Chapter 1 of 1

O Apocalipse

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ANO 2027 BRASIL O mundo não acabou em um único dia. Ele foi sendo destruído pouco a pouco. Primeiro vieram as guerras. Depois, as bombas. E então vieram coisas que a humanidade sequer deveria ter criado. --- CENA 1 — O COMEÇO DO FIM Uma televisão transmite imagens de diferentes partes do mundo. Cidades em conflito. Tanques avançando. Aviões militares cruzando o céu. Pessoas correndo pelas ruas. Jornalista: — A situação na Europa continua se agravando. Tropas russas avançaram sobre territórios europeus nas últimas semanas... A imagem muda. Outro canal. Outro país. Outra guerra. Jornalista: — Os Estados Unidos e seus aliados anunciaram uma resposta militar... A televisão começa a apresentar interferências. Jornalista: — Existe o temor de que... SHHHHHHHHH... A transmissão cai. A tela fica preta. Então... BOOOOOOM! Uma explosão ilumina o horizonte. --- CENA 2 — O MUNDO EM GUERRA O conflito se espalha. A guerra deixa de ser uma disputa por território. Ela se transforma em uma guerra mundial. Países lançam mísseis. Bombas nucleares são utilizadas. Ataques biológicos atingem regiões inteiras. Mas aquilo ainda não era o pior. Em instalações secretas espalhadas pelo mundo, cientistas começam a testar armas mutagênicas. O objetivo oficial? Criar seres capazes de sobreviver às novas condições do planeta. O objetivo real? Criar algo que pudesse sobreviver... e lutar. --- CENA 3 — BRASIL Em meio ao caos, algumas pessoas recebem uma oportunidade que milhões jamais teriam. Abrigos subterrâneos. Bunkers. No Brasil, eles praticamente não existiam. Mas alguns homens influentes, empresários, militares e cientistas haviam previsto que a situação poderia chegar àquele ponto. Eles financiaram projetos secretos. Não para salvar toda a população. Apenas alguns. Entre essas pessoas estava uma família comum. --- CENA 4 — AD RY SSON CANO Um homem de 27 anos segura a mão de seu filho. Ao lado dele está sua esposa. Carolina. E entre os dois... Oliver. Um garoto de apenas quatro anos. O menino olha para o enorme portão de metal diante deles. Oliver: — Pai... Adrysson olha para baixo. Adrysson: — Fala, campeão. Oliver: — A gente vai voltar pra casa? Adrysson fica em silêncio por alguns segundos. Ele olha para Carolina. Ela também está assustada. Mas tenta esconder. Adrysson: — Vai. Oliver sorri. Oliver: — Promete? Adrysson se abaixa. Adrysson: — Prometo. Carolina olha para o marido. Carolina: — Você tem certeza disso? Adrysson olha para o gigantesco bunker. Adrysson: — Não. Carolina ergue uma sobrancelha. Carolina: — Ótimo. Muito tranquilizador. Adrysson solta uma pequena risada. Adrysson: — Mas ficar aqui fora também não parece exatamente uma boa opção. Carolina respira fundo. Ela segura Oliver com mais força. Carolina: — Então vamos. --- CENA 5 — O BUNKER O enorme portão se fecha atrás deles. CLANG! Outro. CLANG! E outro. A família é conduzida para uma área subterrânea. Um cientista explica: — O procedimento é simples. Vocês serão colocados em cápsulas criogênicas. Adrysson olha para a cápsula. Adrysson: — E quanto tempo? O cientista hesita. — Até a guerra terminar. Carolina percebe a hesitação. Carolina: — Quanto tempo? O cientista responde: — Talvez alguns anos. Adrysson olha para Oliver. O garoto já está quase dormindo no colo da mãe. Adrysson toma sua decisão. Adrysson: — Tudo bem. --- CENA 6 — A VERDADE As portas das cápsulas começam a fechar. Adrysson olha para Carolina. Depois para Oliver. Adrysson: — Quando isso acabar... Carolina interrompe: — A gente vai sair junto. Adrysson sorri. Adrysson: — Junto. As cápsulas são seladas. O líquido criogênico começa a preencher os compartimentos. Oliver fecha os olhos. Carolina fecha os olhos. Adrysson permanece olhando para sua família. Sua visão começa a ficar turva. E então... Adrysson: — Meu nome é Adrysson Cano... A imagem começa a desaparecer. — ...e até onde eu consigo lembrar... A voz fica distante. — ...eu, minha esposa e meu filho fomos escolhidos para entrar em um bunker. Escuridão. — Disseram que iríamos dormir até a guerra acabar. Silêncio. — Isso é tudo que eu lembro. Uma última imagem. A mão de Adrysson tentando alcançar a de Oliver através do vidro da cápsula. E então... ESCURO. --- CENA 7 — A GUERRA O mundo que Adrysson conhecia desaparece. Os ataques continuam. Bombas nucleares atingem cidades. Armas biológicas contaminam regiões inteiras. E os experimentos continuam dentro dos bunkers. Os cientistas não despertam os pacientes. Eles simplesmente observam. Aplicam substâncias. Registram batimentos cardíacos. Esperam. Se o coração para... o experimento falhou. Se continua... o paciente recebe outra dose. Centenas morrem. Depois centenas. Depois milhares. Os sobreviventes começam a mudar. Mas os cientistas não percebem a verdadeira dimensão dessas mudanças. Eles acreditam estar criando pessoas capazes de sobreviver ao novo mundo. Na realidade... estavam criando algo completamente diferente. --- 140 ANOS DEPOIS ANO 2167 O planeta está irreconhecível. Florestas tomaram cidades. Estruturas humanas foram engolidas pela natureza. Animais desapareceram. Outros mudaram. Novas espécies surgiram. Criaturas que jamais existiram no mundo antigo agora caminham pela Terra. E entre os poucos humanos que restaram... alguns já não são exatamente humanos. --- CENA 8 — OS BUNKERS Mais de 10.000 bunkers foram construídos ao redor do planeta. A maioria desapareceu. Alguns foram destruídos durante a guerra. Outros foram enterrados. Outros simplesmente ficaram sem energia. Apenas cerca de 20 instalações permanecem conhecidas como sobreviventes. Dois deles eram centros de pesquisa. Um na Rússia. Outro no Brasil. O bunker brasileiro foi o único centro de pesquisa da América do Sul a permanecer intacto. Também existem outros bunkers sobreviventes espalhados pelo mundo: 1 — Estados Unidos 1 — China 1 — Japão 1 — Senegal E outros espalhados pela Europa. Mas ninguém sabe quantas pessoas sobreviveram dentro deles. Nem o que aconteceu com aqueles que despertaram. --- CENA 9 — O BUNKER BRASILEIRO Silêncio. Nenhum cientista. Nenhuma voz. Nenhuma luz. A instalação está abandonada. Os cientistas morreram há décadas. Mas antes de morrer, um deles fez algo que ninguém mais sabia. Ele alterou secretamente o sistema. As cápsulas seriam abertas automaticamente um ano antes de sua energia acabar. Uma última chance. Uma última esperança. --- SALA DE CRIOGENIA Tudo permanece congelado. Dezenas de cápsulas. Algumas vazias. Outras quebradas. Muitas apagadas. E então... BIP. Uma luz vermelha pisca. BIP. Outra. O sistema começa a reiniciar. SISTEMA: «Energia crítica.» Silêncio. Uma cápsula começa a emitir vapor. Dentro dela... um homem. Adrysson. Seus olhos se movem. Seus dedos tremem. Então... PSHHHHHH! A cápsula se abre. Adrysson cai de joelhos. Ele tenta respirar. Adrysson: — Haa... Ele olha ao redor. Não reconhece nada. Leva a mão à cabeça. Adrysson: — Onde... Ele olha para a própria mão. Seus músculos parecem diferentes. Seu corpo parece mais pesado. Mais forte. Mas ele ainda não entende. Então ouve uma voz. Carolina: — Adrysson?! Ele se vira. Outra cápsula se abriu. Carolina está caída no chão. Adrysson corre até ela. Adrysson: — Carolina! Ele a ajuda a levantar. Ela olha para ele. Por alguns segundos... nenhum dos dois fala. Então Carolina olha para outra cápsula. Carolina: — Oliver... Adrysson se vira. A terceira cápsula permanece fechada. Adrysson: — Oliver! Ele corre. Bate no vidro. Adrysson: — Filho! Nada. Carolina começa a entrar em pânico. Carolina: — Abre isso! Adrysson procura algum botão. Adrysson: — Eu tô tentando! Carolina: — Então tenta mais rápido! Adrysson: — EU TÔ TENTANDO! Ele encontra um painel. Aperta. Nada. Ele bate no equipamento. Adrysson: — Anda! Carolina coloca as mãos no vidro. Carolina: — Filho... Então... BIP. A cápsula começa a funcionar. O vidro fica coberto por vapor. Adrysson e Carolina recuam. PSHHHHHH! A porta abre. Oliver cai para frente. Adrysson o segura. O garoto tosse. Respira. E então abre os olhos. Oliver: — ...papai? Adrysson o abraça imediatamente. Carolina abraça os dois. Por alguns segundos... o mundo deixa de existir. Só existe aquela família. Juntos novamente. --- CENA 10 — ALGO ESTÁ ERRADO Oliver se afasta dos pais. Olha para as próprias mãos. Oliver: — Mãe... Carolina se aproxima. Carolina: — O que foi? Oliver: — Eu tô estranho. Adrysson olha para o próprio braço. Ele também sente. Algo mudou. Carolina percebe. Carolina: — Vocês estão sentindo? Adrysson fecha a mão. Os músculos respondem de maneira diferente. Adrysson: — Tô. Oliver olha para o pai. Oliver: — Pai... Adrysson: — Oi? Oliver: — A gente dormiu quanto tempo? Adrysson olha para a sala. Nenhum deles sabe responder. Carolina encontra uma placa antiga. A data está praticamente apagada. Ela limpa a poeira. Seus olhos arregalam. Carolina: — Adrysson... Ele olha. A data. 2167. Adrysson fica imóvel. Adrysson: — Não... Carolina começa a compreender. Carolina: — Isso não pode estar certo. Adrysson olha novamente. Adrysson: — A guerra... Ele para. Sua expressão muda. Adrysson: — Ela acabou? Nenhuma resposta. Só o som distante dos equipamentos. Então uma tela antiga se acende. BIP. Os três olham. A tela pisca. Linhas de dados aparecem. --- CENA FINAL COMPUTADOR: «PACIENTES INICIAIS: 1.200» Pausa. «PACIENTES SOBREVIVENTES: 20...» A tela apresenta falhas. «CAUSA DA MORTE: VÁRI...» «INEFIC...» A imagem começa a distorcer. «//// ERRO ////» O computador tenta recuperar os dados. BIP... «SEM MAIS DADOS...» Outra sequência aparece. «AD RY SSON CANO PAI DE OLIVER MARIDO DE CAROLINA IDADE REGISTRADA: 27 ANOS» A tela pisca. «CAROLINA CANO MULHER ADULTA IDADE REGISTRADA: 28 ANOS» Mais uma linha. «OLIVER CANO SEXO: MASCULINO IDADE REGISTRADA: 4 ANOS» A tela começa a apresentar caracteres desconhecidos. «CATA....» «BEN....» «//// ERRO ////» A imagem congela. CORTE PARA O PRETO. FIM DO EPISÓDIO 1.

End of Chapter 1