gélidos, fixos na mancha marrom-escura que se espalhava pelo peito de sua camisa cara. Gabriel engoliu em seco. Não era invisibilidade que ele encontrara.\n\n— Merda, me desculpe, — Gabriel gaguejou, sentindo o rosto esquentar. Ele tentou pegar um guardanapo do bolso, mas suas mãos tremiam levemente. O homem não se moveu, apenas o olhou, uma intensidade predatória que fez os pelos da nuca de Gabriel se eriçarem. Não era um olhar de raiva comum. Era algo mais profundo, mais calculista.\n\n— Você está cego, calouro? — A voz do homem era baixa e rouca, um trovão distante que prometia uma tempestade. Ele não gritou, mas o som carregava uma ameaça maior do que qualquer volume. As pessoas ao redor começaram a desviar, criando um círculo de espaço ao redor deles, como se a tensão fosse contagiosa. Gabriel sentiu o medo, agudo e frio, mas sob ele, uma curiosidade estranha, um pequeno puxão que ele não conseguia identificar. Era o desafio, talvez. Ele sempre reagia assim ao desafio.\n\n— Eu disse que sinto muito, — Gabriel respondeu, sua voz ganhando uma borda de teimosia. Ele não recuaria. Não para ele, não para ninguém. Os olhos do homem se estreitaram, um flash de algo intenso passando por eles. Ele inclinou a cabeça ligeiramente, avaliando Gabriel como um predador avalia sua presa. O cheiro de café se misturava com um perfume amadeirado e masculino que era inebriante, perigosamente atraente. O mundo inteiro parecia ter encolhido para apenas os dois, a batida do coração de Gabriel ecoando em seus ouvidos.\n\n--- \n\nO homem alto deu um passo à frente, fechando a pequena distância entre eles. O cheiro amadeirado ficou mais forte, quase sufocante. Malik, pensou Gabriel, de repente lembrando-se de um murmúrio que ouviu de outro estudante, sobre um veterano temido. O nome pairava no ar, pesado e perigoso. Os olhos escuros de Malik varreram o rosto de Gabriel, demorando-se em seus lábios, em seguida, em seu pescoço. Era um olhar que parecia tirar a pele dele, expondo cada nervo.\n\n— 'Sinto muito' não vai tirar a mancha, vai? — A voz de Malik era um sussurro, mas cada palavra era afiada como uma lâmina. Ele ergueu uma mão, e por um momento Gabriel pensou que ele o atingiria. Mas a mão parou, dedos longos e fortes roçando a gola da camisa manchada de Malik. A proximidade era demais, uma eletricidade estática correndo entre eles, fazendo Gabriel prender a respiração. Era medo, sim, mas também uma atração inegável, um puxão para a intensidade que irradiava de Malik.\n\n— Eu... eu posso pagar a lavanderia. Ou comprar outra. — Gabriel mal conseguia formar as palavras. Sua mente estava em branco, exceto pela presença avassaladora do homem à sua frente. A camisa dele parecia nova, branca imaculada antes do seu descuido. O tecido, fino e caro, acentuava os músculos de seu peito e braços. Malik parecia um gladiador moderno, fora de seu tempo, mas perfeitamente encaixado naquele corredor universitário.\n\nMalik soltou uma risada baixa, rouca. O som não tinha humor, apenas um escárnio frio. Ele se inclinou ainda mais, seu hálito quente no ouvido de Gabriel. Um arrepio percorreu a espinha de Gabriel, uma mistura de pavor e algo mais, algo que ele não queria nomear. Seus olhos se encontraram novamente, e Gabriel se viu perdido na profundidade escura daquele olhar. Não havia saída, apenas a intensidade crescente entre eles.\n\n— Pagar? — Malik repetiu, a palavra arrastada. Ele estendeu o braço, e seus dedos fecharam-se em torno do pulso de Gabriel, não com força para machucar, mas com uma firmeza que prometia que não haveria fuga. A pele de Gabriel formigou sob o toque, a diferença de temperatura entre a mão fria de Malik e seu próprio pulso quente. A respiração de Gabriel engatou. Ele estava completamente preso, e não podia desviar o olhar.\n\n— Sim. O que você quiser. — Gabriel respondeu, sua voz mais firme do que esperava. Ele não podia ceder. Ele tinha que mostrar que não era fácil de quebrar. Essa era a sua regra, a sua única defesa. Malik sorriu então, um movimento lento e calculado que não alcançou seus olhos. Os olhos permaneceram duros, gelados, predatórios. O sorriso de Malik, no entanto, era um vislumbre de um abismo, perigoso e convidativo ao mesmo tempo.\n\n— Você acabou de sujar a pessoa errada, calouro. E eu adoro brincar com o que é meu.