Chapter 15 of 30

A Proposta Irrecusável

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O cheiro de café queimado paira no ar do Cafeteria Central, misturado ao adocicado enjoativo dos pães de queijo que esfriam na vitrine. Gabriel tenta se concentrar nas anotações de Bioquímica espalhadas na mesa de fórmica, mas as letras dançam, turvas. Ele sente a tensão enroscada no peito, um nó apertado que não se desfaz desde o encontro com Malik no corredor. O aperto no braço, a fúria nos olhos escuros de Malik. *Eu adoro brincar com o que é meu.* A frase martela, fria e possessiva, sufocando o ar. Ele aperta os dedos em volta da caneca de cerâmica lascada, desejando que o calor se espalhe e derreta a sensação gélida do medo. —Gabriel. Uma voz baixa, melódica, corta o burburinho do café. Gabriel ergue os olhos. James está parado ao lado da mesa, esbanjando uma autoconfiança que parece preencher o espaço. A jaqueta de couro preta esticada nos ombros largos, um contraste gritante com a simplicidade desleixada do ambiente. Um sorriso lento surge nos lábios de James, predador e convidativo. —Podemos conversar? Ele nem espera a resposta, deslizando para a cadeira à frente de Gabriel. O movimento é suave, mas a cadeira raspa no chão com um barulho agudo que faz Gabriel encolher os ombros. O sorriso de James se alarga, como se tivesse antecipado a reação. Ele cruza os braços sobre a mesa, os olhos fixos em Gabriel. O anel de sinete prateado em seu dedo mínimo brilha sob a luz fraca do teto. —Pensei que precisávamos resolver algumas coisas, depois daquele seu pequeno "desencontro" com Malik. Gabriel sente o corpo enrijecer. Ele sabe que não há como esconder nada de James. A universidade é uma teia de olhos e ouvidos. Ele apenas acena, a garganta seca. —Malik tem um temperamento... previsível, não é? James comenta, como se falassem do tempo. —Mas você, Gabriel, você é surpreendente. Ele ainda não se recuperou da sua audácia. Ninguém se recusa a ele assim. Ninguém. —Eu não sou “dele”, James. Gabriel força as palavras, sua voz soando mais fraca do que ele queria. —Claro que não. James ri, um som suave e irônico. —Ainda não. Mas o que você não percebe é que nesta universidade, ou você pertence a alguém, ou você é caçado por todos. Não existe meio-termo para quem se destaca, e você... você brilhou demais. Brilhou no momento errado, no lugar errado. Gabriel desvia o olhar para a janela embaçada. A ideia de pertencer a alguém, de ser propriedade, revira seu estômago. Isso era o que ele mais temia, o que ele fugiu ao vir para cá. Mas as palavras de James ressoam com uma verdade brutal que ele não pode ignorar. A sensação de ser constantemente observado, a armadilha se fechando. James não está mentindo sobre isso. —Eu não entendo. Ele vira a cabeça, encarando James. —Por que você se importa? Qual é o seu interesse em tudo isso? James mantém o sorriso, mas há uma faísca gelada em seus olhos. —Meu interesse, Gabriel, é que você é uma peça valiosa. E neste jogo, eu não permito que peças valiosas sejam desperdiçadas, especialmente não pelas mãos de um selvagem como Malik. Ele é uma ferramenta, sim, mas uma ferramenta bruta, sem a finesse necessária para lidar com algo tão... delicado quanto você. O jogo é maior do que Malik. É maior que você. É sobre famílias. Poder. Legado. —Eu sei sobre as famílias. Gabriel interrompe, a voz um pouco mais firme. —Costa e Almeida. A rivalidade. Eu não sou um troféu. O sorriso de James se alarga, um brilho de admiração genuína por um instante antes de ser mascarado pela manipulação. —Ah, Gabriel, você é inteligente. Eu sabia que seria. Mas saber a teoria não é o mesmo que viver a prática. Esta universidade é um microcosmo do mundo lá fora. Um campo de batalha. E você, meu caro, é o novo prêmio que as duas facções estão disputando. —Eu não vou ser um prêmio. O ar em seus pulmões parece rarefeito. —Eu não vim para cá para ser disputado. Eu vim para ser livre. —Liberdade é uma ilusão, Gabriel. James balança a cabeça lentamente. —Principalmente aqui. Você precisa de proteção. Precisa de alguém para garantir que você não seja esmagado entre os dois lados. Alguém que controle o fluxo, como eu te disse. Alguém que te ofereça uma gaiola dourada, sim, mas com as chaves... nas suas mãos. Ou melhor, nas minhas mãos, mas com a promessa de que você não será forçado a dançar ao som de uma melodia que não escolheu. Minha melodia é muito mais agradável. Gabriel se inclina para trás, afastando-se da intensidade de James. A proposta é clara, dolorosamente familiar. Sua tia Clara sempre lhe ofereceu uma gaiola dourada, prometendo segurança em troca de sua vida. Ele veio para a universidade para escapar disso, e agora a mesma oferta, com outros termos, paira diante dele. A repulsa que sente é visceral, um gosto amargo na boca. —Uma gaiola ainda é uma gaiola, James. Ele sente o sangue pulsando nas têmporas. —Não importa quem segura as chaves. —Uma gaiola comigo é uma escolha. James diz, a voz ainda suave, mas com um toque de aço. —Com Malik, é uma imposição. Ele não te dará uma escolha. Ele te fará ceder. Eu te ofereço uma aliança. Um acordo. Proteção em troca de... lealdade. De você entender onde seu lugar está. Você ainda terá sua liberdade dentro de certos limites. Eu não te sufocaria como ele faria. Eu te daria espaço para respirar, para crescer. Para ser quem você é. Mas sob a minha guarda. —E se eu não quiser a sua guarda? Gabriel desafia, a voz trêmula, mas carregada de uma teimosia inabalável. O medo de Malik ainda o assombra, mas o medo de perder a si mesmo é maior. A ideia de ceder a qualquer um deles é um veneno. Ele respira fundo, tentando acalmar o ritmo acelerado do coração. James o observa, a expressão ilegível por um momento. —Então você será caçado por ambos, Gabriel. Você será um risco para mim, e uma presa para ele. Você não tem ideia do que Malik é capaz quando está com raiva. E ele está com raiva. Muito raiva. Você viu apenas uma amostra. Eu posso te proteger disso. Eu posso te dar a paz para estudar, para viver sua vida, sem ter que olhar por cima do ombro a cada segundo. —Você não me dá nada, James. Eu nunca te pedi nada. Gabriel tenta se levantar, mas James estende uma mão, tocando levemente seu pulso. O contato é leve, mas firme, uma âncora que o prende à cadeira. —Não se levante ainda. Isso não é uma negociação que você pode ignorar. Ele aperta um pouco o pulso de Gabriel. —Pense nisso, Gabriel. Pense no que Malik fez. Pense no que ele pode fazer. Eu não sou ele. Eu não usaria a força bruta. Mas eu sou eficaz. Escolha com sabedoria. Ou eles escolherão por você. Lembre-se, o tempo não está a seu favor. Malik não gosta de ser desafiado. Ele odeia perder. James solta seu pulso, o toque deixando um formigamento incômodo. Ele se levanta, o sorriso voltando ao seu rosto como uma máscara. —Vou te dar um tempo para pensar. Mas não muito. Ele se vira e sai do café, seu andar confiante e impecável. Gabriel o observa desaparecer entre a multidão de estudantes, sentindo-se mais encurralado do que nunca. Ele não quer nenhum deles. Ele não quer Malik, com sua possessividade cruel e suas ameaças veladas. Ele não quer James, com sua gaiola dourada e suas promessas sedutoras que cheiram a controle. Ele veio para a universidade para quebrar as correntes, não para forjar novas. Mas o medo... o medo de Malik é um peso real, uma sombra que o segue. A imagem das anotações de Lucas no antigo prédio de Química, a voz distorcida, tudo se mistura em sua mente, reforçando a ideia de que não há saída fácil. A autonomia que ele tanto preza parece ser um luxo que ele não pode pagar. Ele pega a mochila, jogando os livros dentro sem cuidado. A cabeça lateja. Ele precisa de um banho, precisa de silêncio, precisa pensar. As palavras de James ecoam, a imagem do rosto furioso de Malik se projeta em sua mente. Ele sai do café, o sol forte na pele não consegue afastar o frio que sente. O caminho de volta para o dormitório é um borrão de rostos e sons. Ele tenta se convencer de que tem uma escolha, que pode encontrar uma terceira via. Que ele pode lutar contra ambos. Ao chegar em seu dormitório, a porta está entreaberta. O coração de Gabriel salta para a garganta. Ele empurra a porta devagar, o ranger familiar soando mais alto do que o normal. O quarto está escuro, as cortinas fechadas. Um cheiro doce e enjoativo, de rosas murchas, preenche o ambiente. Ele entra, os olhos varrendo o cômodo. Não há ninguém. Seu olhar cai sobre a cama. Suas anotações mais importantes de Biologia, aquelas que ele estava revisando para a prova da próxima semana, estão rasgadas em pedaços sobre sua cama. No meio da destruição, um bilhete simples, dobrado. Ele o pega, as mãos tremendo. Uma única palavra, escrita em tinta preta forte: *Eu avisei.*

End of Chapter 15