*Capítulo 3 — O Primeiro Passo*
Aira tinha dez meses e meio. Ainda não andava — decisão sensata, considerando o tamanho das pernas.
Mas engatinhar? Era a mais rápida da mansão. Rápida o suficiente para transformar qualquer empregado distraído em um corredor olímpico.
E desde aquela tarde, tinha uma obsessão: magia.
Toda vez que Celestia fazia um feitiço, Aira brotava. Se estava no corredor, engatinhava até a porta. Se estava no colo, apontava.
— De novo!
Celestia parou.
— De novo?
Aira bateu as mãozinhas. Celestia sorriu e criou uma esfera de água na palma.
Aira levantou as duas mãos, tentando copiar. Concentrou-se. Testa franzida.
Nada. Só aquele calor chato atrás dos olhos. Piscou.
Celestia desfez.
— Chega por hoje.
Aira fez bico, cruzando os bracinhos do jeito desajeitado que um bebê consegue.
"Isso é injusto."
No dia seguinte, de novo. E no outro. E no outro.
Adrian começou a notar. Encontrou as duas no jardim. Aira vidrada em Celestia.
— Ela está tentando fazer magia?
— Tentando copiar o que vê.
— Ela tem dez meses.
— Eu sei.
— De novo! — apontou Aira.
Adrian suspirou, pegou uma espadinha de madeira infantil e colocou na frente dela.
— Se quer treinar, começa por aqui.
Aira agarrou o cabo. Levantou alguns centímetros. Caiu.
Olhou para a espada. Depois para o pai.
"Ok. A espada venceu."
Adrian pegou de volta, sério. Celestia escondendo o riso.
— Talvez um pouco mais tarde.
— É exatamente disso que estou falando — disse Adrian.
— Ela só está curiosa — defendeu Celestia.
— Precisa do básico antes.
Aira bateu palmas. "Tô ouvindo tudo, viu?"
Naquela tarde, Celestia cedeu. Não ia ensiná-la a fazer magia. Só a sentir.
As duas num quarto tranquilo.
— Feche os olhos. Respira devagar. Não tente fazer nada, só sinta seu corpo.
No começo, nada. Só respiração e peso do corpo.
"Cadê?"
— Onde você sente sua energia? — sussurrou Celestia.
Aira abriu um olho, apontou a barriga.
— Aqui?
— Pode ser. Tenta perceber.
Fechou de novo. Imaginou luz, esfera, qualquer coisa. Nada.
Depois de minutos, abriu os olhos.
— Não.
Celestia acariciou seu cabelo.
— Tudo bem. Aprender também é descobrir o que ainda não conseguimos fazer.
Aira ficou quieta. Não era o que queria ouvir, mas sabia que era verdade.
"Tudo bem. Eu posso esperar."
Naquela noite, a mansão estava silenciosa.
Aira no berço. Ao lado, um copinho com água que a empregada esqueceu.
"Só mais uma vez."
Fechou os olhos. O calor voltou, mais forte. Os olhos arderam.
E então — ela viu.
Por um instante. Um fio fino, quase invisível, passando no ar.
Estendeu a mão sem saber o que fazia. Só tentou puxar.
Por um segundo, nada.
Então a água tremeu. Uma ondulaçãozinha na superfície.
O copo vibrou contra a madeira. Tlec.
A porta se abriu na hora. Era a empregada que tinha esquecido o copo.
— Esqueci o... — ela parou. Viu o copo tremendo sozinho e Aira com a mão esticada e os olhos brilhando levemente. — SENHORA CELESTIA! SENHOR ADRIAN!
Passos correndo no corredor.
Aira olhou para o copo, depois para as próprias mãos. Um sorrisinho travesso, mesmo com medo.
"Ops. Fui vista."
Pela primeira vez, tinha tocado naquilo que Celestia chamava de mana. E agora todo mundo sabia.
No corredor, Adrian e Celestia falavam baixo, ainda ofegantes.
— Ela fez o copo tremer sem encantamento. Sozinha. — Celestia estava pálida.
— Ela tem dez meses — Adrian repetiu, mas dessa vez sem deboche. Com preocupação.
— Precisamos de alguém que ensine corretamente. Antes que ela se machuque.
— Um tutor. Magia e espada. Alguém que saiba lidar com criança talentosa.
— Conhece alguém?
Adrian respondeu sem hesitar:
— Vou escrever para os Greyrat.