O ar parado do túnel abraça Gabriel, denso e frio. A escuridão não é apenas a ausência de luz, mas uma massa opressora que parece ter peso. Ele sente o cheiro úmido de terra molhada e mofo antigo, um hálito rançoso de algo que esteve selado por muito tempo. Cada passo ecoa, amplificado pelo silêncio sepulcral, e ele se move com a faca de bolso apertada na palma da mão, o metal frio um pequeno consolo contra a imensidão que o engole.
—Isso é loucura, Gabriel. Uma armadilha, com certeza, ele murmura, a voz rouca, quase perdida no vazio. Um eco fraco responde, um sussurro que parece zombar de sua audácia. Ele se força a ir em frente.
—Mas as respostas não virão sozinhas, certo? Não mais. Nunca mais, ele completa, lembrando-se da sensação de ser um peão. Seus dedos roçam a parede áspera, sentindo a frieza da pedra irregular. A cada metro, o cheiro de pó e esquecimento se intensifica, misturado a uma nota metálica, sutil e estranha.
—Quem construiu isso? E por quê?, ele pergunta ao vazio, seus olhos tentando se ajustar à penumbra, buscando qualquer contorno, qualquer sinal. A lanterna do celular é um feixe fraco, mal perfurando a cortina de sombra, mas o suficiente para revelar a textura bruta das paredes, o gotejar constante em algum lugar à frente.
—Eles querem que eu encontre isso, ele afirma, mais para si mesmo do que para qualquer presença. O chão sob seus pés é irregular, pedras soltas rangem a cada passo. O medo rasteja pela espinha, mas a curiosidade o puxa, um ímpeto mais forte que a cautela. A cada curva, a escuridão parece mais profunda, mais antiga.
—Este lugar tem uma energia... estranha. Pesada, ele comenta, a voz um pouco mais alta agora, desafiando a atmosfera opressora. Pequenos fios de teia de aranha roçam seu rosto, uma lembrança de quão abandonado este lugar realmente é. Ele para, ouve. Nada. Apenas o próprio coração batendo descompassado no peito.
—O que mais vocês estão escondendo?, ele sussurra, os lábios apertados. A lanterna revela um símbolo gravado na pedra, quase apagado pelo tempo. Três linhas curvas entrelaçadas, familiares de alguma forma. Ele já viu isso antes, mas onde? A mente trabalha febrilmente, tentando conectar os pontos. A adrenalina agora substitui o terror, um fogo frio em suas veias. Ele precisa saber. Ele precisa entender.
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O túnel se ramifica em várias direções, como veias de um corpo gigante adormecido. Gabriel escolhe o caminho mais à direita, a faca ainda em punho, a luz do celular tremendo. Ele caminha por um corredor mais estreito, o ar ficando ainda mais rarefeito, a sensação de confinamento apertando seu peito. A umidade se agarra à sua pele, e o cheiro de terra úmida se mistura com algo mais forte, um toque de metal enferrujado e... sangue seco? Ele estremece, mas não para.
—Outro símbolo, ele aponta, a voz um pouco mais firme, enquanto a luz ilumina uma série de entalhes repetidos nas paredes. O mesmo símbolo tribal do prédio de Química, mas aqui, ele é mais profundo, mais presente. Não é uma mera pichação, mas parte da própria estrutura. As linhas entrelaçadas se repetem, uma linguagem silenciosa que ele começa a decifrar.
—Isto não é apenas uma passagem. É um mapa, ele percebe, os olhos percorrendo os desenhos. Não são aleatórios. Cada um parece apontar para algo, para algum lugar. A universidade não é apenas um campus, mas um labirinto, um organismo vivo com segredos ocultos sob a pele. A descoberta aumenta sua obsessão. Ele sente a urgência de decifrar cada linha, cada curva.
—O que esses símbolos significam? Que história eles contam?, ele pergunta, sentindo o peso de séculos de segredos sobre ele. Ele toca um dos entalhes, a pedra fria e lisa sob seus dedos. Há uma história aqui, uma muito mais antiga e sombria do que qualquer coisa que ele imaginou. Ele vira uma esquina e a passagem se alarga, revelando uma câmara.
—Uma sala. Uma sala esquecida, ele descreve, a luz varrendo o espaço. Paredes de pedra escura, um teto baixo e arqueado. No centro, uma mesa circular de pedra bruta, com mais símbolos gravados. Não parece uma sala de aula, nem um arquivo. É muito mais antiga, muito mais solene. O tipo de lugar onde decisões importantes eram tomadas, ou onde rituais eram realizados.
—Isso parece um local de reunião, ele pensa alto, a voz ecoando. As cadeiras de pedra ao redor da mesa dão a impressão de que pessoas se sentavam ali, deliberavam. Mas por que aqui? E por que tão escondido? A mente de Gabriel corre, conectando os pontos. As famílias, a rivalidade, o controle. Tudo começa a fazer sentido de uma forma aterrorizante.
—Ou talvez… um lugar de rituais, ele corrige, a voz baixando. Ele nota manchas escuras na superfície da mesa, marcas que parecem antigas e desbotadas. O cheiro estranho de metal e sangue seco se intensifica. O ar é pesado com a sugestão de algo antigo e poderoso. Ele sente um calafrio, uma mistura de fascínio e repulsa. Este lugar é perigoso, mas ele não consegue se afastar.
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Gabriel se move para a próxima câmara, o cheiro de mofo e terra cada vez mais forte, quase asfixiante. A atmosfera sombria do lugar parece pressioná-lo, fazendo a pele arrepiar. Ele sente os pequenos pelos do braço se eriçarem, uma resposta instintiva ao perigo que o cerca. O ar é pesado, úmido e parado, como se nenhuma brisa tivesse alcançado este lugar por séculos. Ele sente um nó na garganta, a secura em sua boca. A coragem que o impulsionou começa a ceder lugar a um terror crescente.
—Isso é mais do que eu esperava. Muito mais, ele admite, a voz quase um sussurro. A escuridão parece mais viva aqui, pulsando nas profundezas do túnel. Seus olhos vasculham cada canto, procurando por algo, qualquer coisa, que possa dar sentido àquele ambiente opressor. A faca em sua mão já não parece tão reconfortante. Ele tenta respirar fundo, mas o ar é denso, quase palpável.
—Quem usou esses túneis? Para quê?, ele questiona, a mente lutando para processar tudo. As imagens dos símbolos tribais, as salas de reunião, os vestígios de rituais. Ele sente uma estranha conexão com o passado, como se estivesse pisando em uma história viva e pulsante. Ele estende a mão para uma parede, sentindo a umidade e a frieza do lugar.
—As paredes estão vivas. Elas guardam segredos, ele afirma, os dedos roçando uma textura áspera e irregular. O cheiro de pó e esquecimento é tão intenso que ele pode quase sentir o gosto na boca. Ele para para ouvir, mas o silêncio é absoluto, pesado, abafando até os batimentos do seu próprio coração. Parece que o tempo parou neste lugar.
—Não há como voltar atrás agora, ele decide, a voz mais firme do que ele se sente. O medo é uma onda gelada, mas a determinação de desvendar a verdade é uma chama que o mantém aquecido. Ele empurra o medo para o fundo, focado na próxima descoberta. Ele continua seguindo o corredor, a luz de seu celular dançando sobre as paredes, revelando mais símbolos e entalhes, alguns quase indecifráveis.
—Eles não querem que ninguém saiba disso. Isso é certo, ele murmura, o reconhecimento atingindo-o com força. Os segredos da universidade estão enterrados aqui, literalmente. Isso é o coração do jogo, o centro da teia. A adrenalina volta, misturada ao terror, uma combinação viciante que o impulsiona para frente. Ele precisa chegar ao fim, custe o que custar.
—Eles estão me esperando, ele sabe. A sensação de ser observado é quase física, rastejando pela sua pele. Cada sombra, cada eco, cada farfalhar de ar parece estar vigiando cada um dos seus movimentos. Ele está em território proibido, e sabe que está sendo testado. Ele se prepara para o que vem a seguir, os nós dos dedos brancos na faca. Ele não vai desistir.
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Gabriel avança por um corredor mais longo e estreito, os símbolos nas paredes tornando-se mais frequentes, mais vívidos. Ele está seguindo o rastro, uma linha de pão de mel que o leva mais fundo na toca do coelho. A cada passo, a luz do celular revela as marcas de arranhões no chão, como se algo pesado tivesse sido arrastado por ali. Ele sente a pulsação da adrenalina em suas veias, um tambor constante que o impulsiona, mesmo quando seus músculos gritam por descanso. Ele está perto. Ele sabe. A intuição grita em sua mente.
—Quase lá. Sinto isso, ele sussurra, a voz mal audível. O ar se torna ainda mais pesado, um cheiro denso e metálico misturado com a umidade e o mofo. Ele vira uma última curva, e uma porta aparece. Não é uma porta de pedra como as outras, mas de madeira escura, antiga e maciça, incrustada com mais símbolos. Ela não está completamente fechada, uma pequena fresta vertical, quase imperceptível, deixa vazar um filete de luz fraca do interior.
—Uma porta. Uma saída. Ou uma entrada, ele pondera, a voz falha. Seu coração dispara contra as costelas, uma batida forte e errática. A curiosidade e o medo se chocam, uma batalha interna que ele mal consegue conter. Ele se aproxima devagar, cauteloso, a faca ainda em sua mão. Cada fibra de seu corpo grita para ele fugir, mas a necessidade de respostas é mais forte. Ele precisa ver o que está por trás daquela porta.
—O que vocês estão escondendo?, ele pergunta, sua voz agora quase inaudível, um murmúrio desesperado. Ele se agacha, espiando através da pequena fresta. A luz no interior é fraca, oscilante, como de tochas. A sala é grande, circular, as paredes de pedra escura. E então, ele os vê. Figuras. Muitas delas. Todas vestindo capuzes escuros que escondem seus rostos, sentadas em um círculo ao redor de uma plataforma elevada no centro da sala. Parece um ritual. Um culto. Ele congela, o ar preso em sua garganta.
—Não pode ser, ele sussurra, a voz tremendo, o choque paralisando-o. O foco de seu olhar se estreita, buscando o centro daquele círculo sombrio. E lá, em pé, lado a lado, sobre a plataforma elevada, as figuras encapuzadas parecendo reverenciá-los, estão Malik e James. Eles não estão brigando. Não estão lutando. Eles estão ali, juntos, como líderes, seus perfis visíveis sob a luz bruxuleante, seus rostos contorcidos em sorrisos sádicos, olhando para a plateia silenciosa. Os dois. Lado a lado. Ele sente o chão sumir sob seus pés.