Chapter 14 of 30

O Ciúme Brutal

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Gabriel andava, o couro gasto das alças da mochila pressionando seus ombros. O sol da tarde entrava inclinado pelas altas janelas arqueadas do prédio principal, projetando sombras longas e distorcidas pelo linóleo polido. Ele traçava o símbolo tribal, quase, que James havia "acidentalmente" deixado cair, agora gravado em sua memória. Uma espiral, com bordas irregulares, como um espinho estilizado. Era idêntico ao que vira no edifício de Química. Lucas havia orquestrado tudo. Lucas, o facilitador, o Guardião. O pensamento por si só apertou a mandíbula de Gabriel. Sentia-se como um peão, mas um peão que aprendia as regras de um jogo brutal. Os corredores se esvaziavam rapidamente enquanto ele seguia para a ala menos frequentada, onde ficavam os departamentos mais antigos, menos conservados. Passos ecoavam, amplificados. Cada porta distante que se fechava soava como um estalo. Seus sentidos aguçaram, um formigamento na nuca. Era sempre observado agora. Sempre. O conhecimento zumbia sob sua pele, um constante e baixo ruído de ansiedade e algo mais – uma estranha e elétrica antecipação. Apressou o passo, ansioso para afastar a sensação, mas ela grudava nele como uma segunda pele. Ele dobrou uma esquina, a luz esmaecendo para um brilho âmbar fraco de uma única lâmpada fluorescente que piscava. O ar ficava mais frio ali, cheirando fracamente a poeira e produtos químicos esquecidos. Estava sozinho. Ou assim pensava. Uma sombra se desprendeu da escuridão mais profunda de um nicho. Malik. Gabriel parou abruptamente. O coração batia forte, um ritmo súbito e frenético contra suas costelas. Malik estava ali, emoldurado pela luz moribunda, uma silhueta escura. Seus braços estavam cruzados, sua postura irradiava uma agressão contida. Usava uma camiseta preta simples, o tecido esticado nos ombros. Os olhos de Malik, escuros e intensos, já estavam fixos nele, uma quietude perturbadora em suas profundezas. — Onde pensa que vai? A voz de Malik cortou o silêncio, baixa e perigosa, como um rosnado mal contido. Não era uma pergunta, mas uma ordem. A mão de Gabriel apertou instintivamente a alça da mochila, sentindo o peso tranquilizador, embora pequeno, do canivete escondido dentro. Forçou-se a encarar Malik, recusando-se a vacilar. O ar frio do corredor o pressionava. --- Malik se afastou da parede, o movimento fluido e predatório. Deu dois passos lentos, diminuindo a distância entre eles, invadindo o espaço pessoal de Gabriel. Um leve cheiro de cedro e algo mais agudo, metálico, chegou a Gabriel. Ele permaneceu firme, embora todo instinto gritasse para ele recuar, para correr. — Achei que tinha deixado claro. A voz de Malik estava mais suave agora, quase casual, o que de alguma forma a tornava mais aterrorizante. Um músculo tremia em sua mandíbula. — Deixado claro o quê? A voz de Gabriel saiu mais firme do que esperava. Não seria quebrado. Não daria a Malik a satisfação. — Que você é meu. Os olhos de Malik se estreitaram, pretos e ilegíveis. Ele levantou uma mão, traçando a linha da mandíbula de Gabriel com um dedo, um toque que era ao mesmo tempo possessivo e ameaçador. A pele de Gabriel arrepiou onde Malik o tocou. Ele afastou a mão. O som ecoou no corredor vazio, nítido e desafiador. Um lampejo de surpresa, depois pura raiva, cruzou o rosto de Malik. Seus olhos se endureceram em lascas de obsidiana. — Ah, então o ratinho está com coragem, agora. Foi James quem te deu? Ele riu, um som áspero e sem humor que arranhou os ouvidos de Gabriel. — Ele te prometeu proteção? Um abrigo? Malik se inclinou mais, o hálito quente contra a orelha de Gabriel, a voz um sussurro sibilante. — Não percebe que ele só está te usando? Brincando com você como um novo brinquedo? Gabriel sentiu uma onda de raiva, uma onda quente subindo do estômago. Odiava ser chamado de brinquedo, odiava ser reduzido a um peão. Era exatamente contra isso que lutava. — E você não está? Você e James são dois lados da mesma moeda, Malik. Gabriel cuspiu as palavras, o desafio com gosto de ferro na boca. Malik recuou ligeiramente, não das palavras, mas do desafio cru no tom de Gabriel. Sua fúria silenciosa era algo perigoso, uma mola enrolada pronta para saltar. Ele agarrou o braço de Gabriel, os dedos cravando no músculo, um aviso claro. — Não ouse me comparar àquele verme. Ele te oferece migalhas. Eu te ofereço… tudo. O olhar de Malik o perfurou, intenso e ardente. — Mas você prefere a isca barata, não é? A promessa vazia do controle de James. --- Gabriel puxou o braço com um puxão brusco, ignorando a dor persistente onde os dedos de Malik haviam cravado. Deu um meio passo para trás, criando uma fresta de espaço, mas não o suficiente para sugerir retirada. O ar entre eles estalava com ameaças não ditas. Ele encarou o olhar furioso de Malik de frente, uma estranha euforia florescendo em seu peito. Esse sentimento era perigoso, imprudente, mas era *dele*. Era o oposto do controle sufocante que sempre conhecera. — Controle? É isso que você chama? Gabriel zombou, um som curto e amargo. — Você não oferece nada além de correntes, Malik. A diferença entre você e James é apenas a cor da coleira. Suas palavras atingiram o alvo. O rosto de Malik se contraiu, os olhos faiscando com raiva renovada. Gabriel viu a possessividade nua neles, uma fome inegável que tanto o repelia quanto, para sua surpresa indesejada, excitava um canto sombrio de sua mente. Odiou-se por aquele lampejo de resposta. Queria ser livre, não apenas de Malik, mas dessa atração estranha e tóxica. — Você não sabe o que está dizendo. A voz de Malik estava baixa, tensa, como se lutasse para manter o controle. — James te encheu a cabeça com essas bobagens? Ele te prometeu o quê? Uma vida de luxo em sua gaiola dourada? — Ele me prometeu respostas. Algo que você nunca faria. Gabriel retrucou, a memória da conversa com James, o símbolo enigmático e as revelações de Lucas alimentando sua resolução. Sabia que estava brincando com fogo, mas estava cansado de ser queimado pelos jogos dos outros. — E você acredita nele? O grande salvador? O lábio de Malik se curvou em um desdém. — James só salva a si mesmo. Ele só se importa com o que *você* pode fazer *por ele*. — E você é diferente? Gabriel desafiou, aproximando-se novamente, sua própria raiva agora igualando a intensidade de Malik. — Você só quer um troféu para a guerra da sua família. Eu não sou um prêmio, Malik. As palavras pairaram pesadas no ar viciado. Gabriel sentiu a faísca de poder se transformar em uma pequena e constante chama. Estava cansado de ser definido por eles, por sua rivalidade, por suas expectativas. Era Gabriel, e escolheria seu próprio caminho, mesmo que isso o levasse a problemas mais profundos. Malik o encarou, o peito subindo e descendo sutilmente. O silêncio se estendeu, denso e sufocante, até que Malik finalmente o quebrou, a voz um murmúrio baixo e perigoso. — Você está cometendo um erro. Um erro grave. Gabriel balançou a cabeça. — Estou apenas escolhendo não ser seu. --- O olhar de Malik desceu para os lábios de Gabriel, uma avaliação silenciosa e predatória. Seus ombros se retesaram. O ar ficou pesado, quase opressor. Gabriel sentiu um tremor percorrer seu corpo, uma mistura de medo e uma consciência inquietante do poder bruto que irradiava de Malik. Sabia que havia ido longe demais, mas as palavras estavam ditas, e não podia desdizê-las. Não o faria. Malik se moveu rápido, rápido demais para Gabriel reagir. A mão dele disparou, não para agredir, mas para envolver a nuca de Gabriel, os dedos cravando na pele sensível logo abaixo da orelha. Ele puxou Gabriel para frente, batendo-o contra a parede fria e suja com um impacto brusco que tirou o ar de seus pulmões. Gabriel ofegou, a dor florescendo nas costas. O metal do anel de sinete de Malik, frio e duro, pressionou sua pele. — Escolhendo não ser meu? A voz de Malik era um rosnado baixo, vibrando com fúria mal contida. O rosto dele estava a centímetros do de Gabriel, os olhos como chamas gêmeas. Gabriel podia sentir o calor irradiando do corpo de Malik, a tensão em cada músculo. Ele lutou, empurrando o peito de Malik, mas Malik era inflexível, uma força sólida e imóvel. — Você não tem escolha, Gabriel. O aperto de Malik na sua nuca se intensificou, dificultando a deglutição. A visão de Gabriel girou por um segundo, uma onda de tontura o invadindo. Ele sentiu gosto de poeira, ou talvez sangue por morder o lábio. Conseguiu sentir o cheiro familiar de Malik, agora misturado ao odor acre da raiva. — Você é meu. Sempre foi. Desde o primeiro momento. O polegar de Malik acariciou o ponto do pulso no pescoço de Gabriel, um gesto possessivo e arrepiante. O toque era leve, mas transmitia dominação absoluta. Gabriel estremeceu, um medo primal enrolando-se em suas entranhas. Estava encurralado, totalmente à mercê de Malik naquele corredor deserto. Cada centímetro de seu corpo gritava por fuga, mas seus pés pareciam enraizados no chão. A outra mão de Malik se ergueu, os dedos se abrindo, e depois se fechando ao redor do rosto de Gabriel. Seus polegares pressionaram com força a mandíbula de Gabriel, inclinando sua cabeça para trás, forçando-o a olhar para cima, a encontrar aqueles olhos aterrorizantes. A boca de Gabriel secou. Ele não conseguia respirar direito, não conseguia pensar além da presença imediata e avassaladora de Malik. Malik se inclinou ainda mais, os lábios roçando o lóbulo da orelha de Gabriel, seu hálito quente um sussurro perigoso que enviou um calafrio pela espinha de Gabriel. — Se você se atrever a escolher outro, juro por tudo que é sagrado que farei sua vida aqui um inferno que nem James poderá apagar.

End of Chapter 14