Chapter 25 of 30

O Preço da Submissão

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A música pulsava como um coração descompassado através das paredes grossas da mansão. Gabriel seguia, ou era levado, entre Malik e James, cujas mãos pesavam em seus ombros. O cheiro de uísque caro e perfume cítrico cortava o ar. Não havia mais o resquício de dor de antes; seus sentidos, estranhamente aguçados, captavam cada detalhe, cada nota, cada sussurro. As feridas pareciam uma memória distante, seu corpo um receptáculo de uma nova e fria energia. — Vamos, calouro. Não queremos fazer uma cena, queremos? — James murmurou, um sorriso forçado nos lábios, mas a pressão de seus dedos era um aviso. — E a cena já está sendo feita. — Malik completou, a voz grave, os olhos esquadrinhando os corredores forrados de veludo. Ele estava tenso, Gabriel percebia. Ambos estavam tensos. Os corredores estavam cheios de rostos desconhecidos, todos impecavelmente vestidos. A riqueza emanava deles como um calor invisível. Gabriel sentia os olhares, as avaliações silenciosas que o seguiam. Ele era a novidade, o intruso, o brinquedo novo no parquinho dos gigantes. — Quem é ele? — Uma voz feminina, aguda e carregada de escárnio, cortou a música por um instante. — O novo. — Um homem respondeu, os olhos dele fixos em Gabriel, um brilho de curiosidade cruel. — Novo o quê? Um bichinho de estimação para os nossos garotos? — A mulher riu, e a risada se espalhou por um pequeno grupo. Gabriel sentiu o sangue gelar. Ele não era um bichinho. Ele era O Herdeiro, a chave, o alfa. A fúria borbulhava sob sua pele, uma corrente elétrica que o impulsionava a se virar, a confrontar. Mas a mão de Malik apertou seu ombro com força suficiente para conter a reação. — Apenas ignore. — Malik rosnou em seu ouvido, a voz quase um sibilo. — Eles sempre falam demais. — Mas nunca o suficiente para arriscar a própria pele, não é, Malik? — James completou, seu sorriso se alargando em um gesto de desafio para o grupo que os observava. Ele puxou Gabriel um pouco mais para perto, um gesto protetor que o surpreendeu. Entraram em um salão opulento, com lustres de cristal que derramavam luz dourada sobre a multidão. O burburinho era ensurdecedor, mas Gabriel conseguia distinguir as palavras, os tons, os julgamentos. Seus novos sentidos eram uma maldição e uma benção. — Então, este é o famoso Gabriel. — Um veterano alto, com um colete de brocado e um copo de champanhe na mão, aproximou-se. Seus olhos, de um azul gélido, percorreram Gabriel de cima a baixo. — Ouvi dizer que você tem causado um certo... alvoroço. — Ele é nosso. — James respondeu de imediato, a voz seca, posicionando-se levemente à frente de Gabriel. — E não está à venda. — Ainda não. — O veterano zombou, tomando um gole. — As coisas aqui mudam rápido. Especialmente para os calouros com talentos… peculiares. Gabriel sentiu um flash de raiva, um impulso quase incontrolável de quebrar o copo daquele homem. A nova força que corria em suas veias era tentadora. Mas Elara. Lucas. Ele precisava se controlar. Ele era uma arma, e armas não agem por impulso. Ele respirou fundo, concentrando-se no cheiro de madeira envelhecida e cera de vela. — A festa é para celebrar, não para discutir quem é o próximo brinquedo. — Malik interveio, sua postura defensiva, mas os olhos fixos no veterano. — Fique longe. O veterano encolheu os ombros, um sorriso desdenhoso. — Como quiserem. Mas o calouro parece... interessante. Talvez eu passe para uma conversa mais tarde. Sem a supervisão dos pais. Ele se afastou, mas o peso de seus olhos permaneceu. Gabriel sentia a queimação. A humilhação era um veneno lento, infiltrando-se em sua dignidade. Ele era um troféu, uma peça de exibição. A cada olhar, a cada risada abafada, ele sentia a ferida se abrindo novamente. Mas a fúria fria era mais forte que a dor. --- Os copos tilintavam. As vozes se misturavam em uma sinfonia de desprezo velado. Gabriel era arrastado de um canto a outro, apresentado a figuras poderosas da Irmandade, cada uma delas com um olhar inquisidor. Ele era o novo, o 'protegido', o 'achado' de Malik e James, e isso o tornava um alvo fácil para provocações. Cada palavra era uma agulhada. — Tão delicado. — Uma mulher de vestido vermelho escuro deslizou os dedos por seu braço, um sorriso malicioso. — Tem certeza de que aguenta a pressão deste lugar, querido? Gabriel não respondeu. Ele olhou diretamente para ela, seus olhos, ele sabia, ardendo com uma intensidade que parecia surpreendê-la. Sua expressão permaneceu inabalável, um muro de pedra contra a curiosidade. Ele era forte. Ele aguentaria. Não por eles, mas por Lucas. — Ele aguenta mais do que você imagina. — Malik respondeu, puxando Gabriel para mais perto de si, a mão firme em sua cintura. A mulher recuou, a expressão azedando. — Parece que os cães de guarda estão bem treinados. — Outro veterano, com um olhar de águia e um queixo quadrado, comentou, sem tirar os olhos de Gabriel. — Ou talvez seja ele quem os treina. Qual dos dois, calouro? Gabriel sentiu o tremor nas mãos de Malik. James, ao seu lado, enrijeceu. A pergunta era uma clara provocação, um desafio direto à autoridade deles. Era uma forma de diminuir os três. Gabriel ergueu o queixo, a dignidade intacta. Ele não lhes daria a satisfação de vê-lo quebrar. — Não sou um animal para ser treinado. — A voz de Gabriel era baixa, mas firme, sem vacilar. — E não sou de ninguém. Não sou propriedade. Um silêncio momentâneo caiu sobre o pequeno grupo. A ousadia de Gabriel era inesperada. Malik soltou uma respiração audível. James o olhou, uma expressão complexa em seu rosto. Não era raiva, não era surpresa. Era algo mais profundo, algo que Gabriel não conseguia decifrar completamente. — Uma boca atrevida. — O veterano do queixo quadrado riu, mas o som não alcançou seus olhos. — Isso pode ser divertido. Ou perigoso. Depende de como você lida com as consequências, garoto. — As consequências são minhas. — Gabriel respondeu, a fúria fria em suas veias se transformando em um escudo. Ele não era o Gabriel de antes, o calouro assustado. Ele era a manifestação da vingança, um instrumento de destruição. Ele estava ali, sim, mas não para ser quebrado. Malik se moveu, um passo à frente, quase confrontando o veterano. James fez o mesmo, seus olhos fixos e perigosos. A tensão entre eles era palpável. Gabriel sentiu a mudança. O desejo de posse ainda estava lá, mas algo novo havia se juntado a ele. Admiração. Respeito. --- O burburinho da festa parecia se afastar. Gabriel, com Malik e James agora visivelmente mais próximos, mais protetores, sentia o peso de cada olhar. Ele era o espetáculo. Mas, em vez de se encolher, ele usava a oportunidade. Ele observava. Os sorrisos falsos, os acenos condescendentes, os sussurros que tentavam se esconder na música. Ele era uma esponja, absorvendo cada pedaço de informação. — Você não precisava ter respondido. — James sussurrou, a voz tensa, seus olhos ainda varrendo a multidão em busca de novas ameaças. — Isso só os incita. — Ele está certo. — Malik concordou, a mão ainda em sua cintura, o polegar roçando a pele exposta por um instante, um gesto quase carinhoso. — Você se expõe. — Eu me exponho para que saibam que não serei quebrado. — Gabriel respondeu, a voz mantendo sua firmeza. Ele olhou para James, depois para Malik. — Vocês queriam que eu me submetesse. Eu o fiz. Mas minha mente, meu espírito, nunca serão seus. E eles precisam saber disso. Os dois ficaram em silêncio por um momento, as expressões endurecidas, mas não de raiva. Era uma admiração relutante. Gabriel os sentia vacilar. A arrogância deles, tão evidente antes, parecia ter rachaduras. O controle, o desejo de dominação, estava dando lugar a algo mais complexo. Proteção. — Mas você é... — Malik começou, a voz falhando. Ele balançou a cabeça. — Você é diferente. — Eu sou o que me fizeram ser. — Gabriel retrucou, o olhar desafiador. Ele podia sentir a presença de Elara, a voz sintética em seu relógio parecendo sussurrar em sua mente: *Continue. Cause discórdia. Mostre sua força.* Ele a usaria, mas à sua própria maneira. Um grupo de veteranos se aproximou, os rostos tingidos de desprezo. O veterano do queixo quadrado estava entre eles. Eles formaram um semicírculo, os olhares de escárnio. A música parecia diminuir. O ar ficou pesado. — Parece que o cachorrinho se atreve a rosnar. — Um deles zombou, uma garrafa de vinho na mão. — Talvez precise de uma lição de obediência. Ele deu um passo à frente, e Gabriel sentiu o impulso de atacá-lo, de usar a nova força que ele possuía. Mas antes que pudesse mover um músculo, Malik se interpôs, o corpo tenso, os punhos cerrados. James fez o mesmo, os olhos ardendo em fúria pura. — Recuem. — A voz de Malik era um trovão, grave e perigosa. — Ele é nosso. E ninguém encosta nele. — Ninguém. — James ecoou, seus olhos fixos nos agressores. O desejo de posse tinha se transformado em um instinto protetor selvagem. Eles estavam prontos para a batalha. Por ele. Gabriel sentiu um choque, um reconhecimento. Eles não estavam apenas defendendo seu 'troféu'. Eles estavam defendendo *ele*. --- A tensão na sala era espessa o suficiente para ser cortada com uma faca. Os veteranos recuaram, surpresos com a ferocidade de Malik e James. O burburinho se intensificou, mas agora era de espanto e fofoca. Gabriel estava no centro de tudo, uma calma fria em meio à tempestade que ele havia provocado. Ele não havia quebrado. Ele havia se erguido. E, ao fazê-lo, havia mudado a dinâmica entre os três. — Fiquem longe. — James sibilou para o grupo que se dispersava. Ele estava ofegante, mas os olhos ainda guardavam a chama da fúria. — Ou vão se arrepender. Malik, ao seu lado, olhou para Gabriel, o queixo travado. A arrogância havia desaparecido, substituída por algo que Gabriel reconhecia como preocupação genuína. Aquele era o amor protetor que Elara havia previsto, uma ferramenta que ela pretendia usar. Mas Gabriel sentia-o de forma diferente agora. De repente, a atmosfera gela. Um arrepio percorreu a espinha de Gabriel, não de medo, mas de uma premonição. A música pareceu falhar, o zumbido das vozes se transformou em um silêncio opressor. Ele se virou, seguindo a sensação gelada, e viu um veterano sombrio emergir das sombras de um pilar de mármore. O homem era alto, com um terno perfeitamente cortado e um olhar de escárnio puro em seus olhos escuros e profundos. Ele se aproximou de Gabriel, os olhos fixos, ignorando completamente Malik e James, que estavam em cada lado. Sua presença era como a de um predador, silenciosa e letal. Os outros convidados se afastavam discretamente, criando um vazio ao redor deles. Gabriel sentiu o cheiro de fumaça de charuto e menta. O veterano parou a centímetros de Gabriel, tão perto que ele podia sentir o hálito frio em seu ouvido. O sorriso do homem era um mero movimento dos lábios, sem calor, sem vida. Seus olhos, no entanto, eram intensos, carregados de um conhecimento antigo e perigoso. — Você acha que sabe onde se meteu, calouro? — Ele sussurrou, a voz rouca, quase um sopro, mas as palavras atingiram Gabriel com a força de um soco. — Você não sabe de nada sobre o verdadeiro preço deste lugar. Malik e James, alertados pela mudança abrupta na energia, pela forma como o veterano ignorou suas presenças, se viraram. Eles viram a proximidade perigosa, a ameaça implícita no sussurro. Uma fúria incontrolável surgiu em seus rostos. Eles avançaram, um de cada lado, prontos para proteger Gabriel a qualquer custo, mas o aviso ecoou como uma sentença mortal na mente de Gabriel. Ele não sabia, mas sentiria.

End of Chapter 25