Chapter 1 of 1
A Fria Premonição
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Frio subiu pela nuca de Elara. Não era o ar-condicionado excessivo do supermercado, nem o vento gélido da porta automática que se abria e fechava. Era *a* frieza. Aquela que vivia dentro dela, uma constante corrente subterrânea que fazia seu corpo miúdo vibrar de um jeito que ninguém mais parecia sentir.Observava o mundo através de um filtro que poucos compreendiam. Rostos passavam, borrões coloridos, cada um carregando seu próprio emaranhado de emoções invisíveis, cores difusas que Elara sentia como um toque gelado na pele. Alguns eram quentes e acolhedores, outros afiados como cacos de vidro. A maioria era apenas morna, indiferente.Mãe, com seu carrinho ranger e lista na mão, negociava pacientemente o labirinto de corredores. Seus cabelos castanhos caíam sobre os olhos enquanto ela comparava dois tipos de arroz. Elara estava sentada no assento infantil do carrinho, as pernas balançando sem alcançar o chão, um pirulito esquecido na mão.O doce sabor de morango mal registrava. Seus olhos, grandes e de um azul quase etéreo, varriam as prateleiras, absorvendo tudo. Elara via além das embalagens brilhantes. Via as pressas, as preocupações, os pequenos aborrecimentos que cada adulto trazia consigo. Era um fardo, às vezes, essa visão.Queria apenas ser uma criança normal, sem a frieza. Queria correr e rir sem que as emoções dos outros a atingissem como ondas. Mas a frieza era parte dela, inseparável. E, hoje, ela parecia mais forte. Um presságio.De repente, a corrente gélida se intensificou, um choque elétrico que percorreu sua espinha. Seus olhos se cravaram no corredor de laticínios, a alguns metros de distância.Ali estava Lila.Sua melhor amiga, com o cabelo loiro preso em duas tranças impecáveis, estava perto de uma pilha de iogurtes, rindo de algo. E ao lado dela, um homem. Um homem alto, de ombros largos e cabelos escuros, com uma risada que preenchia o espaço ao redor de Lila de uma forma que Elara nunca tinha visto.Ele não era um borrão. Ele irradiava uma energia estranha, uma espécie de eco familiar que fez a frieza dentro de Elara pulsar com uma força violenta.Seu coração disparou, batendo contra suas costelas como um tambor frenético. O pirulito caiu da sua mão, ricocheteando no chão e rolando para debaixo de uma prateleira."Não pode ser!", o pensamento irrompeu na mente de Elara, tão forte que ela quase o disse em voz alta.Uma onda gelada, mais intensa do que nunca, envolveu-a. Não era apenas a percepção de emoções. Era como se fios invisíveis, frios e brilhantes, estivessem se estendendo do homem até sua mãe, que ainda estava de costas, alheia, absorta na escolha do arroz.A frieza desenhava um mapa, uma linha tênue, mas inegável, ligando-os.Era perturbador. Era assustador. Um medo primário, ancestral, começou a se formar no fundo do seu estômago. Não conseguia nomeá-lo, mas sentia sua presença, pesada e inevitável."O destino colocou vocês diante de mim justamente hoje!", desta vez, Elara sussurrou as palavras, quase inaudíveis, para si mesma. Sua pequena mão apertou o tecido da sua camiseta sobre o peito, como se pudesse conter a tempestade que se formava.Mãe, finalmente satisfeita com sua escolha, virou o carrinho. Elara sentiu seu corpo enrijecer, os músculos travados. Seus olhos não se desviaram de Lila e do homem. O homem desconhecido agora a olhava. Ele tinha um sorriso amável nos lábios enquanto escutava Lila tagarelar.A frieza em Elara era um alarme, um sino de bronze que tocava incessantemente dentro dela. Ela não podia ignorá-lo. Não quando a ligação era tão clara, tão palpável. Parecia uma verdade escondida, agora exposta sob a luz fria dos fluorescentes do supermercado.Puxou a barra da blusa da mãe. "Mãe...", sua voz saiu um fiapo, mal audível sobre o burburinho de outras vozes e o arrastar dos carrinhos."Sim, querida? O que foi?", perguntou sua mãe, sem se virar completamente. Sua atenção ainda estava dividida entre Elara e a lista de compras."Lila...", Elara apontou, o dedo tremendo ligeiramente.Sua mãe seguiu o olhar de Elara, e o canto de seus lábios se curvou em um pequeno sorriso. "Ah, Lila! Que bom vê-la. Vamos dizer oi."O carrinho começou a se mover na direção do corredor de laticínios. Cada giro das rodas era um batimento do coração de Elara, acelerado, dolorido. A frieza subia por sua garganta, quase sufocando-a.Os fios invisíveis, antes apenas uma percepção, agora pareciam vibrar, tensos, prestes a se romper ou a se unir de forma permanente.Lila, percebendo a aproximação, acenou com entusiasmo. "Elara! Oi!"O homem ao lado de Lila olhou para a mãe de Elara. Seus olhos se encontraram por um breve segundo antes que ele desviasse o olhar, um gesto quase imperceptível. Mas Elara viu. Ela sentiu a mudança na energia, o breve congelamento do ar ao redor deles.Continuaram avançando. A mãe de Elara parecia despreocupada, um sorriso gentil no rosto. Ela notou o homem, claro, mas não com a mesma intensidade que Elara. Não sentiu o peso da frieza."Lila, querida! Como você está?", a mãe de Elara disse, sua voz quente e suave.Lila pulou, animada. "Eu estou bem! Esse é meu pai!" Ela gesticulou para o homem alto.Um arrepio percorreu Elara. A frieza a estava dominando, cegando-a para o resto do mundo. Apenas o homem e sua mãe existiam agora, envoltos naquela teia invisível.O pai de Lila deu um passo à frente, um sorriso educado, mas ligeiramente tenso, nos lábios. "Olá, sou Marcos. Prazer em conhecê-la."Sua voz era profunda, mas carregava uma nota que Elara não conseguia identificar – algo como um trovão distante, um tremor oculto."Olá, Marcos. Sou Sofia. Prazer é meu", respondeu a mãe de Elara, estendendo a mão. Sua voz, no entanto, continha uma sutileza que Elara percebeu. Um silêncio súbito e esmagador caiu sobre o corredor.A frieza de Elara se transformou em uma dor aguda, um alerta máximo. Seus olhos fixaram-se nos dois adultos. Ela notou a forma como a mão de sua mãe hesitou antes de apertar a do homem. Notou a forma como o sorriso de Marcos vacilou, como se uma máscara estivesse prestes a cair.As cores ao redor deles, que a frieza de Elara normalmente mostrava como tons de emoções, agora estavam turvas, escuras. Uma névoa densa.Sua mãe puxou a mão de volta, o movimento quase imperceptível. Marcos, por sua vez, empalideceu. O sangue pareceu sumir de seu rosto, deixando-o com uma tez cinzenta. Seus olhos, antes focados na mão de Sofia, subiram lentamente para o rosto dela.Lila continuava a tagarelar sobre um novo desenho que havia feito, completamente alheia à estranha tensão que preenchia o espaço entre os adultos. Elara, porém, sentia cada milímetro daquela tensão, cada batida silenciosa de um segredo prestes a emergir.O corpo de Marcos enrijeceu. Seus olhos se arregalaram levemente, não de surpresa, mas de algo mais profundo, mais antigo. Ele parecia ter visto um fantasma.A mãe de Elara, Sofia, manteve a compostura, mas Elara notou o tremor quase invisível em sua mão que segurava o carrinho. O ar ao redor deles se tornou denso, pesado, como se a própria atmosfera estivesse prendendo a respiração.Elara apertou ainda mais a camiseta. O medo primário que sentira antes agora tinha um nome, embora ela ainda não o soubesse: revelação.Marcos abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu. A frieza em Elara era um redemoinho gelado, girando e girando, puxando-a para o centro de algo vasto e desconhecido.Lila, finalmente notando o silêncio que havia caído sobre os adultos, parou de falar, sua testa franzida em confusão. Ela olhou de seu pai para a mãe de Elara, e depois para Elara, que estava mais pálida que o normal.A respiração de Marcos era superficial. Ele parecia ter sido atingido por uma força invisível, toda a cor escoando de seu rosto, de seus olhos. Ele não estava apenas surpreso; ele estava chocado, talvez até horrorizado.Seus lábios se moveram novamente, lentamente. Um sussurro, mais um sopro do que uma palavra, mal audível acima do zumbido das geladeiras do supermercado.Quando o homem, o pai de Lila, finalmente ergueu os olhos e encontrou o olhar da mãe de Elara, um silêncio pesado cai sobre o corredor, e um sussurro quase inaudível escapa dos lábios dele: "Você... está viva?"