Chapter 29 of 30

Capítulo 29: Sentimentos

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O ar no quarto de Gabriel estava pesado, denso com o silêncio que se seguia à noite anterior. Ele ainda sentia o peso invisível do amuleto replicado em seu pescoço, uma âncora para a servidão de Elara. Uma batida suave na porta o fez sobressaltar. Não era Malik, nem James. Leo, seu colega de quarto, espiou para dentro, os olhos correndo pelo cômodo antes de pousar em Gabriel. A expressão no rosto de Leo não era a habitual despreocupação. Havia uma urgência ali, um conhecimento que Gabriel não tinha. Ele fez um sinal com a cabeça para Gabriel, um convite silencioso que não permitia recusa. —Vem comigo— a voz de Leo era um sussurro, mal audível, mas carregada de uma gravidade que Gabriel nunca tinha ouvido. Ele se levantou, a curiosidade misturada com uma pontada de apreensão. Seguiu Leo pelo corredor, o som de seus próprios passos ecoando nos pisos de madeira, até um lance de escadas escondido atrás de uma porta de serviço enferrujada. O cheiro de mofo e poeira subiu ao encontro deles enquanto desciam para o subsolo do dormitório. Era um porão esquecido, mal iluminado por uma única lâmpada pendurada que oscilava precariamente. Pilhas de móveis antigos e quebrados, caixas empoeiradas e equipamentos de limpeza abandonados formavam um labirinto. Leo o conduziu até o fundo, para um pequeno cubículo mal iluminado, escondido atrás de uma pilha de colchões velhos. O espaço era apertado, claustrofóbico, e o cheiro de umidade era sufocante. —Ninguém vem aqui— Leo disse, a voz baixa, quase um ronronar. —É o lugar mais seguro que temos. Ou o mais esquecido. Para o que eu preciso te contar, é a mesma coisa.— Ele se virou para Gabriel, seus olhos, geralmente cheios de um humor irônico, agora eram sérios e tensos. —Você entrou em algo muito maior do que imagina, Gabriel. Algo que existe desde antes desta universidade ser um mero projeto no papel. A Irmandade não é um clube de estudantes. É uma linhagem. Uma dinastia. Gabriel sentiu um calafrio. —Elara… ela me disse algo parecido. Sobre famílias antigas.— O nome de Elara ainda provocava um nó em seu estômago. O controle dela era uma sombra constante. Leo assentiu. —Costa e Almeida. Os pilares. Eles controlam tudo. Políticos, empresas, as cidades… até mesmo a mente das pessoas através de ‘o programa’. ‘O Arquiteto’ é apenas uma ferramenta. Uma fachada para uma ideologia que serve ao poder deles. Você tem sido um peão. Um catalisador.— Ele fez uma pausa, os olhos fixos em Gabriel. —Mas agora, você é mais do que isso. Você é a chave. —A chave para quê?— Gabriel perguntou, a voz mal saindo. A cada palavra de Leo, o mundo que ele pensava conhecer se desintegrava um pouco mais. As revelações de Elara faziam sentido agora, mas o contexto de Leo as tornava ainda mais aterrorizantes. —Para o que sempre foi. Para o equilíbrio. Malik e James não são apenas rivais por você. Eles são rivais por direito. Herdeiros. Malik é o Costa. James é o Almeida. Eles disputam você porque você é o prêmio que pode desequilibrar a balança para sempre. O sangue em suas veias… é mais antigo do que qualquer um deles. É o sangue dos fundadores. Você é O Herdeiro.— As palavras de Leo caíram como pedras pesadas no ar. Gabriel sentiu o peso da informação esmagá-lo, a complexidade do sistema ancestral da Irmandade e a teia de intrigas que o envolvia. Ele se recostou contra uma pilha de caixas empoeiradas, sentindo o papelão úmido ceder levemente sob seu peso. As palavras de Leo ecoavam em sua mente, cada uma delas construindo uma imagem mais sombria e grandiosa do que Elara havia sugerido. Elara havia falado de vingança, de desmantelar um império. Leo falava de milênios de poder, de linhagens que consideravam cidades inteiras como suas peças em um tabuleiro de xadrez. —Isso… é insano— Gabriel sussurrou, a garganta seca. A adrenalina corria por suas veias, mas não era a emoção crua de antes. Era um frio, calculista medo. Ele não era apenas um estudante. Não era apenas um agente. Ele era a personificação de um legado, uma chave viva. —Insano é a palavra— Leo respondeu, seu olhar varrendo o rosto de Gabriel, procurando por algo. —Mas é a realidade. Malik e James não são apenas os valentões da universidade. Eles são generais em uma guerra fria, travada nas sombras, e você… você é a arma que ambos querem controlar.— Ele explicou a rivalidade entre as famílias, uma disputa por recursos, territórios, influência, que se manifestava na microescala da universidade. Os projetos de James, as ações de Malik, tudo era parte de uma estratégia maior. O campo magnético, a absorção de energia residual… tudo tinha um propósito além da ciência. Era poder. Gabriel se lembrou dos toques, dos sussurros, da possessividade. Antes, ele os vira como um jogo de sedução e controle pessoal. Agora, ele via a crueldade, a estratégia fria por trás de cada movimento. Eles não queriam apenas *ele*. Eles queriam o que *ele representava*. A posse de Gabriel significaria a ascensão de um sobre o outro, o domínio final. O que Malik e James sentiam por ele, então, era apenas um reflexo distorcido de seu desejo por poder. Um meio para um fim. —Então… eu sou um troféu?— Gabriel perguntou, a ironia amarga em sua voz. A ideia de ser uma peça em um jogo tão antigo e cruel era repulsiva. Ele odiava ser controlado, odiava ter suas escolhas roubadas. —Mais do que um troféu. Você é a coroa— Leo corrigiu. —Aquele que te tiver, terá a legitimidade. A linhagem. O poder ancestral. ‘O Arquiteto’ apenas selecionava candidatos, treinava agentes. Mas você… você não é um agente. Você é a fonte. A Irmandade sempre soube que você existia. Eles apenas não sabiam onde te encontrar, até que ‘o programa’ te revelou. E agora, ambos querem a posse exclusiva. Eles veem em você o fim da rivalidade, a unificação de seu poder… através de você. O que Leo dizia preencheu as lacunas deixadas por Elara. A Irmandade não era apenas um grupo secreto; era um ecossistema predatório. Malik e James eram os principais predadores, e Gabriel, de alguma forma, era a presa mais valiosa. Ele sentiu o chão tremer sob seus pés. Seu plano de manipular James e Malik parecia ridículo agora, uma brincadeira de criança diante da complexidade dos jogos que eles jogavam. A revelação de que Malik e James eram rivais em um nível mais profundo não apenas confirmou a teia de mentiras em que Gabriel estava, mas também deu uma nova e terrível perspectiva sobre a intensidade de suas interações. Não era apenas rivalidade juvenil ou luxúria possessiva; era uma guerra silenciosa pela supremacia, e Gabriel era o campo de batalha. A frieza que ele havia cultivado para se proteger começou a rachar. O medo de ser uma peça, de ser despersonalizado, era avassalador. Mas, estranhamente, junto com o medo, veio uma pontada de algo mais. Uma compreensão. Se eles o queriam tanto, se a posse dele era tão crucial, significava que havia um investimento, uma obsessão que transcendia a mera estratégia. Era doentio, sim, mas era real. —Eles se odeiam— Gabriel disse, mais para si mesmo do que para Leo. —Mas eles me querem.— A contradição era gritante. Como podiam se detestar tanto e ainda assim lutar com tanta ferocidade para possuí-lo? Não fazia sentido. A lógica de Elara era vingança. A lógica de Leo era poder ancestral. Onde ele se encaixava nisso? —Não se odeiam mais do que se completam— Leo retrucou, um sorriso sombrio curvando seus lábios. —Eles são o Yin e o Yang da Irmandade, destinados a lutar, mas também a se unir pelo que é maior. E agora, o que é maior… é você. Você é a promessa de um poder que nenhum deles pode alcançar sozinho. Eles não podem se matar, porque precisam um do outro para manter o equilíbrio. Mas você? Você é o desequilíbrio supremo. A anomalia que pode devorar tudo ou unificar tudo.— Leo se aproximou, sua voz baixando a um sussurro que roçou a orelha de Gabriel. —Você não pode mais escolher um. Você precisa controlar ambos, Gabriel. Ou será controlado por eles. Ou pela Irmandade. Ou pela Elara. Gabriel sentiu um arrepio na espinha. A pressão era insuportável. —O que eu faço?— A pergunta saiu mais como um gemido. Ele estava cansado de lutar, cansado de ser manipulado. As revelações de Leo, ao invés de libertá-lo, o haviam preso ainda mais profundamente. Sua autonomia, tão preciosa para ele, estava sendo esmagada por todas as direções. —Você joga— Leo respondeu, seus olhos fixos nos de Gabriel. —Você faz o que eles esperam, mas para o seu próprio benefício. Você se torna a pessoa que eles precisam, mas por dentro, você é o Herdeiro. E como Herdeiro, você tem um poder que nem eles entendem completamente. Você pode forjar sua própria coroa, Gabriel. Ou ser esmagado sob a bota deles.— O tom de Leo mudou, tornando-se mais grave, quase ameaçador. —Você é a peça mais valiosa. Mas peças podem ser descartadas. Escolha, Gabriel. Você está do lado de quem? O seu lado não é uma opção. Não mais. É a hora de você decidir quem você vai se tornar. Um fantoche… ou um rei. Essa era a ameaça. Não um perigo físico direto de Leo, mas a dura realidade de sua situação, a demanda por uma escolha impossível que ele não queria fazer. Leo estendeu a mão, oferecendo um pequeno objeto, do tamanho de um isqueiro, feito de um metal escuro e liso. Era estranhamente frio ao toque. —Isso— Leo disse, empurrando o objeto na mão de Gabriel. —É um supressor de frequência neural. Vai esconder sua assinatura por um tempo limitado. Seus pensamentos, suas emoções… eles não poderão ler você. É uma proteção temporária. Use-o com sabedoria. Acredite, você vai precisar. As coisas vão esquentar muito em breve.— A voz de Leo era sombria. —Eles estão sentindo você. A mudança em você. E eles estão ficando desesperados. Seu quarto não é mais seguro, Gabriel. Para eles, você é o centro de tudo. E eles estão a caminho. O que ele quis dizer com “eles estão a caminho”? Gabriel mal teve tempo de perguntar. Um barulho alto veio de cima, um som de metal raspando contra madeira, seguido por um baque surdo. Os olhos de Leo se arregalaram. Ele se virou para a saída secundária do cubículo, um pequeno túnel de ventilação, e rastejou por ele com uma agilidade surpreendente, desaparecendo na escuridão. Gabriel ouviu seus passos se afastando rapidamente. O supressor de frequência neural em sua mão parecia pulsar. Ele o apertou com força, sentindo a urgência de Leo, a verdade em suas palavras. O baque se repetiu, mais forte desta vez, vindo diretamente de seu quarto. Gritos abafados e o som de algo quebrando. Malik e James. Eles estavam lá. Não como inimigos, mas como predadores marcando território. Por *ele*. Ele sentiu um instinto primordial inchar em seu peito, um desejo de proteção, uma possessividade espelhada. Suas paredes desmoronaram. Correndo de volta pelo labirinto do porão, subindo as escadas, Gabriel irrompeu no corredor principal. A porta do seu quarto estava escancarada, a madeira rachada em torno da fechadura. Um rastro de destruição. Alguém tinha tentado forçá-la. Mas agora, os únicos ali eram Malik e James, os dois parados no meio do seu quarto, os punhos cerrados, os corpos tensos. Malik estava com a respiração ofegante, uma linha de sangue escorrendo do corte na testa. James tinha os olhos injetados de sangue, as mãos tremendo. Eles se viraram para Gabriel, e a fúria em seus rostos deu lugar a um alívio avassalador, a um medo bruto e inconfundível. Eles estavam apavorados. Por ele. Não pelo troféu. Por Gabriel. —Gabriel!— A voz de Malik era um rosnado, pura possessividade, pura alívio. Ele deu um passo à frente, os olhos varrendo Gabriel em busca de ferimentos. James veio logo atrás, seu rosto contorcido em uma máscara de raiva e preocupação. —Quem… quem tentou te machucar?— James perguntou, a voz áspera, a mão se estendendo para tocá-lo, mas parando no ar. A ferocidade protetora deles quebrou o último pedaço da armadura de Gabriel. A manipulação, o controle, Elara, a Irmandade… tudo desapareceu. O que restava era a paixão. Desesperada. Avassaladora. Por eles. Ele não queria mais fugir. Não queria mais lutar contra isso. Ele queria estar com eles, ser possuído e possuí-los em retorno. Malik e James avançaram, os olhos fixos nele. A lealdade cega e o medo real de perdê-lo tinham se tornado um incêndio selvagem, e ele estava pronto para se queimar. —Eu…— Gabriel engasgou, as palavras presas na garganta. Ele jogou o supressor de frequência em cima da mesa, um gesto de rendição. De escolha. —Vocês são meus.— A voz saiu rouca, um comando que também era uma súplica. Ele os puxou para si, o controle cedendo lugar a um desejo faminto. Malik o envolveu em um abraço esmagador, o cheiro de suor e raiva misturado com seu próprio aroma. James o apertou por trás, suas mãos firmes em sua cintura, puxando-o para mais perto. Com o intruso expulso, a tranca estala na porta. Gabriel é prensado contra a parede pelos dois corpos maciços. Malik toma sua boca com desespero febril e fome bruta, enquanto James beija seu pescoço, mãos possessivas desnudando sua pele. Arfando entre os toques ferozes, Gabriel puxa os cabelos de ambos, rendendo-se ao prazer doentio: 'Agora vocês são meus... e eu sou de vocês.' Os lençóis os engolem no início de um romance voraz. Fim do ato.

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