Chapter 1 of 1

Consequências da Imagem Familiar

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Acordei com o som abafado da chuva batendo contra o vidro grosso da janela do meu quarto. Gotas pesadas deslizavam em caminhos tortuosos, desenhando veios temporários sobre o vidro opaco. O céu de Seul ainda era uma mancha densa de cinza-chumbo, quase preto, mesmo sendo quase oito da manhã. A cortina de veludo preto, espessa como uma barreira deliberada, só permitia a entrada de uma faixa fina e pálida de luz, que cortava o escuro do quarto em um único fio prateado. Meu corpo estava quente sob as cobertas de seda preta. O contraste do lençol frio contra a pele fazia a temperatura parecer ainda mais íntima, quase protetora. Virei de lado. O cabelo bagunçado caiu sobre os olhos, e respirei fundo. O ar carregava o cheiro familiar de madeira antiga — o móvel pesado do guarda-roupa, o assoalho encerado — misturado ao leve aroma metálico que nunca saía completamente da casa. Aquele cheiro que a gente aprendia a ignorar, mas que o sangue sempre reconhecia. Levantei o tronco devagar, os músculos ainda pesados de sono. O relógio digital na mesa de cabeceira marcava 7:48 em números vermelhos discretos. Escola daqui a pouco. Mais um dia de teatro: adolescentes ricos, esnobes e famosos demais para o próprio bem, enquanto o sangue antigo nas veias lembrava, em silêncio constante, o que realmente éramos. Desci da cama. O mármore frio sob os pés descalços enviou um calafrio curto pela espinha. Caminhei até o banheiro da suíte, abri a torneira e joguei água gelada no rosto. A água escorreu pelo pescoço, molhando a gola da camiseta. No espelho, os olhos escuros me devolveram o olhar — levemente vermelhos nas bordas, ainda carregados de sono. A altura marcante. Soobin. Dezoito anos. Líder do TXT. Filho mais velho da família Kim. Irmão de Sunoo e Ohyul. Saí do banheiro já de camiseta cinza larga e calça de moletom combinando. Abri a porta do quarto com cuidado, o mecanismo quase silencioso. O corredor estava vazio e quieto. A casa era grande demais para três irmãos e os pais; cada um ocupava seu próprio território, andares quase privados, como se a distância física fosse a única forma de manter o equilíbrioe a paz inexistente da mansão. Desci as escadas devagar. No térreo, o cheiro mudou: café forte e denso se misturava ao aroma metálico do sangue aquecido, a mesa farta como diariamente. Mamãe já estava na cozinha, como sempre, os olhos duros e com uma raiva fresca, parecia que ontem teve um briga pesada. Papai, provavelmente, trancado no escritório do segundo andar, fechando algum contrato antes que o sol conseguisse furar as nuvens de verdade. Ele sempre evitava ficar no mesmo cômodo que a mamãe na maioria das vezes. Sunoo estava sentado na bancada da cozinha, as pernas pálidas e magras do joelho pra baixo, balançando no ar, um copo de vidro escuro entre as mãos. Parecia pequeno ali. O cabelo rosa claro ainda bagunçado do sono caía sobre a testa. Quando entrei, ele ergueu o rosto imediatamente e sorriu de leve — tímido, como sempre, como se ainda estivesse medindo o espaço entre nós. Ohyul estava encostado na geladeira, comendo um nattô com vontade. Imponente. Só ergueu uma sobrancelha na minha direção, o gesto mínimo que, nele, equivalia a um cumprimento inteiro. Abri a geladeira, peguei uma garrafa de sangue tipo O+ gelado e sentei do outro lado da bancada, em frente ao Sunoo. O vidro frio contra a palma da mão. — Bom dia, Noo.— falei, a voz ainda rouca de sono. Sunoo olhou pra ele imediatamente e sorriu largo. A voz dele saiu baixa e com uma animação forçada, quase um sussurro: — Bom dia, hyung… Segurou o copo com as duas mãos, como se precisasse se ancorar nele. Ohyul não disse nada. Só observava, o olhar quieto e atento demais para alguém que fingia indiferença. Claramente queria expor alguma coisa. Bebi um gole longo. O líquido frio desceu pela garganta, denso, familiar, trazendo um alívio discreto que o corpo reconhecia antes da mente. Do lado de fora, a chuva aumentou de volume, batendo mais forte contra as janelas amplas da cozinha. O celular vibrou no bolso da calça. Uma notificação. Depois outra. E mais uma. Olhei para o Sunoo de novo. Ele ainda não tinha bebido quase nada do copo. Os dedos apertavam o vidro com uma força contida. — Noo? Você dormiu bem? — perguntei. Ele abaixou o olhar para o líquido escuro dentro do copo. Os dedos apertaram um pouco mais. O silêncio se estendeu entre nós, preenchido apenas pelo som da chuva e pelo zumbido baixo da geladeira. Eu esperei, pensei que o Sunoo não iria me responder. O silêncio na cozinha se estendeu por mais alguns segundos, pesado como a chuva que agora martelava as janelas com força renovada. Até que Sunoo finalmente abriu a boca. A voz dele saiu baixa, quase engasgada, como se cada palavra precisasse ser puxada de algum lugar fundo demais. — Dormi… — murmurou, os olhos ainda presos ao líquido escuro dentro do próprio copo. — Você tá bem? Escutei você brigando com alguém ontem de noite e… Não deu tempo de sequer responder. Ohyul se descolou da geladeira com um movimento lento e deliberado, o corpo alto avançando até ficar logo atrás do banco onde Sunoo estava. Os braços ainda cruzados, o maxilar travado, a sobrancelha levantada de um jeito que eu conhecia bem demais. Quando falou, a voz saiu baixa no começo, mas carregada de uma tensão que fez o ar da cozinha ficar mais denso. — Dormiu bem, Noo? Tem certeza? — perguntou sarcástico, inclinando um pouco a cabeça. — Conta pro Soobin o que aconteceu ontem. Conta! Quero que você conte. Na minha frente. Sunoo tremeu visivelmente. Os ombros encolheram, os dedos apertaram ainda mais o copo de vidro até os nós ficarem brancos. Eu senti o cheiro metálico no ar se intensificar — não só do sangue na geladeira, mas do medo agudo que o irmão mais novo estava liberando sem conseguir controlar. Levantei a mão. — Ohyul! Não aumente a sua voz. O que aconteceu? Antes que Ohyul pudesse responder de novo, Sunoo já estava descendo do banco alto. Os pés descalços tocaram o mármore frio com um som quase inaudível. Ele veio direto na minha direção, pequeno e encolhido, como se a altura dele pudesse desaparecer se ele se fizesse o suficiente de bola. Parou ao meu lado, tão perto que senti o calor irregular do corpo dele, e abaixou a cabeça até o cabelo rosa claro esconder completamente o rosto. Ohyul não recuou. Pelo contrário. Deu mais um passo, agora de frente para nós dois, e a voz saiu mais alta, cortando o som da chuva. — O Sunoo tinha saído. Sem a autorização do pai. Foi ver os amiguinhos dele. Aqueles humanos da escola que ele insiste em manter por perto como se a gente pudesse ter a vida normal algum dia. Ele voltou tarde da noite. Muito tarde. O papai tava esperando na sala, sentado naquela poltrona de couro preto com o copo de sangue alcoólico ainda pela metade na mão. Quando Sunoo entrou, mentiu. Olhou o pai nos olhos e disse que eu tinha mandado ele sair. Que eu tinha dito que era seguro. Que eu tinha falado que o pai tinha deixado. Sunoo fez um som baixo na garganta, quase um gemido, ele tava com vergonha. Eu senti o corpo dele tremer contra o meu braço. Queria chorar. — Ele colocou a culpa em mim só pra não apanhar — continuou Ohyul, a voz agora mais rouca, os olhos escuros brilhando com uma raiva contida que eu raramente via nele. — O pai não perguntou mais nada. Não olhou sequer pra minha cara. Só levantou, pegou Sunoo pelo braço forçando ele a ir pro quarto dele e depois… depois me olhou. Disse que se eu tava cobrindo o irmão, eu ia aprender a consequência do meu comportamento. Me levou pro porão. As paredes de pedra, o cheiro de umidade e ferro antigo. Ele me trancou lá embaixo de novo e… Ohyul parou por um segundo. A mandíbula se moveu, como se estivesse mastigando as palavras antes de soltá-las. — Ele usou o chicote de prata. O fino. O que deixa marca por dias. Não foi rápido. Ele falou baixo o tempo todo. Sobre responsabilidade. Sobre família. Sobre como o filho do meio não pode ficar cobrindo mentiras de moleque como o Sunoo. Eu não gritei. Não pedi pra parar, não conseguia. Só fiquei lá, de joelhos no chão frio, enquanto o metal queimava a pele das costas e dos ombros, do meu corpo inteiro. Quando ele terminou, me deixou trancado até o sol nascer. Eu só subi quando ouvi ele se trancando no escritório. Sunoo finalmente ergueu o rosto. Os olhos estavam vermelhos, não só de sono, mas de algo mais úmido e pesado. A voz saiu num fio quase inaudível. — Desculpa… Ohyul soltou um riso curto, sem humor nenhum. — Desculpas, não apaga as marcas, Noo. Desculpas, não faz o pai olhar pra mim de novo sem aquela expressão de decepção e de nojo que ele guarda exclusivamente pra nós três. Você sabia exatamente o que ia acontecer se mentisse. Você sempre soube. Eu coloquei a garrafa de sangue sobre a bancada com mais força do que pretendia. O som ecoou pela cozinha. Virei o corpo inteiro para os dois, sentindo o cansaço antigo subindo pela espinha junto com uma irritação fria. — Chega! Os dois. Agora. Olhei primeiro para Sunoo, que ainda estava colado no meu lado, e depois para Ohyul, que permanecia de pé, reto demais, como se qualquer movimento pudesse rachar algo dentro dele. — Sunoo. Você saiu sem autorização. Mentiu. Jogou a culpa no Ohyul. Isso é verdade? Sunoo assentiu devagar, o lábio inferior preso entre os dentes. Uma lágrima escorreu pelo canto do olho esquerdo e se perdeu no tecido da camiseta branca que ele usava. — Eu… eu só queria ver o Jungwon e o Jaehyun. Eles iam ao cinema e… e eu achei que se voltasse antes da meia-noite ninguém ia perceber. Mas o papai tava acordado. Ele sempre escuta. E quando ele perguntou, eu… eu fiquei com medo. O chicote dói demais em mim. Eu não aguento, demora pra curar em mim. Então eu falei que o hyung tinha dito que eu podia. Que ele tinha dito que o pai tinha deixado. Eu não pensei… eu não pensei que o pai ia levar o Ohyul pro porão novamente. Ohyul cruzou os braços de novo, mas dessa vez o gesto parecia mais uma tentativa de se conter do que indiferença. — Você nunca pensa, Noo. É sempre assim. Você faz merda, cria um plano cu que você acha mirabolante, e sempre acontece a mesma coisa no final. E o Soobin fica no meio tentando consertar o que já tá quebrado. Eu passei a mão pelo rosto, sentindo o cansaço de uma noite mal dormida se misturar com a raiva controlada. O cheiro de sangue aquecido da mamãe na outra ponta da cozinha ainda estava no ar, mas ela não tinha aparecido. Provavelmente estava ouvindo tudo e escolhendo não intervir. Como sempre. As ameaças de morte faziam ela fazer coisas que nunca faria. — Ohyul — chamei, a voz mais baixa. — Mostra as costas. Ele hesitou só um segundo. Depois virou de lado, puxou a barra da camiseta preta para cima com um movimento seco. As marcas estavam lá. A visão era angustiante. Linhas finas, prateadas nas bordas, algumas ainda avermelhadas, atravessando a pele pálida das costas e dos ombros. Não eram profundas o suficiente para sangrar agora, mas eram suficientes para queimar a cada movimento. A magia de cura dos vampiros parecia ter ajudado um pouco, mas ali tinha dedo da mamãe, ela parecia ter acelerado o processo. Ohyul baixou a camiseta de novo sem dizer nada. Sunoo soluçou baixo ao meu lado. — Eu sinto muito… de verdade. Eu… eu posso falar com o pai. Posso dizer a verdade. Posso… — Não vai adiantar — cortou Ohyul, a voz cansada de repente. — Ele já decidiu. Eu cobri. Eu levei a culpa. Agora é minha responsabilidade carregar. Eu olhei de um para o outro. O irmão do meio com as costas marcadas e o orgulho rachado. O mais novo encolhido, cheirando a medo e culpa. E eu no meio, dezoito anos, líder de um grupo de ídolos que o mundo inteiro adorava, enquanto em casa a gente ainda era só três irmãos tentando não se destruir dentro das regras de uma família que carregava sangue antigo demais nas veias. A chuva lá fora aumentou mais uma vez, violenta, como se o céu de Seul também estivesse bravo com a gente. O celular vibrou de novo no bolso da calça. Mais uma notificação. Eu ignorei. — A partir de agora — falei, olhando primeiro para Sunoo e depois para Ohyul —, ninguém mais mente. Nem um pro outro, nem pro pai. Se alguém precisar sair, avisa. Se alguém apanhar, avisa. Se alguém estiver com medo, avisa. Eu não vou ficar no meio de vocês dois enquanto estão se esfaqueando com silêncio e culpa. Entenderam? Sunoo assentiu rápido demais, as lágrimas ainda escorrendo. Ohyul demorou mais. Os olhos escuros me fixaram por um longo segundo antes de ele soltar o ar pelo nariz e dar um único aceno curto com a cabeça. O silêncio voltou, mas dessa vez era diferente. Menos pesado. Mais frágil. Foi aí que a mamãe saiu do lugar em que ela estava e a voz dela cortou o ar, calma demais para o que acabara de acontecer. — Meninos. Comam logo, parem de discutir. O pai de vocês ligou. Ele quer falar com os três antes de vocês saírem pra escola.

End of Chapter 1