Chapter 17 of 50
A Língua do Continente
468 words
*CAPÍTULO 17 — A Língua do Continente*
O menino não abaixou a lança.
Aira tentou focar nele, mas o olho esquerdo não desligava. Sem o filtro amarelo, que quebrou no teleporte, a mana suja e densa do Continente Demoníaco entrava direto no cérebro. Queimava.
Sangue escorrendo da borda do olho. Veias vermelhas pulsando.
Ela levou a mão na perna. Não conseguia levantar.
"Se eu falar humano, ele não vai entender..."
Por dois anos, depois que o James foi embora, ela ficou trancada na biblioteca escrevendo em 3 línguas. Humano na esquerda, Demoníaco no meio, Bestial na direita. Todo mundo achava que era mania de criança isolada.
Agora era a única coisa que podia salvar ela.
Ela forçou a língua. A garganta doía. Saiu em Demoníaco, com sotaque horrível de livro de Ranoa.
*"[Não... atira... por favor...]"*
O menino arregalou os olhos. A lança tremeu.
"Você fala Demoníaco?! Você é humana! Humanas não falam Demoníaco!"
Aira não conseguiu responder. A dor do olho foi mais forte e ela fechou o olho esquerdo com a própria mão. Com força. Pra bloquear a luz.
Quando ela fechou, o barulho diminuiu na hora.
"Muito... muito fluxo..." ela sussurrou, lembrando da letra torta do caderninho no bolso. _Você controla o fluxo, não ele que te controla. - James_
Ela imaginou os quatro passos. Igual no jardim com 1 ano e 9 meses.
Forma: linha fechada.
Tamanho: corte na perna.
Velocidade: devagar.
Solta.
Sem voz. Sem círculo. A cura que a mãe dela escreveu no grimório fez uma luz verde fraca na perna. Parou de sangrar, mas não curou tudo.
O menino viu e deu um passo pra trás.
"Você fez magia sem falar..."
Aira continuou com o olho esquerdo fechado com a mão. O direito, normal, olhando pra ele. Sem óculos, sem faixa, só com a mão segurando a dor.
"Eu sou... Aira... Aira Valcrest..." ela disse ainda em Demoníaco. "Caí do... céu verde..."
O menino abaixou a lança de vez. Ele também tinha uns 10 anos no corpo, pele clara, cabelo azul-claro com mechas roxas. Cara de criança Migurd que não cresce por 150 anos.
"Eu sou Chis. Da vila aqui. Se você ficar aqui, você morre. Tem monstro grande à noite."
Aira tentou levantar. A perna falhou. Ela caiu de novo no musgo preto.
Chis ficou olhando. Depois estendeu a mão. Igual a Eris fez na festa de 5 anos quando todo mundo puxou as filhas pra longe.
"Você tá sozinha?"
Aira segurou na mão dele, ainda com um olho fechado na marra pra não enlouquecer de dor.
"Tô."
E levantou mancando. Com a armação torta do óculos amarelo quebrado pendurada na orelha, com a perna enfaixada de magia improvisada, e com um olho fechado na mão pra aguentar o Continente Demoníaco.
No céu, ainda verde escuro, nenhum sinal de Roa.