Chapter 19 of 50
A Aventureira de Rikarisu
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*CAPÍTULO 19 — A Aventureira de Rikarisu*
Três dias depois da queda.
Aira não saiu da cabana. Febre de mana. A chefe, Ciel Migurd, trocava a erva roxa da perna dela duas vezes por dia e obrigava ela a comer sopa de cogumelo que tinha gosto de terra molhada.
O olho esquerdo continuava fechado com a mão. Quando ela tentava abrir, a dor voltava na hora. O Continente Demoníaco tinha mana demais, suja, pesada. Sem filtro, o Azure bebia tudo.
No terceiro dia, a febre passou.
Aira sentou no colchão. Pegou do bolso a armação torta do óculos amarelo que o James fez. A lente quebrou no teleporte, só sobrou o aro amassado.
"Não dá pra ficar com a mão no olho pra sempre..."
Chis entrou com mais sopa: "Você ainda tá com a mão no olho?"
"Preciso de filtro. Igual meu professor fez."
Ela lembrou do caderninho. _Para quando você não precisar mais copiar._ Na última página, o James desenhou o diagrama do filtro: cristal amarelo de Ranoa, fino, com círculo de contenção.
"Vocês tem cristal amarelo aqui na vila?"
Chis: "Cristal? Tem o amarelo que a gente usa pra lamparina! Mas é feio, não é de óculos!"
"Me traz."
_Uma hora depois. Oficina da vila._
Ciel observando desconfiada enquanto Aira, de 10 anos, com o olho esquerdo ainda fechado com uma mão, usava a outra mão pra desenhar um círculo mágico minúsculo na mesa de pedra.
Sem voz. Sem falar.
Forma: disco fino.
Tamanho: moeda.
Espessura: papel.
Solta.
Uma luz amarela fraca. O cristal bruto de lamparina que o Chis trouxe começou a derreter e esticar, virando uma lente fina, amarelada, torta, cheia de bolha.
Não era bonito igual o do James. Era grosso num canto, fino no outro.
Mas era um filtro.
Aira pegou a lente e encaixou na armação torta. Amarrou com barbante da vila.
Colocou no rosto.
O mundo ficou amarelo de novo. Embaçado, torto, mas silencioso. A dor sumiu 80%.
Ela abriu o olho esquerdo. Pela primeira vez em três dias, conseguiu deixar os dois olhos abertos ao mesmo tempo sem gritar.
"Deu... deu certo..."
Chis: "Tá torto!"
"Tá funcionando."
Ciel cruzou os braços, mas sorriu pela primeira vez: "Torto, mas é de maga mesmo. Você fez igual minha avó contava que os antigos faziam."
Naquela tarde, Ciel jogou um pacote na cama da Aira.
"Dentro."
Aira abriu. Não era vestido. Era roupa de aventureiro simples da vila. Calça marrom grossa, camisa de linho bege, colete de couro curtido, botas que já foram de uma Migurd adolescente. Tudo simples, usado, mas limpo.
E uma espada curta. De ferro comum, não da de 1,20m do pai que ficou pendurada na parede de Valcrest. Essa tinha 70cm. Dava pra usar.
"Você não pode ficar de vestidinho rasgado aqui. Aqui é Continente Demoníaco. Roupa de nobre morre no primeiro monstro."
Aira vestiu. A calça ficou um pouco grande, teve que amarrar com corda. O colete ficou torto por causa do óculos improvisado. Mas quando ela se olhou no reflexo do escudo pendurado, não viu mais a Lady Valcrest de vestido branco.
Viu uma aventureira.
_Dois dias depois. Campo de treino da vila._
Chis e outros três meninos Migurd de 30 anos (com corpo de 10) treinando com lanças de madeira.
Ciel: "Mostra pra eles o que você faz. Sem quebrar ninguém."
Aira, de óculos amarelo torto improvisado, com a espada curta de ferro que ainda não sabia usar direito, ficou no centro.
"Começa leve, pai me ensinou..."
Postura Valcrest. Firme. Giro.
Ela avançou no primeiro menino. O corpo ainda fraco da queda, mas os olhos... os olhos viam tudo. Mesmo por trás da lente amarela improvisada, o Azure via o fluxo da lança dele antes dele mover.
Esquerda. Direita. Ela desviou.
Sem voz, mão livre: _Stone Cannon_ pequeno, do tamanho de uva, acertando o joelho dele. Ele caiu sentado.
Os outros dois atacaram juntos. Aira tropeçou, mas levantou a mão.
_Wind Cutter_ - cortou o ar na frente dela, fez os dois recuarem.
Ciel arregalou os olhos.
"Sem voz... tudo sem voz..."
Aira tava ofegante, suada, com a lente amarela embaçada. Mas sorrindo. Pela primeira vez treinando sem cair de dor de cabeça.
Chis: "Ela é monstro! Igual você falou, mãe!"
Ciel: "Não. É Valcrest. Agora entendi por que humanos tem medo."
Aira guardou a espada curta. A mão tremia, mas não de dor. De gasto de mana.
"Preciso treinar mais. Meu corpo ainda tá lento pro que meu olho vê."
_Portão da vila. Final da tarde._
Sino tocando alto. Sino de alerta.
"MONSTROS NO PORTÃO! TRÊS! UM SUPERD!"
Todo mundo correu. Aira correu junto, ainda de espada curta e óculos torto, mancando um pouco.
No portão de madeira, dois guardas Migurd com lanças cruzadas.
Na frente deles, três figuras sujas, rasgadas, cansadas de semanas andando no Continente Demoníaco.
Um homem alto, pele azul, cabelo azul, lança na mão, com uma joia vermelha na testa. Ruijerd Superdia.
Um menino de 10 anos, cabelo castanho, cajado quebrado, roupa rasgada. Rudeus.
E uma menina ruiva, 10 anos, cabelo todo embaraçado, espada curta na cintura, com a cara mais brava e mais cansada que a Aira já viu.
Eris Boreas Greyrat.
O guarda: "Não pode entrar! Superd não entra aqui! É lei da vila desde a guerra!"
Rudeus tava tentando explicar em Demoníaco atrapalhado: "A gente não... a gente só quer água..."
Eris já tava com a mão na espada, pronta pra brigar.
Ruijerd quieto, com a mão levantada, tentando não assustar.
Foi quando Eris olhou pro lado. Pro meio da galera da vila que veio ver.
E viu.
Uma menina de cabelo branco, com óculos amarelo torto improvisado, de roupa de aventureira simples marrom, com uma espada curta de ferro, com a perna ainda enfaixada, com a armação torta na orelha.
Parada, olhando pra ela.
O cérebro da Eris travou por um segundo. Depois gritou.
"ARISU?!"
E largou tudo. Largou a espada no chão, empurrou o guarda Migurd, atravessou o portão correndo e se jogou em cima da Aira com tudo.
As duas caíram sentadas no chão de pedra roxa da vila, no meio de todo mundo, com a Eris abraçando e chorando e batendo ao mesmo tempo.
"ARISU! VOCÊ TAVA MORTA! TODO MUNDO FALOU QUE VOCÊ TINHA MORRIDO NO CÉU VERDE!"
Aira ficou imóvel por um segundo. Depois abraçou de volta, forte. O óculos torto amassando entre as duas.
"Gorila vermelha burra... você tá viva..."
Atrás delas, Rudeus congelado, com o cajado na mão, olhando pro óculos amarelo torto e reconhecendo na hora. Era o mesmo filtro que o James desenhou.
Rudeus sussurrou, em japonês baixo, só pra Aira ouvir:
"...Aira?"
Ciel, na frente do portão, olhou pros três sujos e pra Aira abraçada com a ruiva no chão. Suspirou.
"Abre o portão. Se são amigos da torta de óculos, podem entrar."