Chapter 1 of 1
Capítulo 1: A Cicatriz Negra
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Gotas de chuva ácida colidiam contra o asfalto rachado de Shinjuku, misturando-se com o óleo diesel e a sujeira acumulada de uma Tóquio que há muito esquecera o significado de segurança. Kenji encolheu os ombros dentro de seu casaco velho, sentindo o vento úmido trespassar o tecido desgastado e morder sua pele com fúria.
Ryo caminhava um pouco mais à frente, chutando uma lata amassada de refrigerante que produzia um eco metálico e irritante entre os prédios cinzentos do beco. O reflexo dos painéis de neon holográficos da avenida principal mal conseguia lutar contra a escuridão densa daquela ruela esquecida.
Silêncio pesado começou a se instalar ao redor deles, sufocando o barulho distante do tráfego urbano e as buzinas dos carros flutuantes. Ninguém em sã consciência usava os atalhos do submundo depois das dez da noite, mas a pressa para evitar o toque de recolher imposto pela Ordem falara mais alto.
'Acha que os patrulheiros estão vigiando este setor hoje?' Ryo perguntou, a voz oscilando levemente enquanto olhava por cima do ombro, os olhos arregalados revelando o nervosismo que tentava mascarar com um sorriso forçado.
Apertando os punhos dentro dos bolsos, Kenji balançou a cabeça negativamente, sentindo um desconforto familiar crescer na boca do estômago. Aqueles soldados de armadura dourada e Haku purificado só se importavam com as zonas residenciais da elite, deixando os distritos periféricos entregues à própria sorte.
Ruídos estranhos começaram a reverberar de alguma fresta escura acima de suas cabeças, parecidos com garras afiadas arranhando chapas de metal enferrujado. Kenji parou de chofre, os olhos fixos nas sombras densas que cobriam as escadas de incêndio do edifício abandonado à esquerda.
'Ryo, pare agora,' sussurrou, estendendo o braço esquerdo para bloquear o caminho do amigo, os sentidos totalmente alertas. 'Tem algo muito errado aqui. Sinta o ar.'
Temperatura despencou de forma abrupta, caindo dezenas de graus em uma fração de segundo. O vapor quente que saía de suas bocas ao respirarem congelou instantaneamente, transformando-se em pequenas agulhas de gelo que caíam no chão úmido.
Dentes de Ryo começaram a bater ruidosamente, a pele de seu rosto tornando-se pálida como a de um cadáver recém-enterrado. Ele tentou recuar, mas seus pés pareciam colados ao pavimento, como se a própria gravidade estivesse agindo de forma anômala naquele ponto exato.
'Kenji... minhas pernas não respondem,' Ryo gaguejou, o pânico absoluto distorcendo suas feições enquanto apontava para o chão com dedos trêmulos.
Olhando para baixo, Kenji sentiu o próprio coração falhar uma batida ao perceber que a sombra de Ryo havia se desprendido do asfalto. Ela se erguia como uma massa tridimensional de líquido escuro, subindo pelos tornozelos do garoto e prendendo-o em um abraço viscoso.
Paredes de tijolos do beco começaram a vibrar com uma frequência inaudível que fez os ouvidos de Kenji latejarem de dor imediata. Ele levou as mãos à cabeça, sentindo um filete morno de sangue escorrer por seus canais auditivos, manchando seus dedos.
Luzes de neon da avenida distante piscaram freneticamente antes de se apagarem por completo, deixando-os imersos em uma escuridão quase total. Apenas a névoa que subia do chão emitia uma luminescência doentia, um brilho arroxeado que parecia drenar a vida de tudo o que tocava.
'Corra, Kenji! Esquece a patrulha, apenas corra!' Ryo gritou, a voz cheia de desespero enquanto a sombra líquida subia por suas coxas, rasgando o tecido da calça com uma força invisível.
Força alguma faria Kenji abandonar seu único amigo, o único que não o julgara quando ele fora deixado sozinho no mundo após o desaparecimento de seus pais. Kenji deu um passo à frente, ignorando o frio que parecia queimar seus pulmões a cada respiração desesperada.
Segurando os braços de Ryo com toda a força que possuía em seu corpo de dezessete anos, Kenji tentou puxá-lo para fora daquela armadilha de escuridão. Seus dedos escorregavam pela pele gélida do amigo, que já parecia perder a consistência sólida sob o toque.
Gritos de agonia de Ryo cortaram a noite quando o ar no centro do beco se rasgou verticalmente, revelando uma fenda que brilhava com um vazio absoluto. Aquilo era um Véu secundário, uma ruptura na realidade que não deveria existir ali, longe das zonas de contenção da Ordem.
Mentiras corporativas e propaganda governamental sempre afirmaram que as rupturas eram previsíveis, mas a realidade diante de Kenji era caótica e implacável. O vácuo gerado pela fenda começou a exercer uma atração gravitacional violenta, sugando detritos, lixo e o próprio oxigênio do ambiente.
'Eu não vou soltar você!' Kenji berrou, os olhos ardendo pelas lágrimas que congelavam instantaneamente em suas bochechas. 'Aguenta firme, Ryo!'
Mãos de Ryo já não pareciam mais humanas, a carne tornando-se translúcida e acinzentada, revelando veias que brilhavam com uma energia escura e corrompida. O garoto olhou para Kenji com um misto de gratidão e terror absoluto, sabendo que ambos seriam arrastados se continuassem juntos.
'Solta... por favor, Kenji, você tem que viver,' Ryo sussurrou, a voz enfraquecendo à medida que a escuridão líquida alcançava seu peito, consumindo sua matéria física.
Repentinamente, uma onda de choque de pura energia negativa explodiu do centro da fenda, lançando Kenji violentamente para trás. Ele colidiu contra a parede de concreto oposta, o impacto roubando todo o ar de seus pulmões e fazendo sua visão turvar.
Desespero absoluto tomou conta de seu ser enquanto ele tentava se levantar, apoiando-se nas mãos machucadas e arranhadas pelo asfalto áspero. Seus olhos focaram na fenda, onde a escuridão estava prestes a engolir Ryo por completo em uma explosão de sombras violentas.
Sons dilacerantes de seu amigo cessaram de forma abrupta, substituídos pelo barulho aterrorizante de carne e osso sendo desintegrados pelo poder do Véu. Kenji estendeu a mão em uma tentativa inútil de alcançar o vazio, sua lealdade cega empurrando-o além dos limites de sua própria segurança.
Nada restou no centro da ruptura além de uma névoa negra que girava de forma caótica, consumindo os últimos vestígios da existência de Ryo. A perda do amigo abriu um vazio imensurável no peito de Kenji, uma dor psicológica que superava qualquer sofrimento físico que já conhecera.
Sentindo uma queimação insuportável começar na palma de sua mão direita, Kenji soltou um grito de dor que ecoou pelas paredes do beco silencioso. Ele segurou o próprio pulso com a mão esquerda, caindo de joelhos no chão úmido enquanto seu corpo inteiro espasmava.
Veias de seu braço direito saltaram sob a pele, brilhando com um tom negro e pulsante que parecia bombear veneno diretamente para seu coração. Não era o Haku dourado ou azulado dos Anômalos que ele vira na televisão; era algo infinitamente mais sombrio e denso.
Marcas geométricas e caóticas começaram a se desenhar em sua pele, queimando a epiderme como se fossem esculpidas por uma lâmina invisível embebida em ácido. A dor era tão intensa que Kenji mordeu o próprio lábio até sangrar, tentando não perder a consciência.
Aquilo era o Haku Negro, a energia proibida que as lendas urbanas associavam aos Momukais, os demônios que causaram o primeiro Véu há cento e cinquenta anos. O pavor gélido que se instalou em seu peito foi pior do que a dor física, pois ele sabia exatamente o que o mundo fazia com os de sua espécie.
Caçados como animais pela Ordem do Véu, os portadores dessa energia não tinham direito a julgamento ou misericórdia; eram simplesmente eliminados da existência. Kenji olhou para a própria mão, vendo a marca pulsar com uma luz negra que parecia zombar de sua humanidade.
'Não... eu não sou um deles... eu não posso ser...' Kenji soluçou, esfregando a palma da mão contra o asfalto em uma tentativa desesperada de arrancar a pele marcada.
Sangue misturado com a energia negra começou a escorrer pelo chão, mas a marca permaneceu intacta, brilhando ainda mais forte contra a escuridão do beco. A energia parecia se alimentar de seu desespero, fortalecendo-se a cada batida descompassada de seu coração acelerado.
Sons de passos pesados e o bater de armaduras metálicas começaram a ecoar na entrada do beco, indicando que os patrulheiros da Ordem haviam detectado a anomalia. Kenji sabia que se fosse pego ali, com aquela marca brilhando em sua mão, sua vida estaria acabada antes mesmo de começar.
Forçando seu corpo debilitado a se mover, ele se arrastou para trás das caçambas de lixo transbordantes, tentando ocultar a luz negra que emanava de sua palma. Cada movimento parecia rasgar seus músculos, mas o instinto de sobrevivência falava mais alto naquele momento de horror.
Duas silhuetas imponentes, vestindo as armaduras douradas e brancas da Ordem do Véu, entraram no beco com suas espadas imbuídas de Haku brilhando intensamente. Seus rostos estavam ocultos por visores espelhados que refletiam a pouca luz que retornava ao local.
'Nosso sinal de ruptura sumiu, mas os níveis de energia residual estão absurdamente altos,' um dos guardas comentou, a voz distorcida pelo modulador do capacete.
Passos lentos e calculados dos soldados aproximavam-se do local onde Ryo havia desaparecido, as pontas de suas botas esmagando os estilhaços de vidro no chão. Kenji prendeu a respiração, pressionando a mão marcada contra o próprio peito para ocultar o brilho revelador.
'Olhe isso,' o segundo guarda disse, apontando para as poças de sangue negro e as marcas de queimadura no asfalto. 'Isto não é uma anomalia comum. Esta assinatura de Haku... é densa demais. Quase parece...'
Tensão absoluta se seguiu enquanto os guardas examinavam o local, a apreensão no ar tão espessa que Kenji podia ouvir o zumbido das armas de energia dos soldados. Ele sabia que um único deslize, um único suspiro mais alto, selaria seu destino trágico ali mesmo.
'Seria um Momukai?' o primeiro guarda sugeriu, o tom de voz mudando para algo que misturava descrença e um temor reverencial. 'Impossível. Eles foram extintos nesta região há mais de uma década.'
'Temos que reportar isso imediatamente ao quartel-general,' o outro respondeu, desembainhando completamente sua arma. 'Se um deles despertou aqui, toda a cidade está em perigo iminente.'
Kenji sentiu uma lágrima solitária escorrer por seu rosto, misturando-se com a sujeira e o sangue que cobriam sua bochecha. O peso daquela palavra—Momukai—parecia esmagar qualquer esperança de um futuro normal que ele ainda ousasse acalentar.
Ele era a abominação que todos temiam, o monstro que a sociedade ensinava a odiar desde a infância nas escolas públicas de Tóquio. Como poderia provar sua inocência quando seu próprio corpo carregava a marca da destruição e da herança maldita?
Movendo-se com extrema cautela, os guardas começaram a vasculhar os arredores da fenda, aproximando-se perigosamente do esconderijo improvisado de Kenji. O som de seus passos rítmicos parecia uma contagem regressiva para a execução do jovem assustado.
Pânico impulsionou Kenji a tomar uma decisão impulsiva; ele precisava criar uma distração se quisesse ter alguma chance de escapar dali com vida. Seus dedos tatearam o chão úmido até encontrarem um pedaço pesado de cano de metal enferrujado jogado entre os destroços.
Arremessando o cano com toda a força que lhe restava em direção oposta do beco, Kenji prendeu a respiração enquanto o objeto colidia contra uma pilha de latas de metal. O barulho estridente ecoou alto no silêncio da noite, chamando a atenção imediata dos patrulheiros.
'Ali! Movimento na direção norte!' um dos guarda gritou, ativando os propulsores de sua armadura e disparando em direção ao som do impacto.
Aproveitando a fração de segundo de distração, Kenji impulsionou seu corpo para fora de trás da caçamba, correndo na direção oposta com as pernas trêmulas. Cada passo parecia uma tortura, mas a adrenalina que corria em suas veias anestesiava temporariamente a dor física excruciante.
Becos escuros e labirínticos de Shinjuku tornaram-se seu único refúgio enquanto ele corria sem rumo, tentando se distanciar o máximo possível da cena do crime. A chuva começara a cair com mais força, lavando parte do sangue de seu rosto, mas sem conseguir apagar a marca em sua mão.
Sensação de isolamento absoluto envolveu Kenji à medida que ele se aprofundava nas sombras da cidade grande, longe dos olhos da Ordem e da sociedade. Ele não tinha mais para onde ir, não tinha mais ninguém em quem confiar, e o fantasma de Ryo continuaria a assombrá-lo para sempre.
Observando mais uma vez para sua mão direita, ele viu que a cicatriz negra havia parado de queimar, mas continuava lá, gravada profundamente em sua carne. Era um lembrete físico de que sua vida anterior havia morrido junto com seu melhor amigo naquele beco úmido.
Que tipo de monstro ele estava se tornando? A resposta parecia distante, perdida nas fendas invisíveis que separavam o mundo dos humanos do inferno que espreitava do outro lado do Véu.
Exaustão física e mental finalmente cobrou seu preço, fazendo Kenji desabar contra a parede de um beco sem saída, longe das patrulhas da Ordem. Ele abraçou os próprios joelhos, escondendo o rosto enquanto o choro silencioso sacudia seu corpo magro e cansado.
Escuridão ao seu redor parecia ganhar vida própria, sussurrando promessas de poder e destruição que ele não queria ouvir, mas que pareciam inevitáveis. O destino de um Momukai estava traçado desde o início, e Kenji começava a perceber que não havia como escapar de sua própria linhagem.
Enquanto o último resquício de Ryo se desfaz no ar, Kenji ouve uma voz espectral sussurrar em sua mente: 'Bem-vindo ao nosso abraço, Momukai. Você está em casa'.