Chapter 13 of 30

Um Aliado Improvável?

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O ar frio da manhã não conseguia limpar a névoa da cabeça de Gabriel. Ele tinha passado a noite em claro, cada palavra de Lucas ecoando, distorcida e cruel. Guardiões. Rede de poder. A universidade, um tabuleiro, e ele, uma peça recém-sacrificada. O peso daquela escolha, juntar-se ou lutar, esmagava o peito de Gabriel como uma laje de concreto. Ele não conseguia engolir o café que Lucas, estranhamente impassível, tinha deixado sobre a escrivaninha. O cheiro de grãos moídos parecia azedar em seu estômago. Ele vestiu uma camiseta qualquer, amarrotada, e puxou o cadarço do tênis com força desnecessária, a raiva um calor familiar sob a pele. — Vai ficar aqui o dia todo, Gabriel? — Lucas perguntou, a voz sem emoção, já arrumado para a aula, mochila no ombro. — A indecisão é uma escolha, sabia? E geralmente, a pior delas. Gabriel não respondeu, a mandíbula travada. Ele não queria respirar o mesmo ar que Lucas, não depois de tudo. O quarto, antes um refúgio, agora parecia uma jaula, as paredes observando. Ele agarrou a mochila, jogando-o sobre um ombro, e saiu sem olhar para trás. O corredor estava vazio, o silêncio da manhã amplificando o zumbido em seus ouvidos. Cada passo reverberava a urgência de escapar, de encontrar um espaço onde as sombras não tivessem dentes. Ele caminhava pelo campus, sem rumo, os olhos fixos no chão, evitando os poucos estudantes que já circulavam. A grama úmida sob seus pés, o cheiro de orvalho misturado ao asfalto quente. Ele só queria um momento de clareza, um instante para organizar o caos que Lucas tinha plantado. O sol, ainda baixo, já aquecia a pele, mas o frio dentro dele persistia. Uma névoa cobria a visão, pensamentos girando, se chocando. Juntar-se? Lutar? Ambas as opções soavam como rendição, como a perda da autonomia que tanto buscava. Ele apertou os lábios, o gosto metálico da determinação. Não seria um peão. Então, uma sombra longa se estendeu à sua frente, e Gabriel levantou o olhar. James estava ali, parado perto da fonte principal do campus, observando-o. O sorriso habitual e charmoso, um blazer de lã cinza perfeitamente cortado sobre uma camisa branca impecável. Ele parecia ter saído de uma revista, enquanto Gabriel se sentia como um náufrago. — Bom dia, Gabriel. Ou talvez… nem tanto? — James disse, a voz suave como seda, sem qualquer traço de surpresa pelo encontro. Ele parecia ter esperado por Gabriel ali. James deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles. O ar ao redor dele parecia vibrar, a energia controlada, quase palpável. Gabriel sentiu o nó em seu estômago apertar. Ele odiava a sensação de ser previsível, de ser caçado, e James sempre o fazia sentir isso. O olhar de James, porém, não trazia o brilho sádico de Malik, mas uma preocupação estudada, como se lesse a exaustão marcada no rosto de Gabriel. Era um truque, Gabriel sabia, mas ainda assim, perturbadoramente eficaz. — Parece que você não teve uma noite das melhores — James continuou, sem esperar por uma resposta, os olhos fixos nos de Gabriel. — Eu diria que a universidade tem um jeito peculiar de dar as boas-vindas, não é mesmo? Gabriel cruzou os braços, a guarda alta. A menção implícita da noite anterior o fez recuar um passo. James sabia. Claro que sabia. James sempre sabia. A informação parecia brotar das paredes quando se tratava dele. Gabriel apertou os dedos contra os bíceps, sentindo o tecido da camiseta. Ele não podia ceder, não podia mostrar fraqueza. — O que você quer, James? — Gabriel perguntou, a voz áspera, mais do que pretendia. Ele se arrependeu no instante em que as palavras saíram. Não deveria ter soado tão vulnerável. James inclinou a cabeça, o sorriso um pouco mais tênue agora, quase simpático. Ele parecia considerar a pergunta, como se ponderasse a melhor forma de manipular a situação. Seus olhos varreram o campus, como se procurassem por ouvidos curiosos, antes de retornar a Gabriel. — Eu quero que você abra os olhos, Gabriel — James respondeu, a voz baixando para um tom quase confidencial. — Essa universidade é muito mais do que salas de aula e livros. É um organismo vivo, com veias e artérias, e um coração que pulsa poder. E você, meu caro, está bem no meio das batidas. Gabriel sentiu um arrepio na espinha. As palavras de James ecoavam a descrição de Lucas, mas com uma nuance diferente, mais… convidativa. Menos ameaçadora, talvez. Ou apenas uma ameaça mais bem disfarçada. Ele apertou os punhos. Não era tolo. James não dava nada de graça. — Lucas… ele te explicou as coisas? — James perguntou, a pausa carregada de significado. O nome de Lucas saiu com um tom de leve desdém, quase como se fosse uma peça menor no grande jogo. Era uma tentativa de minar a autoridade de Lucas, de Gabriel, e de criar uma brecha. — Ele fez algumas revelações — Gabriel admitiu, mantendo o olhar firme no de James. — Mas as “explicações” dele são mais como… ultimatos. E eu não recebo bem ultimatos. James riu, um som baixo e agradável que não atingiu seus olhos. — Ah, eu imagino. Lucas tem seu jeito peculiar de fazer as coisas. Um tanto… direto demais para o meu gosto. Ele não entende a arte da persuasão, da construção. Ele prefere a demolição. — E você prefere o quê? — Gabriel retrucou, desafiador. — Construir uma cela dourada, como você disse antes? Com as chaves na sua mão? O sorriso de James se alargou, mas seus olhos permaneceram calculistas. — Uma cela dourada pode ser um porto seguro, Gabriel. Contra as tempestades que Malik e os outros podem trazer. Contra as demolições de Lucas. Pense nisso: você tem a opção de ser um boneco, manipulado por fios invisíveis, ou de entender como esses fios funcionam. E talvez… talvez até cortá-los. Gabriel respirou fundo, tentando controlar a batida acelerada do coração. As palavras de James, embora venenosas, plantavam uma semente de curiosidade, de uma possibilidade de controle que ele não havia considerado. Era perigoso, ele sabia, mas a perspectiva de ser apenas um peão era ainda mais aterrorizante. Ele olhou para a fonte, a água jorrando, hipnotizante. Havia uma verdade ali, entre as mentiras de James, um vislumbre de um caminho que Lucas não havia oferecido. — Você fala como se existissem opções além do que Lucas apresentou — Gabriel disse, a voz baixa, quase um sussurro. Ele sentiu a pontada de esperança, pequena e traiçoeira, se instalando em seu peito. Ele precisava de uma saída, e James parecia estar oferecendo uma. Mas a que custo? James inclinou a cabeça, os olhos fixos nos de Gabriel, como se pudesse ler cada pensamento. — Lucas te deu uma escolha simplista, preto e branco. Mas a vida, Gabriel, raramente é assim. Existem muitos tons de cinza. Existem caminhos que Lucas sequer consegue imaginar. Eu, por exemplo, não acredito em forçar as pessoas a escolherem um lado. Eu acredito em guiá-las para a escolha certa. Aquela que serve aos seus próprios interesses, e, coincidentemente, aos meus. — Seus interesses… — Gabriel repetiu, a desconfiança subindo pela garganta. Ele conhecia os interesses de James: poder, controle, a guerra contra os Costa. Ele era apenas mais uma ferramenta nessa guerra. Ele apertou a alça da mochila, os nós dos dedos brancos. — Sim, meus interesses. Que são, curiosamente, muito mais alinhados com os seus do que você imagina — James disse, dando um passo lento em direção a Gabriel, diminuindo a distância que Gabriel tentara manter. — Pense na autonomia que você tanto preza. Você realmente acha que a terá sendo um mero número na lista de Lucas? Ou preferiria ter um mentor, alguém que entende as regras do jogo e pode te ensinar a manipulá-las a seu favor? Alguém que… tem mais poder do que você imagina? Mais poder do que Lucas. Mais poder do que Malik. Gabriel engoliu em seco. A oferta era tentadora, um veneno doce embrulhado em promessas de controle. James não estava pedindo submissão cega, mas uma parceria, um entendimento. Era a mesma armadilha que sua tia Clara usava: oferecer liberdade, enquanto amarrava as cordas com mais força. Mas a escuridão da noite anterior, a voz distorcida, a humilhação do teste… tudo isso pesava mais do que a desconfiança em James. Malik era a força bruta, Lucas a manipulação sistêmica, James… James era o sussurro no ouvido, a oferta de uma mão para te puxar para cima, antes de te empurrar para o abismo. — O que você propõe, exatamente? — Gabriel perguntou, a voz mais firme agora, decidindo que precisava de mais informações, mesmo que não fosse confiar nelas. Ele não podia ficar no escuro por mais tempo. Ele precisava de luz, mesmo que fosse a luz de um farol que o atraía para as rochas. James sorriu, e desta vez o sorriso alcançou seus olhos. Era um triunfo silencioso. Ele sabia que Gabriel estava mordendo a isca. — Uma aliança, Gabriel. Mas não do tipo que Lucas propõe. A minha aliança não é sobre te testar ou te quebrar. É sobre te capacitar. Sobre te mostrar o verdadeiro poder que você tem, se souber como usá-lo. E sobre te proteger dos outros que querem te usar como arma. Ele gesticulou vagamente na direção de um grupo de estudantes que passava, como se os incluísse em sua advertência. — A universidade tem seus predadores, Gabriel. Alguns se escondem nas sombras, outros caminham à luz do dia. Lucas é apenas um facilitador, um peão de um sistema maior. Malik é um cão de caça, leal a quem lhe dá a coleira. Mas eu… eu sou o arquiteto. Eu entendo a planta. E posso te mostrar os atalhos, as passagens secretas. Posso te dar as ferramentas para que você não seja a próxima vítima. Ou, melhor ainda, para que você seja o caçador. O ar vibrou com a intensidade das palavras de James. Gabriel sentiu o choque. Caçador? Ele, que sempre fugira, que sempre se esquivara do controle. A ideia era estranha, mas tinha um certo apelo, um vislumbre de poder que ele nunca se permitira imaginar. Ele olhou para James, para a confiança inabalável em seus olhos, para a aura de controle que o cercava. Era a mesma aura que sua tia Clara possuía, a capacidade de fazer com que a submissão parecesse a única escolha lógica. — E o que eu ganho com isso? — Gabriel perguntou, tentando soar mais frio do que realmente se sentia. Seus dedos formigavam, uma mistura de medo e uma estranha excitação. A promessa de entendimento, de ter o mapa, era quase irresistível. — Conhecimento. Proteção. E a liberdade de escolher seu próprio caminho, dentro das regras do jogo, claro — James respondeu, a voz mantendo um tom de razoabilidade. — Você não será um peão, Gabriel. Você será um jogador. Com um mentor que garante que você não caia na armadilha dos outros. Pense nisso. Lucas te oferece um dilema. Eu te ofereço uma solução. Qual é mais atraente? Gabriel não respondeu de imediato. Ele ponderou, os olhos percorrendo o rosto perfeitamente esculpido de James. A proposta era sedutora, um caminho intermediário entre a rendição total a Lucas e a luta cega contra um sistema que ele mal compreendia. Mas ele sabia que James era um mestre na manipulação, e que cada oferta vinha com uma contrapartida invisível. Ele não podia simplesmente aceitar, não podia se entregar a mais um controlador. Mas também não podia ignorar o vislumbre de esperança que James havia plantado. — Eu preciso pensar — Gabriel finalmente disse, a voz rouca. A decisão era pesada, mais pesada do que qualquer outra que ele já tivesse enfrentado. Ele sentiu o peso das palavras de James, a promessa de poder, o aviso sobre os predadores. Era uma dança perigosa, e ele sentiu os primeiros passos serem dados. James assentiu lentamente, um pequeno sorriso satisfeito brincando em seus lábios. Ele sabia que Gabriel estava, pelo menos, considerando. — Pense, Gabriel. Mas não demore. O jogo já começou, e os outros não esperarão pela sua decisão. Eles agirão. E você não vai querer ser pego desprevenido. Especialmente quando Malik está na caça, e Lucas está arrastando suas redes. James deu um passo para trás, a conversa parecendo ter chegado ao fim. Ele ajustou o blazer, o movimento fluido e elegante. — Nos vemos por aí, Gabriel. E lembre-se: às vezes, a melhor maneira de vencer um jogo é entender quem o criou. Ele se virou para ir, o andar confiante e relaxado. Gabriel sentiu um calafrio enquanto James se afastava, a sensação de que, não importa o que acontecesse, ele estava sendo puxado para mais fundo no abismo. Ele assistiu James dar alguns passos, quando de repente, James fez uma curva ligeira e esbarrou “acidentalmente” no caderno de anotações que Gabriel segurava de forma frouxa. O impacto não foi forte, mas o suficiente para Gabriel cambalear um pouco. James se desculpou com um aceno rápido, sem parar. Gabriel olhou para baixo, e um pequeno papel, dobrado de forma precisa, tinha caído discretamente do bolso interno do blazer de James. O papel se abriu um pouco no chão, revelando um desenho: um símbolo estranho, quase tribal, que Gabriel havia visto gravado em uma parede no local do desafio da noite anterior.

End of Chapter 13