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Chapter 33: As Paredes de Seda

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Aira contou as rachaduras no teto. Vinte e três. Era um teto alto, pintado de um branco sujo que descascava em flocos finos, revelando gesso mais escuro por baixo. A luz pálida entrava por uma única janela alta, barrada por grades de ferro forjado que faziam padrões de teia de aranha contra o céu cinzento. Não era uma cela no sentido brutal da palavra. O quarto era espaçoso, mobiliado com uma cama de dossel com cortinas de seda desbotada, uma cômoda de madeira escura e uma poltrona estofada que cheirava a mofo. Havia até um tapete persa no chão, embora os fios estivessem gastos quase até a base. Era uma prisão decorada. Uma gaiola dourada, ou talvez apenas de latão. Adrian Valcrest não a jogaria em uma masmorra, não diretamente. Não ainda. Mas a sensação de confinamento era sufocante, mais até do que a visão das barras. Era a quietude que a atingia, o silêncio que se estendia para além das paredes. Não havia ruídos de criados correndo, nem o burburinho distante da vida do palácio. Este canto era isolado, quase esquecido. Ela fechou os olhos, concentrando-se. A mana, sempre um rio em seu interior, parecia estranhamente contida, como se o próprio ar do quarto fosse um filtro opaco. Ela tentou projetar sua consciência mágica, um feixe delicado para sentir as linhas de energia que corriam pelo palácio. Nada. O queixo dela se apertou. Ou a magia era suprimida ali, ou seus captores eram muito mais astutos do que ela esperava, criando uma barreira que ela não conseguia penetrar. O que tinha acontecido? As memórias da noite anterior eram um borrão de vozes alteradas, a face severa de seu pai, a ansiedade velada nos olhos de sua mãe, Celestia. Ela se lembrava de um decreto, uma acusação de imprudência. Algo sobre sua “conduta inadequada” e a “segurança da linhagem”. Ela não havia feito nada de errado. Apenas estava curiosa, explorando os limites de sua própria existência, do próprio mundo. Tentar replicar um feitiço complexo sem supervisão, sim, isso era imprudente para um adulto. Mas para uma criança que mal falava? Era uma desculpa. Um pretexto. Seus dedos tamborilavam na madeira fria da janela. Havia um propósito maior por trás disso. Se Adrian a queria fora de circulação, era porque ela representava um risco. Mas qual risco? Seus olhos azuis-elétricos, talvez. O poder que ela sentia começar a se manifestar. Ou algo que ela nem sequer imaginava? Uma chave girou na fechadura. O som, alto no silêncio, a fez enrijecer. Ela girou na poltrona, os olhos fixos na porta enquanto ela se abria devagar. Uma figura se materializou na soleira, não um guarda corpulento, mas uma criada de idade indefinida, com cabelos grisalhos puxados para trás e um avental limpo. Nas mãos da criada, uma bandeja de prata com uma xícara de chá fumegante e uma fatia de bolo. A criada não olhou para Aira. Seus olhos varreram o quarto como se procurassem por algo perdido, fixando-se em um ponto na parede atrás de Aira antes de se mover novamente. “A senhora precisa comer”, a voz da mulher era monótona, desprovida de emoção. Ela colocou a bandeja na pequena mesa de centro, evitando qualquer contato visual. Aira observou cada movimento, cada tremor quase imperceptível nas mãos envelhecidas. Não era medo, não exatamente. Era algo mais profundo, mais arraigado. “Por que estou aqui?”, Aira perguntou, sua voz infantil, mas com uma clareza que traía sua idade. A criada parou, a mão pairando sobre a xícara como se fosse quebradiça. Um músculo no canto do olho dela tremeluziu. “Ordens do Duque”, ela respondeu, a voz ainda plana. “Pela sua própria segurança, senhorita. E a do palácio.” Aira inclinou a cabeça. “Minha segurança? Ou a do Duque? Não estou em perigo aqui, estou?” A criada finalmente olhou para ela, por um breve segundo. Nos olhos castanhos, Aira viu uma sombra, um aviso não verbal. Então, a mulher desviou o olhar novamente, voltando para a porta. “Não há perigo onde não há perguntas, senhorita”, ela disse, e a porta se fechou com um clique que ecoou na câmara. Aira ficou sozinha novamente, com o cheiro adocicado do chá e a amarga verdade de que ela estava mais presa do que imaginava. --- O chá estava frio quando Aira finalmente o tocou. O bolo, de um limão suave, permaneceu intocado. Ela não tinha apetite para doces, apenas para respostas. A frase da criada, “Não há perigo onde não há perguntas”, girava em sua mente como uma mosca presa em uma teia. Significava que as perguntas que ela fazia eram o perigo? Ou que o perigo viria se ela começasse a questionar as coisas erradas? Aira se levantou da poltrona, seus pés descalços tocando o tapete gasto. Ela caminhou até a janela, passando a mão pelas barras frias. Lá fora, o jardim do palácio se estendia, um emaranhado de rosas e arbustos perfeitamente aparados. Ela podia ver a estátua de um grifo no centro, sua pose majestosa desafiando a melancolia do dia. Ninguém nos jardins. Nenhuma alma perambulando, como se o palácio inteiro estivesse em um sono induzido. Ela empurrou a janela. Estava trancada por dentro, com uma trava de ferro pesado, além das grades externas. Não haveria fuga fácil. Aira se afastou, os olhos percorrendo o quarto novamente. Se a magia estava suprimida, ela teria que confiar em sua inteligência e nos sentidos básicos. Ela começou a explorar, tocando as paredes. A madeira do painel, a tapeçaria desbotada, o gesso. Nada parecia fora do lugar. Ela se ajoelhou e passou a mão sob a cama de dossel. Pó e mais pó. Nenhum compartimento secreto, nenhuma passagem escondida. Ela abriu a cômoda. Roupas infantis, todas de seda fina, mas simples, sem os adornos que ela estava acostumada a usar. Não havia brinquedos, nenhum livro. Apenas roupas. Era um quarto para alguém que deveria estar em estase, sem estímulos, sem meios de passar o tempo além da própria mente. Mas sua mente era seu maior trunfo, e eles não poderiam aprisioná-la. Ela voltou-se para a porta. Se as barras da janela eram robustas e a magia parecia suprimida, a porta era o único ponto de entrada e saída. Ela se aproximou, sua pequena mão tocando a madeira. Um carvalho pesado, envernizado. Ela se abaixou, tentando olhar pelo buraco da fechadura. Estava bloqueado, provavelmente com uma peça de metal por dentro. Mas ao se inclinar, ela percebeu um detalhe. Um arranhão sutil na madeira, perto da base da porta, quase imperceptível, como se algo tivesse sido arrastado ali repetidamente. Não era um arranhão de uso comum. Parecia… deliberado. Uma marca, talvez. Ou uma rota de fuga de alguém que tentara. Ela passou o dedo pelo arranhão, sentindo as fibras da madeira levantadas. Era uma linha reta, como se tivesse sido feita por uma ferramenta afiada, ou uma unha forte. Aira se ajoelhou, o rosto a centímetros do chão, e aprofundou sua observação. O arranhão seguia por alguns centímetros, depois desaparecia sob o batente da porta. Um pensamento acendeu em sua mente. E se não fosse um arranhão acidental? E se fosse uma mensagem? Ou um mapa? Ela se afastou da porta, sua mente fervilhando. Eles poderiam prender seu corpo, mas não sua capacidade de raciocínio. A resposta estava ali, escondida à vista. Ela só precisava saber como ler. --- Os próximos dias se arrastaram, indistinguíveis uns dos outros. A mesma criada trazia as refeições, nunca dizendo mais do que o estritamente necessário. Aira tentou conversar com ela, fazer perguntas mais diretas sobre o palácio, sobre seu pai. A criada apenas balançava a cabeça, seus olhos vazios, como se as palavras de Aira nem a alcançassem. “A senhora precisa ter paciência, senhorita”, foi a resposta mais longa que ela conseguiu. “Seu pai sabe o que é melhor.” Essa frase, dita com uma convicção tão inabalável, a irritava. Adrian Valcrest sabia o que era melhor para Adrian Valcrest, não para Aira. Ela tinha suas próprias ambições, suas próprias perguntas. Ela passou as horas restantes estudando o quarto, como um detetive examinando uma cena de crime. Cada rachadura no teto, cada padrão no tapete, o tecido desbotado das cortinas de seda. Ela notou que o tecido das cortinas era mais fino do que o esperado para uma peça de seda tão grande. Quase translúcido em certos pontos. E a cor, um azul celeste que outrora fora vibrante, agora era apenas um eco pálido. Ela se aproximou de uma das cortinas do dossel e puxou. O tecido rasgou com uma facilidade alarmante. Não era seda. Ou, se era, era da pior qualidade, ou estava incrivelmente velha. Ela esfregou um pedaço entre os dedos. Não era durável, nem forte. Era um material frágil, feito para parecer algo que não era. Uma fachada. Assim como sua prisão. Parecia luxuosa, mas era frágil em sua essência. Isso a fez pensar no arranhão na porta novamente. Ela voltou à porta, ajoelhando-se. O arranhão era uma linha solitária, mas a madeira ao redor tinha uma textura sutilmente diferente, quase como se tivesse sido limpa ou polida de forma desigual. Ela pegou um dos pedaços de seda rasgada da cortina. Era quase do tamanho de um lenço pequeno. Cuidadosamente, ela umedeceu a ponta com um pouco de água da jarra que a criada deixava, e começou a esfregar a área ao redor do arranhão. Demorou um pouco, o pano escurecendo com a sujeira e a poeira acumulada. Mas, gradualmente, uma linha mais escura começou a aparecer. Não era um arranhão. Era uma ranhura, uma incisão profunda na madeira, preenchida com algo que parecia poeira ou um pigmento escuro. E não era apenas uma linha. Ao lado dela, quase invisível a olho nu, havia outra, e outra, formando um padrão irregular. Pontos e traços, um alfabeto rudimentar, gravado na madeira. Alguém tinha se comunicado ali, escondido à vista. Ela passou horas, esfregando e observando, usando o pano úmido para revelar as marcas ocultas. Seus pequenos dedos traçavam as incisões, sentindo a profundidade de cada uma. Era um código, ela tinha certeza. Um código deixado por outro prisioneiro, talvez, ou por alguém que queria se comunicar com ela. O padrão começou a se formar em sua mente. Pontos e traços. Como um código Morse, mas mais simples, mais primal. Ela começou a decifrar, a associar os símbolos a letras básicas, testando cada combinação possível. O tempo passou, e a luz da janela diminuiu, mas Aira não parou. Seus olhos ardiam, mas sua mente estava em chamas. Havia uma mensagem. Havia uma esperança. Ela decifrou a primeira palavra. “FUGA”. Seu coração bateu mais forte, um tambor na quietude do quarto. Ela continuou, a emoção queimando em seu peito. A próxima sequência de pontos e traços começou a se revelar, e com ela, uma palavra que fez o ar em seus pulmões congelar. Não era uma instrução. Era um nome. Um nome que ela nunca esperaria encontrar ali, um nome que significava tanto e ao mesmo tempo nada, em seu contexto atual, mas que trazia um calafrio gélido à sua espinha. O nome que se formava lentamente na madeira era: “RUDRA”.

End of Chapter 33

Chapter 33: Chapter 33: As Paredes de Seda - Mushoku Tensei: Aira Valcrest | Novel AI Studio