Chapter 1 of 50
Uma Segunda Chance
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*Capítulo 1 — Uma Segunda Chance*
Japão. 23:14.
O PC ainda estava ligado. Tela de pausa de Baldur's Gate 3. Aira, 38 anos, estava de meia no chão frio do apartamento, com dor nas costas de ficar sentada torta.
Ela tinha acabado de pagar o boleto do mês, responder e-mail de trabalho e perceber que esqueceu de comprar jantar. De novo.
— Quer saber? Dane-se a dieta. Amanhã eu peço — murmurou, rindo sozinha enquanto abria a geladeira vazia. — Baldur's Gate ou Mushoku de novo pra dormir? Provavelmente Mushoku. De novo.
Ela sempre gostou de histórias. Não porque a vida dela era ruim. Era boa, na verdade. Estável. Só... pequena demais pra tudo que ela queria ler, jogar e ver.
Resolveu descer na conveniência. Dois minutos. Só pra pegar um pão e voltar pro save.
Na rua, o ar frio fez bem pra coluna.
Foi quando ouviu o grito.
— CUIDADO!
Uma menina de uns seis anos soltou a mão da mãe e correu pra rua atrás de uma bola. Um carro vinha rápido, o motorista olhando pro celular.
O tempo desacelerou. A mãe paralisada. A menina no meio do asfalto.
Aira não pensou em save, em boleto, em nada. Largou o nada que tinha na mão e correu.
Empurrou a criança com todo o peso do corpo pra fora da trajetória.
Freio cortando o ar. Impacto seco.
Depois, silêncio.
Não houve dor. Só um calor esquisito se espalhando, depois nada. Escuridão.
"Ah. Então é assim que se morre. Que rápido."
Sem desespero. Só uma lista idiota na cabeça: o save que não terminou, o episódio que queria rever, a dor nas costas que nem ia sentir mais.
"Eu vivi uma vida boa. De verdade. Só não queria que acabasse tão cedo, ainda tinha tanta história..."
"Se eu tivesse mais uma chance... eu viveria tudo de novo. Sem pressa. Sem pular diálogo."
Então tudo desapareceu.
Luz. Frio cortante. E um grito agudo que não era dela, mas era dela.
— UAAAAAA!
Tentou abrir os olhos. A luz doía. Tentou falar.
— Aaa... Uaa!
"Ótimo. Não consigo falar. Clássico."
Uma mulher a segurava. Cabelos claros, olhos marejados, sorrindo com um alívio tão grande que doía de ver. Falava uma língua que Aira não entendia nada, mas o tom era universal: "tá tudo bem, você tá aqui".
Depois percebeu outra pessoa no quarto. Um homem alto, postura militar, mas com as mãos tremendo ao lado da cama. Tentando ser forte e falhando.
O quarto era elegante demais. Móveis de madeira maciça, cortinas de tecido caro, símbolos que não eram kanji nem inglês.
O cérebro juntou as peças.
"Eu morri. Óbvio. E aparentemente... reencarnei. Tá, isso era pra ser piada."
Deveria ser absurdo, mas era a explicação mais lógica que tinha.
"Certo. Primeiro: não é o Japão. Segundo: sou um bebê. Terceiro: preciso aprender essa língua antes que me deem mingau de novo."
A mulher aproximou o rosto, testa colada na dela.
— Aira Valcrest... minha Aira.
Aira ficou imóvel. Guardou os dois nomes na hora.
Aira Valcrest.
Não sabia onde estava. Não sabia quem eram aquelas pessoas.
Mas sabia de uma coisa: tinha recebido outra chance. E dessa vez, não ia deixar o save pela metade.