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Chapter 2: Perfume de Cebola e Segredos Verdes
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Suor escorria pela pele vermelha e brilhante de Tomatuda enquanto ela carregava a última caixa de madeira daquele dia. Seus braços doíam. Cada músculo do seu corpo implorava por um descanso que parecia nunca chegar nas feiras da periferia.
Trabalhar desde a madrugada era a única forma de garantir que o aluguel daquela casinha humilde fosse pago em dia. Ela limpou a testa com as costas da mão, respirando fundo o ar úmido do fim de tarde. Sorriu fraco, pensando que todo aquele esforço valeria a pena quando finalmente construísse a família com que tanto sonhava.
Dinheiro estava curto, mas o amor que sentia por Pepinildo a mantinha de pé, firme como uma rocha.
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Deitada no sofá velho da sala, uma figura verde, comprida e cheia de calosidades ignorava completamente a bagunça ao redor. Pepinildo coçava a barriga saliente, os pés descalços apoiados na mesa de centro que Tomatuda havia limpado na noite anterior. Um rastro de farelos de pão se espalhava pelo chão áspero.
Resmungos altos escaparam de sua boca murcha quando o telefone tocou, mas ele não se deu ao trabalho de atender.
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Tomatuda entrou pela porta dos fundos carregando uma sacola pesada de mantimentos frescos que conseguira salvar do descarte da feira. Suas folhas verdes na cabeça estavam murchas pelo calor escaldante do dia, mas seus olhos brilharam ao ver o marido em casa.
"Amor, cheguei!" exclamou ela, tentando manter a voz leve apesar do cansaço extremo que pesava em seus ombros. "Consegui trazer algumas batatas e tomates lindos para o nosso jantar."
Pepinildo nem sequer desviou os olhos da tela da televisão quebrada, onde passava um jogo de futebol de terceira divisão.
"Trouxe carne?" perguntou ele, a voz ríspida e carregada de desdém. "Estou cansado de comer as sobras que você traz daquela feira imunda, Tomatuda. Sou um homem trabalhador, mereço comida de verdade."
Lágrimas discretas brotaram nos olhos redondos de Tomatuda, mas ela as engoliu rapidamente, forçando um sorriso compreensivo.
"Amanhã vou tentar comprar um pedaço de acém, querido," prometeu ela, aproximando-se para massagear os ombros tensos e ásperos do marido. "As coisas vão melhorar, eu prometo."
"Melhorar como?" desdenhou Pepinildo, esquivando-se do toque carinhoso dela com uma careta de nojo. "Você trabalha feito uma condenada e ganha uma miséria. Nunca vai ser ninguém na vida, Tomatuda. Aceite a sua realidade."
Aquilo doeu mais do que qualquer esforço físico que ela fizera durante as doze horas de trabalho debaixo do sol quente.
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Batinhas leves na porta de alumínio interromperam o silêncio desconfortável que havia se instalado na pequena cozinha.
Cebolita entrou sem pedir licença, balançando seus cabelos loiros artificiais e exalando um perfume doce demais, quase sufocante. Suas camadas externas eram impecáveis, sempre vestida com roupas apertadas que ela jurava serem de marca, embora as etiquetas entregassem a falsificação.
"Ai, amiga!" exclamou Cebolita, jogando-se nos braços de Tomatuda com um entusiasmo que não alcançava seus olhos frios e calculistas. "Vim ver como você estava. Que cheiro de fritura é esse aqui?"
"Estou preparando o jantar, Cebolita," explicou Tomatuda, sentindo-se instantaneamente inadequada ao lado da melhor amiga tão arrumada. "Fique para comer conosco."
"De jeito nenhum, querida," respondeu a mulher-cebola com uma risadinha afetada, desviando o olhar para a mesa. "Estou de dieta. Mas vim te trazer um abraço."
Por trás das costas de Tomatuda, os olhos de Cebolita encontraram os de Pepinildo, que agora estava sentado ereto no sofá, com uma postura completamente diferente.
Um sorriso malicioso cruzou o rosto do pepino, recebido por uma piscadela cúmplice da recém-chegada.
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Mais tarde, com Tomatuda ocupada na cozinha limpando as panelas engorduradas, os dois traidores aproveitaram a distração dela no corredor escuro que levava ao banheiro.
Pepinildo puxou Cebolita pela cintura áspera, prensando-a contra a parede úmida com uma urgência quase desesperada.
"Você está louco?" sussurrou ela, embora um sorriso satisfeito estivesse estampado em seus lábios finos. "A boba está ali do lado."
"Aquela tonta não desconfia de nada," murmurou ele, a voz rouca cheia de uma admiração que ele nunca demonstrara pela esposa. "Ela é cega por mim. Quando vamos nos ver de verdade?"
"Amanhã à noite," prometeu Cebolita, passando as unhas longas pelo pescoço dele. "Ela disse que vai fazer hora extra na feira debaixo de chuva."
"Perfeito," disse Pepinildo, os olhos brilhando com malícia pura. "Não aguento mais aquela vermelha sem graça. Você sim é uma mulher de verdade, cheia de tempero."
Risinhos abafados foram interrompidos pelo barulho de um prato que escorregou das mãos de Tomatuda na cozinha, fazendo com que se afastassem rapidamente.
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Madrugada fria cobria a cidade quando Tomatuda acordou com um aperto estranho no peito, uma sensação ruim que não conseguia explicar.
Olhando para o lado, percebeu que o espaço na cama de casal estava vazio e frio, sem sinal de Pepinildo.
Preocupada, ela levantou-se silenciosamente, caminhando descalça pelo piso de cimento queimado até a sala de estar.
Sussurros vindos do quintal chamaram sua atenção através da fresta da janela de vidro canelado.
"Eu te amo, meu amor," dizia a voz de Pepinildo, macia como nunca fora com ela. "Logo mais eu dou um pé na bunda daquela coitada e ficamos juntos de vez."
"Promete?" respondeu uma voz feminina, inconfundível, acompanhada pelo barulho suave de folhas secas sendo pisadas.
Tomatuda congelou, o ar sumindo de seus pulmões como se tivesse recebido um soco violento no estômago.
Reconhecer aquela voz foi mais doloroso do que se o chão tivesse se aberto sob seus pés de repente.
Era Cebolita, sua melhor amiga, a pessoa a quem confiava seus maiores segredos e fraquezas.
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Passos apressados fizeram Tomatuda recuar para a escuridão do quarto antes que fosse vista por Pepinildo, que entrava de mansinho.
Deitada na cama, ela fingiu dormir enquanto lágrimas silenciosas e quentes molhavam o travesseiro desbotado.
O mundo que ela havia construído com tanto suor e dedicação estava desmoronando ao seu redor, pedaço por pedaço.
Sentimento de traição misturava-se com uma raiva surda que começava a crescer bem no fundo do seu peito calejado.
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No dia seguinte, o sol nasceu cinzento, refletindo o estado de espírito de Tomatuda na barraca de vegetais.
Cebolita apareceu no final da tarde, exibindo um colar novo de bijuteria barata que brilhava sob a luz artificial.
"Oi, amiga!" disse a traidora, com a falsidade de sempre estampada no rosto. "Nossa, você está com uma cara péssima hoje."
"Não dormi bem," respondeu Tomatuda, mantendo a voz firme com um esforço sobre-humano para não gritar ali mesmo.
"Imaginei," comentou Cebolita, ajeitando o cabelo. "Vou precisar dar uma saída hoje à noite, resolver uns problemas de família."
"Entendo," limitou-se a dizer a feirante, apertando as mãos em punho até que suas unhas marcassem a própria pele.
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Anoiteceu rapidamente, trazendo uma tempestade fina que castigava as ruas de paralelepípedo da periferia.
Tomatuda decidiu que não seria mais a esposa boba e enganada que todos pisavam sem qualquer remorso.
Caminhando sob a chuva que lavava seu rosto, ela seguiu em direção ao endereço que Cebolita havia mencionado algumas vezes.
Coração batia tão forte que parecia que ia quebrar suas costelas a qualquer momento.
Parada diante da porta de madeira lascada do pequeno apartamento de Cebolita, ela ouviu risadas altas vindo do interior.
Reconheceu a risada áspera de Pepinildo e o som de taças de vidro se chocando em um brinde comemorativo.
"Um brinde à nossa liberdade!" exclamou o marido traidor dentro do quarto. "E àquela otária que está trabalhando na chuva agora mesmo!"
Tomatuda estendeu a mão trêmula em direção à fechadura da porta, que para sua surpresa, estava apenas encostada.