Chapter 18 of 50

Ficar Mais Um Pouco

543 words

*CAPÍTULO 18 — Ficar Mais Um Pouco* A vila Migurd não era grande. Umas vinte casas de pedra escura, telhado de musgo roxo, tochas de mana verde acesas mesmo de dia. Todo mundo parou pra olhar quando o Chis entrou puxando a Aira pela mão. Uma menina humana. De vestido de treino rasgado, descalça, com a armação torta do óculos amarelo pendurada na orelha, com a mão esquerda fechando o próprio olho sangrando e mancando. Silêncio total. Uma mulher mais velha, cabelo azul escuro igual do Chis mas com mechas brancas, veio correndo. Devia ser a chefe. "Chis! O que você trouxe?! Eu falei pra não ir na floresta roxa sozinho depois do céu verde!" Chis se escondeu atrás da Aira: "Ela caiu do céu! Ela fala Demoníaco! E faz magia sem falar!" A mulher olhou pra Aira. De cima a baixo. Parou no olho que ela tava segurando com a mão. "Humana..." Aira tirou a mão por um segundo do olho esquerdo sem querer. O Azure acendeu forte por causa da mana densa da vila. Queimou de novo. Ela fechou na hora com dor e quase caiu. "Ah!" A mulher segurou ela antes de cair. "Olho amaldiçoado... igual da minha avó contava. Entra. Você não vai ficar em pé assim." _Cabana. Uma hora depois._ Aira deitada num colchão de palha. A perna enfaixada com erva roxa que cheirava forte. A mulher passou uma pomada que ardia. "Vai arder. Aguenta." Aira mordeu o lábio. Não gritou. "Onde... onde eu tô?" ela perguntou, ainda em Demoníaco, com sotaque de livro. "Continente Demoníaco. Leste. Vila Migurd de Rikarisu. Longe de qualquer humano." Aira fechou o olho direito. Confirmou o que já sabia pelo cheiro da mana. "Então... eu tô no Continente Demoníaco mesmo." Ela tentou levantar. "Eu preciso ir. Preciso achar... meus amigos. Eles caíram também. No céu verde." Chis entrou correndo com uma tigela de sopa: "Você não pode ir! Você nem anda direito! E seu olho tá sangrando!" A chefe concordou: "O menino tá certo. Você tá com febre de mana. Humano não aguenta a mana daqui sem filtro. Seu olho tá bebendo mana demais e seu corpo não aguenta. Se você sair hoje, morre antes da floresta." Aira olhou pra própria mão. Ainda suja de sangue seco do olho. Olhou pra armação quebrada do óculos amarelo. O presente do James. Quebrado. Lembrou dos dois anos de silêncio. Quando todo mundo foi embora e ela ficou estudando sozinha. Ela aprendeu a ficar sozinha. Mas também aprendeu que ficar sozinha machucada é burrice. Respirou fundo. "...tá bom." Chis: "Tá bom o quê?" Aira deitou de novo no colchão, ainda com a mão no olho esquerdo fechado, segurando a dor. "Eu fico. Só até me recuperar totalmente. Só até eu conseguir fazer um filtro novo e minha perna parar de doer. Depois eu vou." A chefe assentiu e cobriu ela com uma pele grossa. "Então descansa, humana que fala Demoníaco. Amanhã a gente vê esse seu olho." Chis sentou do lado do colchão, ainda olhando pro olho que ela escondia na mão, curioso e com medo ao mesmo tempo. Lá fora, o céu ainda tava verde escuro. Sem Roa. Sem Eris. Sem Rudeus. Mas pela primeira vez desde que caiu, ela não tava caindo mais.

End of Chapter 18