Chapter 1 of 1
Capítulo 1: A Cidade na Quietação
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Tempo parou. Estilhaços de vidro congelaram no ar, como diamantes suspensos num véu invisível. Poeira fina, levantada do asfalto, formava nuvens silenciosas, cada grão uma estrela cadente em câmera lenta. Um arranha-céu desabava, mas cada pedaço de concreto e metal parecia desafiar a gravidade, preso num instante irreal de destruição. O Mundo 6767, um dos incontáveis fios na tapeçaria do multiverso, contorcia-se. Engolido por uma anomalia, por uma ferida aberta na realidade. As fendas espectrais, conhecidas como Brechas Cronos, rasgavam o tecido da existência, e esta era uma das piores. Um borrão vermelho, quase invisível, cruzou a paisagem imóvel. Thiego Flash. O nome ecoava em sua mente, uma promessa e uma maldição. Ele não via apenas o caos; ele o sentia. Cada partícula suspensa no tempo era uma agulha fria no peito, cada silêncio um grito mudo de desespero. Pulsações de medo batiam no ritmo de seu coração super-rápido, uma bateria incessante que raramente silenciava. Não era a velocidade que o exauria, mas a lembrança que cada Brecha trazia. Um passado que ele não podia superar. Um grito silencioso perfurou a quietude mortal. Não era audível, mas Thiego o sentiu, uma vibração desesperada no universo estático. Uma figura minúscula despencava do nonagésimo andar do arranha-céu em ruínas. Um braço estendido, uma boneca de pano escapando de seus dedos infantis. Era uma criança. Pequena. Completamente indefesa. O terror gelou suas veias, um pânico primordial que o impedia de respirar. "Não. Não de novo." Não podia falhar de novo. Seus pés, mais rápidos que a luz, impulsionaram-no para a frente. O ar crepitava com a energia cinética, um zumbido de poder que só ele percebia. Thiego era um raio escarlate, uma força imparável contra o tempo parado. Passou por carros flutuantes, por pessoas com expressões de pânico eternizadas em suas faces. Olhos arregalados, bocas abertas num grito que nunca chegou. Seus olhos, no entanto, estavam fixos na menina, descendo numa câmera lenta cósmica. Centímetros. Milímetros. A distância encolhia a cada fração de segundo que ele rasgava. A queda dela parecia infinita, mas para Thiego, era um piscar de olhos prolongado. Estendeu a mão. Sentiu o vento cortá-la, uma fricção fantasma, mesmo no tempo parado. Seus dedos envolveram o pequeno pulso da criança. Pele fria, mas inegavelmente viva. Puxou-a para perto, apertando-a contra o peito. A boneca, caída logo abaixo, ele a pegou também. Um pequeno consolo na calamidade que a envolvia. Respirou fundo. Um suspiro que o universo não ouviria, um alívio momentâneo que ele não merecia. A imagem daquela outra queda, de outro rosto, inundou sua mente, uma onda gelada de culpa. As rachaduras espectrais ao redor pulsavam com uma luz azul-esverdeada. Eram ecos do seu erro. O momento de hesitação. Um segundo, apenas um único, fatídico segundo. Custara tudo. Ele tremia, não de frio, mas de uma dor antiga, sempre presente, que nunca cicatrizava. A garotinha em seus braços era um lembrete vívido. Um milagre que ele não podia se permitir estragar. Apertou a menina mais forte. Precisava tirá-la dali. Rápido. O corpo da criança, surpreendentemente leve em seus braços, era um fardo precioso. Deslizou por entre os escombros parados, cada passo uma oração silenciosa, um mantra de determinação. Encontrou abrigo num túnel de serviço subterrâneo, longe dos olhos famintos do caos. Deposou-a gentilmente no chão frio. Seus olhos castanhos se abriram devagar, cheios de confusão e um medo que ainda não compreendia. "Você está segura," sussurrou, a voz rouca. Um sussurro de agradecimento escapou de seus lábios, quase inaudível. Ela não podia entender. Ninguém podia. Seu olhar retornou para a Brecha Cronos, para a fenda que ainda sangrava no céu acima. Ela deveria ter desaparecido. Normalmente, essas anomalias se retraíam após alguns minutos, desfazendo-se como fumaça. Mas esta não. Esta parecia viva. Pulsava. O ar rarefeito. Sentiu a pressão diminuir, como se o mundo inteiro prendesse a respiração ao seu redor. Pequenos detritos, antes imóveis, começaram a vibrar. Lentamente. Perceptivelmente. E então, começaram a ser sugados, atraídos para o centro da fenda. A cor da Brecha intensificou-se, mudando de um azul translúcido para um roxo ameaçador, quase escuro. Um som. Um lamento gutural que Thiego sentiu em seus ossos, não em seus ouvidos. Uma distorção da própria realidade. A gravidade pareceu inverter, puxando-o para cima, para o abismo em crescimento. A Brecha não se fechava. Ela se expandia. Se aprofundava, como um buraco sem fundo na tela do céu. Acima do nexo de energia central da cidade, o brilho ficou infernal. Uma nova fenda, maior, mais monstruosa que a anterior, rasgou o firmamento. Era um buraco negro de luz e escuridão, engolindo a própria esperança da cidade. Thiego mal pôde respirar, os olhos arregalados de horror, o coração batendo descontroladamente em seu peito. O que havia salvado era apenas uma gota no oceano de um desastre iminente.