Chapter 2 of 50
A Pequena Herdeira
612 words
*Capítulo 2 — A Pequena Herdeira*
Os primeiros meses da nova vida de Aira foram uma mistura de descobertas, frustrações e muito tempo sendo carregada no colo.
O pior não era ser um bebê. Era não conseguir falar.
Sete meses depois.
Certa manhã, Celestia entrou com uma tigela.
— Bom dia, minha filha.
Aira já conhecia aquela frase.
Celestia apontou para si mesma.
— Mamãe.
Depois para Aira.
— Aira.
Aira abriu a boca. Tinha treinado isso por semanas.
— Ma... ma...
Os olhos de Celestia se arregalaram. A tigela quase caiu.
— Você disse mamãe! Adrian! Ela disse mamãe!
Aira bateu as mãos no colchão, frustrada.
"Não ri! Tô trabalhando aqui! Isso deu muito trabalho!"
Mas foi ali que entendeu: os sons daquele mundo não eram só barulho. Tinham significado.
A partir daquele dia, começou a prestar atenção em tudo.
"Comer. Água. Dormir. Mamãe. Papai."
Cada palavra era uma peça de quebra-cabeça. E Aira gostava de quebra-cabeças. Conveniente, porque adultos falam muito quando acham que bebê não entende.
Seu pai se chamava Adrian Valcrest. Disciplinado, acordava cedo, treinava todo dia. E tinha uma mania: quando ficava preocupado, limpava a espada. Mesmo já limpa.
— Você já limpou isso duas vezes hoje — Celestia observou uma manhã.
— Hábito — respondeu Adrian, sem parar.
"Anotado."
Sua mãe, Celestia, era tranquila, elegante e inteligente. Com um pequeno defeito: perdia livros. Vivia começando um e esquecendo onde deixou o outro.
Uma vez, procurando pela sala, abriu gaveta, olhou mesa, nada. Até perceber o livro debaixo do próprio braço. Ela e Aira se encararam.
— Não conte para seu pai.
Aira riu. "Inteligente, mas nada organizada."
Com o tempo, ficou claro que aquela família não era comum. Mansão enorme, empregados, biblioteca, área de treino.
Certa tarde, no colo de Celestia, ouviu:
— Ela é nossa única filha — disse Adrian.
— E nossa herdeira — completou Celestia.
— Um dia, Aira ficará responsável pelo nome Valcrest.
Por um segundo, "ganhei na loteria da reencarnação".
Depois: "Espera. Responsável pelo nome Valcrest? Tipo... comandar tudo isso? Eu nem sei pagar boleto nessa língua."
Então seu corpo finalmente aprendeu a engatinhar. Revolução. Missão de exploração iniciada.
Primeira fuga: o berço vazio. Uma funcionária entrou e congelou.
— Senhorita Aira?!
Do outro lado do corredor, uma cabecinha branca apareceu sorrindo. Entrou na sala de treino, foi direto numa espada de madeira, puxou com toda a força.
Nada. Nem se mexeu.
"Certo. Anotado. Ainda sou fisicamente inútil."
Segunda fuga: a cozinha. Uma cozinheira se virou e achou Aira sentada no chão, com uma maçã na mão.
— Como você chegou aqui?
"Engatinhando." Mas ficou com a maçã. Vitória.
Foi numa dessas fugas que achou a biblioteca. Porta entreaberta. Centenas de livros. Seus olhos brilharam.
"Agora estamos falando."
Tentou alcançar um. Não conseguiu.
"Tudo bem. Tenho tempo."
Mas foi na semana seguinte que tudo mudou.
A porta de uma sala estava aberta. Celestia lá dentro. E uma esfera de água flutuava na frente dela.
Aira parou.
A esfera girava, depois se esticou numa fina corrente que dançava no ar. Sem fio, sem recipiente. Quebrava tudo que ela conhecia de física.
E então seus olhos esquentaram.
Não era que a água ficou mais nítida. Era como se, por trás dela, existisse uma fiação escondida no mundo. Fluxos de energia atravessavam o ar, desciam pelo braço de Celestia e se espalhavam na água.
"O que é isso?"
Celestia desfez a magia. A sensação sumiu. Fez de novo. Os olhos de Aira esquentaram de novo.
Ela não entendia, mas sabia que era importante. Muito importante.
O coração acelerou.
"Então... magia existe."
Olhou para as próprias mãos minúsculas e sorriu.
"Eu também quero fazer isso."