*CAPÍTULO 6 — Os Óculos Pretos*
Manhã seguinte ao escritório. Aira não foi pra biblioteca. Ficou na janela da sala de chá.
Celestia percebeu na hora. A filha dela de 1 ano e 9 meses passava o dia todo estudando, treinando. Não brincava.
"Aira?"
"Oi mamãe."
"Por que você não brinca com as outras crianças? Você só estuda, filha. Você tem dois anos."
Aira segurou a xícara com as duas mãos. A mesma desculpa de sempre.
"Porque brincar é chato, mamãe. Brincar não me ensina nada."
Celestia franziu a testa. Não era resposta de criança. Era armadura.
"Aira Valcrest. Olha pra mim. É verdade?"
Aira ficou quieta. Os dois olhos começaram a arder fraco, depois do despertar de ontem.
"...ninguém quer brincar comigo mesmo. Então eu falo que é chato."
Celestia sentiu o estômago revirar.
"A menina da cozinha disse pra filha dela não chegar perto de mim. Porque meu cabelo é branco e meu olho brilha. Ela falou que eu sou da família Valcrest e família Valcrest é monstro."
Ela falou sem chorar. Como quem já decorou.
Celestia não respondeu. Saiu andando rápido pro escritório do Adrian e bateu a porta.
*Tarde. Jardim da frente.*
Celestia insistiu. Chamou as três filhas da Marquesa Corvin pra brincar com a Aira.
Aira foi. Descalça, com o vestidinho. Tentou.
"Quer brincar de casinha comigo?"
As três meninas travaram. Uma olhou pro cabelo branco, pro olho azul que piscava fraco. A mãe da Marquesa, lá atrás, fez um gesto rápido e puxou as três pra longe.
"Meninas, vem cá. Não chega perto."
Aira ficou sozinha no meio do jardim. Com a mão estendida.
Ela não chorou. Voltou pra dentro e pegou o livro. Celestia viu tudo da janela do segundo andar e quebrou a xícara na mão de raiva.
*Escritório.*
"Ela tem dois anos, Adrian! Dois! E já aprendeu a ser deixada de lado! Faz os óculos da sua avó. Hoje!"
Adrian: "Vai ser quase preto. Pra gente normal é cegueira."
"Pra ela vai ser descanso. Liga pro artífice."
*Noite. Quarto.*
Caixinha de veludo. Dentro, óculos redondos, pequenos, pretos. Tão escuros que Celestia não enxergava nada através.
"Pra gente é noite. Pra você vai ser dia normal."
Aira colocou. O mundo que desde ontem era luz demais, mana demais, fio demais, ficou normal. Os dois olhos pararam de arder.
"Ficou silencioso, mamãe."
James, que tava na porta com um livro, viu e tentou quebrar o clima pesado:
"Nossa, Lady Aira. Ficou igual uma mini professora de Ranoa. Mas ó, me promete? Quando você ficar forte de verdade e não precisar mais desses trambolhos pesados... me deixa te fazer uns mais bonitos? Uns leves, amarelos ? Pra todo mundo ver que você não tá se escondendo mais."
Aira segurou os óculos com as duas mãozinhas. Eles escorregavam.
"Amarelo...?"
"É. Promessa."
Na hora de dormir, ela tirou pra colocar na mesinha. A dor voltou na hora. E a visão também.
Olhou sem querer pra parede. A parede sumiu.
A visão atravessou tudo. Viu embaixo, Celestia e Adrian sentados no chão, encostados na cama dela.
Celestia chorando baixo: "Eu só queria que ela tivesse uma amiga, Adrian. Uma só. Ela finge que estudar é melhor porque ninguém quer ficar perto dela."
Adrian: "É o preço da nossa família. Minha avó também foi sozinha a vida toda."
Aira colocou o óculos preto de volta, RÁPIDO. A parede voltou.
Ela puxou a coberta até a cabeça e segurou o óculos com força. Não por causa da luz.
Mas porque com ele, ela não precisava ver a mãe chorando por ela. A prisão também era o único lugar silencioso que ela tinha.
Mas ela podia tirar, quando quisesse.