*CAPÍTULO 7 — Dois Anos de Silêncio*
_2 anos e 1 mês._
No portão da mansão, James arruma a mochila. A capa amarrotada, os óculos tortos. Ele não consegue olhar pra ela.
Aira está parada de óculos pretos. Pra todo mundo é cegueira, pra ela é descanso.
"Lady Aira... eu preciso ir."
"Você prometeu que hoje tinha prática."
A voz dela não é de birra. É anotando um fato.
"Eu sei. Eu prometi. Mas o que você fez na biblioteca... magia sem voz, intermediária, com 2 anos... eu sou só um mago Intermediário de Ranoa, Aira. Eu não sei te ensinar. Se eu ficar, eu vou te atrapalhar. E se a Universidade descobrir você, eles vêm te buscar. Eu tô indo pra te proteger."
Ele se abaixa pra abraçar.
Aira dá um passo pra trás. Não por raiva. Porque já aprendeu.
"Entendi. Todo mundo que tem medo vai embora. Boa viagem, professor."
Ela se vira e volta pra mansão. Não chora. Vai direto pra biblioteca.
James fica com os braços no ar. Celestia vê tudo da janela do segundo andar e segura o choro com a mão na boca.
A partir daquele dia, Aira muda.
_2 anos e 6 meses._
A biblioteca que tinha 3 pilhas agora tem 12. No meio, uma menina de 1 metro de altura, de óculos pretos, escrevendo em 3 línguas ao mesmo tempo.
Humano no caderno da esquerda, Demoníaco no do meio, Bestial no da direita. Sem olhar.
Celestia entra com chá: "Filha, vamos pro jardim? Tá sol."
Sem tirar os olhos do livro: "Sol atrapalha, mamãe. Já terminei os 47 livros de teoria básica. Tô começando círculos mágicos avançados. E comecei cura e barreira sozinha. Sem voz também funciona."
"Você tem 2 anos, Aira..."
"Por isso. Quem tem amigos brinca. Quem não tem, estuda mais rápido."
Celestia deixa o chá e sai. Não consegue responder.
_3 anos._
Sala de treino. Adrian coloca uma espada de madeira na mão dela.
"Postura Valcrest. Firme."
Ela acerta de primeira. Golpe, giro, defesa, footwork. Cai, levanta. A mão sangra.
"Chega por hoje."
"Mais cem, pai. Se eu parar, eu fico fraca. Se eu ficar fraca, todo mundo vai embora de novo."
Adrian tem que arrancar a espada da mão dela. Pela primeira vez vê calo na mão de uma criança de 3 anos. Fecha a porta da sala e fica parado do lado de fora.
_3 anos e 9 meses._
Celestia obriga ela a ir num chá de nobres. Tentativa desesperada.
Aira sentada num canto, de óculos pretos e vestido. Nenhuma criança chega perto. As mães puxam as filhas de longe quando veem o cabelo branco.
Ela não espera. Abre um livro de círculos mágicos no meio da festa e começa a desenhar runa no guardanapo. Sozinha.
Na carruagem, na volta, Celestia tenta: "E então? Fez alguma amiguinha?"
Aira, sem tirar os olhos do livro: "Eu avisei que era chato, mamãe. Biblioteca é melhor. Lá ninguém me puxa de longe."
Celestia chora a viagem inteira virada pra janela.
_4 anos e 11 meses. Véspera do aniversário._
No mundo todo, só se comemora aniversário de 5 em 5 anos. Então o primeiro aniversário da vida de uma pessoa é o de 5 anos. É gigante.
Quarto da Aira. Parece quarto de professor universitário, não de criança. Paredes com anotações em 4 línguas, diagramas de círculos, teorias de magia de cura, veneno e barreira. Corpo suado, olheira funda por trás dos óculos pretos.
No corredor, Adrian e Celestia acham que ela não ouve.
Adrian: "Mandamos convite pra todos. Até pro Phillip Greyrat de Roa."
Celestia: "E se ninguém vier brincar com ela de novo?"
"Vai vir. Tem que vir. Ela tá fechada há dois anos por causa daquele dia no jardim. Se o aniversário de 5 anos dela for vazio também..."
Dentro do quarto, Aira ouve tudo. Ela tira os óculos por um segundo. Os olhos Azure queimam e atravessam a parede. Vê os dois pais abraçados, com medo.
Coloca os óculos de volta rápido. A parede volta.
Ela deita no meio dos livros e fala baixinho pro teto, sozinha:
"Não precisa fazer festa grande, mamãe. Eu já acostumei a ficar sozinha mesmo."
Lá embaixo, na cozinha, os empregados penduram bandeiras douradas pro aniversário de 5 anos. E uma carruagem vermelha com o brasão Greyrat já está a caminho de Roa.