Chapter 1

Chapter 1 of 1

Where he works

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O ruivo sempre fechava a boate sozinho. Durante noites e mais noites, por volta das quatro da manhã, era ele quem permanecia atrás do balcão depois que os dançarinos deixavam os palcos, os garçons desapareciam pelos corredores dos funcionários e os últimos clientes eram praticamente empurrados para fora pelos seguranças. Aquela noite não seria diferente. Ele guardaria as garrafas mais caras, conferiria o caixa, limparia as taças que ninguém mais se dera ao trabalho de lavar e apagaria as luzes uma a uma, sem imaginar que vinha sendo observado havia tempo demais. Sua imaginação sequer considerava a possibilidade de alguém ter decorado sua rotina. Muito menos de esse alguém ser Jeon Jungkook. O moreno não era apenas o presidente da J’s Enterprise, uma empresa de tecnologia que fazia parte da Jeon’s Company, corporação criada e administrada pelo CEO que era seu pai. Aquela era apenas a faceta devidamente registrada, exibida em revistas de negócios e reuniões com investidores. Por trás dos ternos caros, das entrevistas calculadas e dos números impecáveis, Jungkook também controlava casas de apostas, clubes privados, rotas de contrabando e homens cuja lealdade era sustentada pelo medo. O sobrenome Jeon abria portas na alta sociedade. O nome de Jungkook fechava caixões no submundo. Ele poderia ter qualquer pessoa naquela boate. Qualquer uma mesmo. Dançarinos, visitantes, garçons ou clientes que mal conseguiam disfarçar os olhares lançados em sua direção. Bastaria demonstrar interesse, oferecer uma quantia suficientemente alta ou permitir que alguém acreditasse ter caído em seus encantos. Jeon Jungkook raramente precisava pedir duas vezes. Mas não. Ele se permitia ser egoísta justamente com a única pessoa que não havia tentado possuir. Desejava o ruivo. Desejava o sorriso simpático e encantador escondido parcialmente pela máscara dourada dos funcionários. Desejava aquele que permanecia atrás do balcão, servindo-lhe o melhor City of Lights de toda Las Vegas, e que trocava breves palavras com ele como se fossem conhecidos antigos, apesar de nenhum dos dois saber o verdadeiro nome do outro. Jungkook fazia questão de observar seu trabalho de longe. A música agradável, os jogos de luzes e a forma como o ruivo se movimentava conseguiam fazê-lo esquecer até mesmo os dançarinos que tentavam seduzi-lo de maneiras cada vez mais indecentes. Por vezes, imaginava o garoto no lugar de qualquer um dos strippers da ala VIP. Dançando para ele. Dançando sobre ele. A imagem era capaz de permanecer em sua mente durante horas, mesmo depois que deixava a boate e retornava ao silêncio de seu apartamento. Era uma fixação inconveniente, talvez absurda até mesmo para alguém de sua índole. Alguma coisa naquele homem parecia chamá-lo por cada letra de um nome que Jungkook ainda desconhecia, exigindo que se aproximasse, que descobrisse, que tomasse para si. O que o fazia recuar não era insegurança. Jungkook não temia ser rejeitado. Um não poderia ser contornado, negociado ou simplesmente ignorado, dependendo de quem o dissesse. Ele também não se preocupava com a possibilidade de passar vergonha diante de um funcionário de boate. Sua reputação sobreviveria a algo tão pequeno. O problema era outro. O ruivo parecia delicado. Não fraco, mas delicado de uma maneira que despertava uma cautela estranha em Jungkook. Havia suavidade em seus gestos, simpatia na forma como atendia até os clientes mais inconvenientes e certa inocência no jeito como dançava sozinho, acreditando que ninguém prestava atenção. Jungkook estava acostumado a quebrar coisas. Pessoas também. Tudo o que despertava seu interesse acabava engolido pela intensidade com que ele desejava, e o moreno não sabia se queria aproximar-se do ruivo apenas para destruí-lo alguns dias depois. Não sabia se conseguiria tocar aquela aparência encantadora sem deixar marcas profundas demais. Por isso continuava distante. Infelizmente, por causa da máscara negra que usava, o barman sequer poderia reconhecer seu rosto ou aceitar sair com ele apenas por causa de sua carreira influente. Talvez soubesse que Jungkook era alguém importante, mas não saberia dizer se por trás da máscara estava o presidente de uma empresa bilionária, um criminoso procurado por homens que nunca conseguiriam prová-lo ou apenas mais um rico excêntrico disposto a gastar demais. Quando pensava por tempo suficiente no assunto, Jungkook permitia que um dos dançarinos se aproximasse. Deixava que mãos habilidosas percorressem seus ombros ou que corpos quase despidos se movimentassem diante dele, mas seus olhos inevitavelmente viajavam para o bar. O ruivo às vezes estava rebolando discretamente na batida de alguma música. Era até engraçado. Fofo, pensava Jungkook, embora nunca usasse aquela palavra para descrever ninguém em voz alta. Adorável. As caretas feitas quando errava algum movimento ou quase derrubava uma garrafa faziam o moreno esquecer sua própria bolha de tensão durante alguns instantes. Gostava especialmente de quando seus olhares se encontravam. Jungkook ficava perdido por segundos, então pedia mais bebidas apenas para aumentar as chances de ser atendido pelo ruivo. Dificilmente as consumia. Às vezes, sequer tocava os lábios nas taças antes de oferecê-las a algum bêbado que estivesse por perto. Não sentia remorso algum por ser parcialmente responsável pelas ressacas alheias. Após algumas semanas, decidiu permanecer na boate até mais tarde para entender como funcionava o processo de fechamento. Talvez esperasse o garoto terminar. Talvez o chamasse para sair. Talvez apenas o observasse deixando o prédio e descobrisse até onde aquela curiosidade o levaria. Foram sete noites, alternadas entre uma presença discreta e outra inevitavelmente chamativa, até que Jungkook compreendeu o padrão. Todos os sábados, o barman ruivo fechava a boate por volta das quatro da manhã. Sozinho. A maioria dos estabelecimentos de Las Vegas permanecia aberta até o amanhecer, mas aquela parte não lhe interessava. O que importava era a ausência dos outros funcionários e o intervalo de aproximadamente vinte minutos entre a saída dos últimos clientes e o momento em que o ruivo trancava as portas. Vez ou outra, seus amigos acompanhavam aquela jornada. Estranhavam a disposição repentina do presidente antissocial para frequentar baladas e retornar para casa tão tarde. Em um primeiro momento, aceitaram que talvez fosse uma forma de Jungkook descontar o estresse acumulado pelo trabalho. Depois começaram a estranhar a maneira como ele permitia que os dançarinos o tocassem sem demonstrar qualquer satisfação. Os olhares distantes foram rapidamente percebidos. Descobrir a direção para a qual eram lançados foi ainda mais fácil. — Você sequer olha para quem está no seu colo — Hoseok comentou certa noite, sentado ao lado dele na ala VIP. — Isso deve ser um talento. Jungkook não desviou os olhos do bar. — Não sei do que está falando. — Claro que não — Seokjin respondeu, bebendo tranquilamente. — Você só apareceu aqui quatro vezes na mesma semana para admirar a decoração atrás do balcão. Na Jeon’s Company, existiam diversas empresas relacionadas ao entretenimento. A Bell Beaven não era diferente. Jungkook havia financiado pessoalmente algumas parcerias para que a boate recebesse novos equipamentos de som, sistemas de iluminação e uma área de jogos mais moderna. O investimento havia sido estritamente profissional. Ao menos era nisso que tentava acreditar antes de começar a frequentar o lugar com tanta regularidade. Dentro da Bell Beaven, o moreno conseguia praticamente tudo o que desejava: espaço VIP na área principal, descontos desnecessários em bebidas, acesso aos salões reservados, dançarinos escolhidos especialmente para ele e informações sobre os clientes mais influentes. Tudo, menos o maldito barman. Mesmo mascarado, todos sabiam que ele era alguém importante. As roupas caras, os acessórios discretos, porém absurdamente valiosos, e a forma como os seguranças endireitavam a postura quando Jungkook passava revelavam muito mais do que seu rosto poderia revelar. Sua presença era carregada de poder. Também havia algo ameaçador em sua postura, na maneira como ocupava os espaços e na ausência de hesitação ao encarar qualquer pessoa. Além disso, chegar ao local dirigindo um Porsche, uma Mercedes ou algum veículo que a maioria das pessoas nunca conseguiria comprar chamava a atenção de todos que aguardavam na fila. Mesmo assim, o ruivo sempre lhe oferecia exatamente o mesmo sorriso simpático que dava a qualquer outro bêbado. Nunca o atendia melhor. Nunca parecia preocupado em conquistar uma gorjeta maior. Jungkook não sabia se se sentia desafiado pelos olhos felinos escondidos por trás do dourado. Aquela era a máscara padrão dos funcionários, mas no ruivo parecia diferente. Moldava-se de maneira perfeita ao rosto estreito, destacando os lábios cheios, as bochechas arredondadas e as mechas alaranjadas que escapavam desobedientes. Também não sabia se estava atraído pelas curvas evidenciadas pelas roupas elegantes, encantado pelo sorriso do mais baixo ou obcecado pela forma como seus olhos desapareciam na escuridão e reapareciam sempre que as luzes coloridas alcançavam o balcão. Talvez apenas desejasse descobrir quem existia por trás da máscara. Quem ele era além de um barman esbelto que nunca revelava o verdadeiro nome a ninguém. Jungkook não tinha certeza de quanto o desejava, por qual motivo o desejava ou se pretendia ser desejado com a mesma intensidade. Muito menos sabia o que estava disposto a fazer para enxergar mais daquele funcionário. A resposta começou a surgir em uma noite movimentada. O ruivo servia uma mulher na extremidade do balcão quando um homem de paletó cinza se aproximou por trás dela. Jungkook o reconheceu imediatamente. Era herdeiro de uma rede de hotéis, conhecido por acreditar que dinheiro tornava qualquer comportamento aceitável. O homem apoiou uma das mãos na cintura da mulher. Ela se afastou. Ele riu. O barman continuou preparando o drinque, mas seus olhos acompanharam tudo através do espelho atrás das garrafas. O herdeiro insistiu. Aproximou-se novamente da mulher, murmurou alguma coisa em seu ouvido e, quando ela virou o rosto para responder, despejou discretamente o conteúdo de um pequeno papel dobrado dentro da taça que estava sobre o balcão. O ruivo viu. Jungkook também. Durante alguns segundos, o moreno esperou que o barman chamasse um segurança ou retirasse a bebida de perto dela. Ele não fez nenhuma das duas coisas. O ruivo apenas continuou sorrindo enquanto terminava o pedido. Quando se virou para buscar uma garrafa na prateleira, aproveitou o movimento para trocar as duas taças de posição. O copo adulterado ficou diante do homem de paletó cinza. A mulher recebeu a bebida intacta. — A sua cortesia — o ruivo declarou, empurrando a taça na direção do herdeiro. — Por conta da casa. O homem sorriu, satisfeito demais consigo mesmo para perceber a troca. Bebeu. O barman acompanhou cada gole, apoiando as mãos no balcão como se estivesse apenas conversando. Poucos minutos depois, o herdeiro começou a perder o equilíbrio. Dois seguranças surgiram assim que o ruivo ergueu discretamente dois dedos. O homem foi retirado da boate sem compreender por que suas próprias pernas haviam deixado de obedecê-lo. O ruivo não demonstrou culpa. Apenas olhou para Jungkook. Os olhos dos dois se encontraram através do salão. Por trás da máscara dourada, o barman sorriu. Não era o sorriso simpático que oferecia aos clientes. Era lento, pequeno e satisfeito. Jungkook inclinou a cabeça, compreendendo o recado. O garoto sabia que havia sido observado. Naquele instante, a preocupação de quebrá-lo perdeu parte do sentido. O ruivo não era uma criatura delicada perdida por acaso em um lugar perigoso. Ele sabia enxergar ameaças, manipular situações e devolver golpes sem sujar as próprias mãos. Era traiçoeiro. Talvez tanto quanto Jungkook. E aquela descoberta não diminuiu seu interesse. Tornou-o pior. Na noite seguinte, houve outra série de pequenos shots com seus amigos e, novamente, Jungkook foi pego em flagrante admirando a figura de silhueta tão bem definida. Dessa vez, o ruivo usava roupas mais largas, que cobriam seu corpo quase por inteiro, completamente diferente dos strippers que se apresentavam no palco à sua frente. Em vez de se encantar com eles, Jungkook concentrava-se nos rodopios e movimentos exagerados do barman, que apreciava a música ritmada como se soubesse exatamente como preparar drinques e seguir a batida ao mesmo tempo. Qualquer pessoa próxima ao bar acabava olhando. Mesmo quando dançava de forma divertida, havia sensualidade em seus movimentos. Jungkook percebera desde cedo que, ao contrário dos outros funcionários, ele era solto. Talvez tivesse experiência nos palcos. Talvez desejasse estar ali. Quando não havia clientes para atender, movimentava-se quase como os dançarinos ou os observava do bar com uma mistura de admiração e julgamento. Era leve como uma pena sobre o vento, deixando-se levar para qualquer direção que a música determinasse. Jungkook se perguntava se poderia tornar-se a ventania responsável por seus movimentos. O ruivo preparava drinques como se aquilo fizesse parte de sua natureza. Não demorava mais do que alguns minutos para concluir os pedidos mais sofisticados e conseguia transformar cada gesto em uma apresentação. Até naquilo ele era bom. Jungkook se perguntava constantemente se alguma outra alma naquele lugar o observava da mesma forma. Com tamanha devoção. Com tamanha curiosidade. Com tamanho desejo. Também pensava se o garoto já possuía alguém em seus planos, se realmente se interessava por outros homens ou se simplesmente gostava de brincar com a atenção que recebia. Nunca o vira sair acompanhado depois de fechar a boate, mas isso não significava muita coisa. Eram possibilidades demais. Antes, elas teriam feito Jungkook continuar observando. Agora, apenas o convenciam de que estava perdendo tempo. Seus amigos repetiam que ele já possuía o não, embora Jungkook nunca tivesse acreditado naquela frase. Não possuía coisa alguma até ouvir a resposta. Além disso, caso fosse rejeitado, poderia voltar ao lugar quantas vezes desejasse. A Bell Beaven era uma referência em Las Vegas e aparecia constantemente nos jornais por ser uma das poucas boates supostamente limpas de prostituição e drogas. Ao menos aos olhos dos vigilantes. Mas Jungkook sabia que não era a música, os investimentos ou os negócios que o faziam voltar. Era o barman. Mais uma vez, aproximou-se do bar. Depois dos comentários insistentes de Jung Hoseok e Kim Seokjin, estava preparado para tornar suas intenções claras. Não precisava reunir coragem. Precisava apenas decidir até onde pretendia levar aquilo. Seus trajes eram sempre escuros, uma tentativa inútil de misturar-se à multidão. Sua presença era como a de um cisne negro caminhando entre patinhos, elegante e ameaçador demais para passar despercebido. Ou talvez, diante do ruivo, fosse ele o patinho desajeitado encarando um cisne branco. O pensamento irritou-o. O bar estava praticamente vazio. As pessoas dançavam na pista, assistiam aos dançarinos ou permaneciam espalhadas pelos sofás, cada vez mais embriagadas. Quem ainda estava sentado diante do balcão não parecia interessado em pedir novas bebidas. O funcionário de máscara dourada secava uma taça e a guardava na estante. Estava de costas para Jungkook, murmurando a letra da música e remexendo o corpo no ritmo. Por bom gosto de alguém, tocava The Weeknd. A melodia era lenta e nem um pouco censurada. Jungkook interpretava cada verso enquanto observava o garoto de roupas simples e cintilantes cantar baixinho. Em suas mãos havia um copo abandonado por algum cliente. Ele o girava, analisando o líquido. Certamente não arriscaria beber. O desejo de provar aquele uísque possivelmente adulterado e o desejo de ter o ruivo provocavam sensações parecidas. Ambos pareciam capazes de gerar consequências perigosas. O barman olhou por cima do ombro. Pareceu surpreso ao encontrar Jungkook atrás de si e, por um segundo, também constrangido. Afinal, estivera dançando de maneira desajeitada e provavelmente acreditava que estava sendo julgado. — Não o vi chegando — comentou, virando-se por completo. — Deseja alguma coisa? A voz delicada tirou Jungkook de seus pensamentos. Era como o veludo de um casaco no inverno: suave, quente e agradável demais para alguém que havia acabado de fazer um homem beber a própria droga. — Talvez. Jungkook apoiou as mãos sobre o balcão, observando-o. Não estava nervoso, mas escolhia as palavras com mais cuidado do que costumava fazer. Um comentário errado poderia encerrar a diversão cedo demais, e ele ainda não tinha certeza de qual versão do ruivo encontraria naquela noite. O simpático funcionário? Ou o pequeno traidor que sorrira enquanto assistia um homem perder os sentidos? — Bom, já que estamos quase sozinhos, vou lhe oferecer um clássico por conta da casa. O barman começou a preparar o City of Lights, buscando o conhaque na prateleira. — Você parece precisar de um pouco de luz. Talvez ajude. Apontou de maneira divertida para as roupas escuras de Jungkook. — Obrigado pela cortesia e pela crítica. O moreno sorriu, sentindo os ombros menos tensos. Empurrou para longe o copo abandonado que estivera examinando. — Sua mãe nunca ensinou que não se deve oferecer bebidas para estranhos? O ruivo olhou de soslaio enquanto adicionava os ingredientes. — Estou em perigo, então? — Possivelmente. — Pela bebida de graça ou por ter criticado o estilo gótico de um cliente influente? Colocou o drinque diante dele. Jungkook agradeceu com um movimento breve da cabeça, mais interessado na conversa do que no líquido. A música tornava difícil escutar tudo, mas os dois pareciam dispostos a se inclinar cada vez mais sobre o balcão para manter a comunicação. — Pelos dois motivos. — Acho que gosto da ideia de correr perigo por sua causa, então. O ruivo sorriu de maneira doce, como se a própria fala não tivesse alterado sutilmente a respiração de Jungkook. Aquela era sua confirmação? — É mesmo? Jungkook manteve uma bela expressão de indiferença. A impossibilidade de enxergar completamente o rosto um do outro era frustrante, embora também tornasse a situação mais interessante. — Talvez seja eu quem esteja em perigo. Meu ego e meu orgulho, principalmente. — Quem sabe? — Nunca se sabe. Eles riram baixo. Um para o outro. Apenas. O ruivo abandonou o restante do trabalho e concentrou-se no homem à sua frente, como se estivesse esperando pela próxima provocação. — Você deve gostar muito do perigo para abandonar a área VIP, cheia de garçons e pessoas dispostas a entretê-lo, apenas para vir até aqui. Comentou aquilo de maneira aparentemente despretensiosa enquanto fazia desenhos imaginários na madeira envernizada do balcão. Jungkook quase se engasgou com o primeiro gole, mas preferiu disfarçar tomando outro, mais longo. — Permanecer parado por muito tempo me deixa entediado. — Mesmo com os dançarinos praticamente babando sobre você, ainda consegue sentir tédio? Jungkook não esperava que a corda destinada a enforcá-lo viesse justamente das mãos do barman. Como haviam chegado àquele assunto tão depressa? Era a primeira vez que se arriscava a permanecer sozinho no bar. Seus amigos provavelmente já estavam ocupados com outras bocas, outros corpos ou outras bebidas. Não havia sequer um lugar digno para o qual pudesse recuar. Não que pretendesse recuar. — Não encontrei ninguém que conseguisse me distrair o suficiente. Sorriu de lado. Uma mecha de cabelo caiu sobre sua máscara, escondendo ainda mais os olhos negros e profundos das luzes coloridas que iluminavam parcialmente o ambiente. — Compreendo. O ruivo inclinou a cabeça e apoiou os dois braços sobre o balcão, aproximando-se. Um sorriso fraco surgiu em seus lábios antes que passasse a língua lentamente por eles. — Talvez seja por isso que seus olhos viajem tanto nesta direção. Falta de distração? Ou distração demais? Jungkook sentiu cada músculo do corpo se contrair. Não de insegurança. De antecipação. — É um problema difícil de evitar — respondeu em um tom mais baixo. — Meus olhos parecem atraídos até aqui. Os dois sorriam da mesma maneira. Não eram sorrisos largos, mas movimentos ladinos de lábios entreabertos, maliciosos e completamente desprovidos de vergonha. — Sabe o que os atrai? — Talvez. Jungkook aproximou o rosto, mantendo-o levemente inclinado. Permaneceram naquela troca de olhares, como se nenhum dos dois estivesse disposto a quebrar a distância restante primeiro. O moreno desejava retirar a máscara dourada. Queria enxergar o rosto escondido, compreender cada expressão e descobrir se aquele sorriso continuaria tão insolente quando Jungkook tivesse uma das mãos ao redor de seu pescoço. Poderia usar sua influência. Poderia ameaçar demiti-lo, embora não tivesse intenção alguma de fazê-lo. Poderia ordenar que retirasse a máscara. Mas aquele jogo perderia a graça se recorresse ao poder cedo demais. O ruivo levantou uma das mãos e a aproximou do rosto de Jungkook. Os olhos de ambos pareciam semicerrados de tanto que insistiam em observar a boca um do outro. Em vez de tocar seus lábios, o barman passou os dedos pelo pescoço do moreno. A carícia foi tão leve que poderia ter sido confundida com um acidente. Depois tocou a ponta de seu nariz sobre a máscara. — Nunca se sabe. Afastou-se apenas o suficiente para impedir que a tensão se aprofundasse. Jungkook acompanhou o movimento com os olhos. Ali estava novamente. A traição escondida por trás da doçura. O ruivo aproximava-se quando queria, tocava onde desejava e recuava antes que Jungkook pudesse agarrá-lo. Não era uma criatura delicada sendo atraída para uma armadilha. Ele próprio era a armadilha. E Jungkook começava a gostar de ser provocado. Bufou de maneira decepcionada e bebeu o último gole, voltando a brincar com a taça. — É sua vez de comentar alguma coisa intrigante — o ruivo disse enquanto lavava o copo de uísque abandonado. — Vai ficar estranho se permanecermos em silêncio, senhor Estranho. Ao inclinar o vidro sob a luz, encontrou resquícios de um comprimido dissolvido no fundo. Seu sorriso desapareceu durante um breve instante. Jungkook percebeu. O ruivo tornou a olhar para a área onde o antigo dono da bebida estava sentado, decorando o rosto dele antes de continuar lavando a taça como se nada tivesse acontecido. Anotaria mentalmente. Resolveria depois. Talvez com a mesma delicadeza usada na noite anterior. — Sempre vejo você dançando e cantando — Jungkook comentou, sem pestanejar. — Já desejou estar lá em cima? O álcool começava a aquecê-lo, mas ainda não era suficiente para afetar seu discernimento. Suas confissões, no entanto, tornavam-se mais diretas a cada gole. — Você sempre me vê dançar? — O ruivo recuperou toda a atenção, sorrindo de maneira divertida. — Curioso. Jungkook revirou os olhos, embora uma risada frouxa escapasse de seus lábios. — Podemos parar com isso? Apenas responda. Seu tom rouco, somado ao gesto de coçar a nuca enquanto mantinha a cabeça levemente abaixada, fez os pelos do ruivo se arrepiarem. Não havia mais qualquer vestígio de cautela no moreno. O segundo gole de conhaque não havia lhe dado coragem; apenas retirara a pouca paciência que ainda possuía para fingir desinteresse. — Sou multifunções — o barman confessou entre suspiros. — Dançava quase todos os dias, dentro e fora do palco. Estou substituindo um amigo atrás do balcão por enquanto. É difícil conter o instinto quando conheço todas as coreografias. — Isso explica muita coisa. Sempre vejo seus olhares admirados e julgadores. Você deve ser bom. Jungkook apoiou o rosto sobre a palma da mão, encantado com a figura diante de si. Planejara aquela aproximação por tantas noites que agora se sentia um tolo por tudo estar acontecendo de maneira tão natural. A atração podia ter começado de forma carnal, mas a curiosidade já havia se transformado em algo mais complicado. — Fui eu quem ensinou muito do que eles sabem. O ruivo voltou o olhar para o palco, e Jungkook percebeu o orgulho em sua expressão. — Pole dance pode ser muito mais do que uma dança sensual. É uma forma de arte, uma maneira de se expressar. Eles ficam leves enquanto dançam. Eu fico leve por saber que ajudei em alguma coisa. Ele sorria quase inconscientemente. — Em uma ou duas semanas, talvez você possa ver. Voltou a tocar suavemente a ponta do nariz de Jungkook sobre a máscara. — Pessoalmente. Jungkook considerou o convite quase ingênuo por causa do gesto, como se o garoto não estivesse prometendo uma apresentação possivelmente erotizada, mas apenas convidando-o a conhecer algo de que sentia orgulho. Talvez fosse uma mistura adorável das duas coisas. Considerá-lo adorável já não parecia tão absurdo quanto deveria. — Pode apostar que estarei aqui. Confirmou sem hesitar. O ruivo também pareceu afetado, embora tentasse não demonstrar. Ambos estavam tensos pelo mesmo motivo, mas nenhum deles parecia disposto a admitir. — Como aprendeu? — O quê? Jungkook apontou discretamente para trás, na direção dos palcos. — Ah, sim. Fiz faculdade de dança contemporânea. Com o tempo, quis aprender coisas novas e acabei vindo para cá. Faz três anos desde que comecei. — Faculdade? — Não pareço alguém inteligente? Ele brincou, e Jungkook riu sem constrangimento. — Não, não é isso, ruivo. Você parece jovem demais para alguém que concluiu uma faculdade há pelo menos três anos. O apelido proferido por aquela voz grave fez outro arrepio atravessar o corpo do barman. Jungkook, por sua vez, estava apenas entretido com a conversa. Sua mente parecia no céu quando, poucas noites antes, desejava ser arrastado até o inferno por aquele anjo traiçoeiro. — Fico lisonjeado. Caso pudesse, revelaria minha idade e você ficaria surpreso. Mas existem regras que podem me prejudicar mais tarde. Um pequeno bico surgiu em seus lábios. Jungkook sorriu novamente. — Tenho trinta e dois anos. Não preciso seguir suas regras. — Uau. Os olhos do ruivo se arregalaram. — Não faça isso comigo, hyung. O honorífico percorreu a coluna de Jungkook como uma descarga elétrica. Ele se apoiou novamente sobre o balcão, a única barreira que os separava. — Sinto que estou lhe devendo alguma coisa — o ruivo continuou, inclinando a cabeça. Jungkook observava cada gesto. O calor da bebida começava a fazer efeito, diferente de antes. Já não estava entediado ou indiferente. Desejava beijar aquela boca com a mesma intensidade que desejara ver o ruivo dançando sobre seu corpo. — Nunca se sinta em dívida comigo — respondeu. — Algum dia poderá compensar, caso deseje. — De que forma eu faria isso? — Não sei. Poderíamos sair algum dia. O barman riu, cobrindo o sorriso com as mãos. Parecia surpreso com a falta de vergonha do moreno. — Você é sempre tão atrevido com todos? — Não existem outros. A resposta saiu de maneira imediata. Logo depois, um soluço escapou de seus lábios. Jungkook cobriu a boca, e os dois se encararam surpresos até que uma risada conjunta quebrou a tensão. — Acho que o segundo conhaque da noite finalmente está fazendo efeito — Jungkook comentou. — Dois conhaques, três shots de vodca e quatro de uísque — o ruivo enumerou com os dedos antes de se debruçar sobre o balcão novamente. — Você pretende voltar para casa de que maneira, grandão? — Caso pudesse, ficaria aqui a noite inteira. O moreno suspirou, encarando os olhos que acabara de descobrir serem levemente verdes. Estava completamente hipnotizado. — Suas cantadas de quinta série me fazem questionar sua idade. — O quê? O cenho de Jungkook se franziu e seus olhos se arregalaram. Estava cansado, e as pálpebras fechavam automaticamente por alguns segundos; abri-las novamente fazia parecer que estava constantemente surpreso. — Eu não preciso de cantadas para conseguir o que quero. — Tem razão, grandão. O ruivo se aproximou ainda mais e começou a dedilhar a camisa preta de Jungkook. — Pedir dezenas de bebidas e não consumir nenhuma realmente conseguiu chamar minha atenção. Encontrou um dos botões da camisa e o abriu com facilidade. Jungkook permaneceu imóvel. — Seus olhares enquanto dançavam sobre você também me deixaram extasiado. Outro botão foi aberto. A boca de Jungkook entreabriu-se enquanto acompanhava cada movimento, encantado com a ausência de hesitação. — Ver suas caras e bocas era a melhor parte — continuou o ruivo. — Principalmente quando estava olhando para mim. Os dedos tocaram o pomo de Adão do moreno como se aquela fosse uma intimidade perfeitamente natural. — Não sei o que sentir sabendo que percebeu. — Você sequer tentou disfarçar. Os dois se observavam atentamente por trás das máscaras. — É gratificante saber — o ruivo confessou. — Ouvir meus colegas reclamarem sobre como o homem mais bonito e rico daqui permanecia distraído enquanto eles disputavam sua atenção, sabendo que tudo o que eles desejavam estava concentrado em mim. Aproximou-se lentamente dos lábios de Jungkook. — Entre todos eles, você imaginava o mero barman rebolando sobre você, não é? — Uhum. O som baixo escapou da garganta do moreno enquanto uma gota de suor descia por sua coluna. — Você nem tentou negar. Os dedos do ruivo tocaram seus lábios. Um era mais cheio que o outro, ambos avermelhados pela bebida e escurecidos pela iluminação reduzida. — Algum dia, quero que me conte. Ou, melhor ainda, que me mostre tudo o que passou pela sua cabeça enquanto me via trabalhar de maneira inocente e alguém quase sem roupa tentava conquistar sua atenção. A ponta do indicador percorreu o lábio inferior de Jungkook. — Você não acha isso injusto? — Eu vou mostrar. Jungkook tinha certeza de que finalmente sentiria aquela boca contra a sua. O ruivo aproximou-se. No último segundo, virou o rosto e deixou um beijo leve sobre sua bochecha. — Vai mesmo. Falou baixo, risonho e satisfeito com o desconcerto que causara. — Para casa. Jungkook franziu o cenho. — Depois. — É melhor ir logo. Você vai se atrasar. — Para quê? A música começou a desaparecer. As luzes coloridas apagaram-se uma a uma. De repente, não havia mais barman, palco, cheiro de cigarro ou corpos dançando. Apenas uma escuridão sufocante e a sensação frustrante de ter sido arrancado de alguma coisa importante. — Você pretende acordar sozinho ou preciso jogar alguma coisa em você de novo? A voz não era mais delicada. Também não pertencia ao ruivo. O alarme tocava de maneira incansável quando alguma coisa atingiu a cabeça de Jungkook, acertando exatamente a região acima de sua nuca. — Ai, caralho! Que porra é essa? Ele se levantou de uma vez, massageando o lugar atingido. Kim Seokjin estava em pé ao lado da cama, segurando outro travesseiro e encarando-o com evidente impaciência. — É a terceira vez que seu alarme toca. Jungkook piscou algumas vezes, tentando compreender por que estava em seu quarto, por que ainda usava parte das roupas da noite anterior e, principalmente, por que conseguia sentir a lembrança dos dedos do ruivo sobre seus lábios como se aquilo tivesse realmente acontecido. Olhou para o espaço vazio ao lado da cama. Não havia máscara dourada. Não havia olhos verdes. Não havia o cheiro doce do drinque que o garoto sempre preparava. Apenas o próprio quarto, as cortinas fechadas e Seokjin julgando-o. — Você estava sorrindo enquanto dormia — o amigo comentou, desconfiado. — Foi perturbador. Jungkook deixou-se cair novamente sobre o colchão, cobrindo o rosto com uma das mãos. — Saia. — Não antes de descobrir quem estava no sonho. — Ninguém. — O ruivo? O silêncio foi resposta suficiente. Seokjin soltou uma risada alta. — Você ainda nem teve coragem de conversar direito com ele e já está sonhando? Jungkook afastou a mão do rosto e lançou-lhe um olhar frio. — Não é falta de coragem. — Claro. — Estou decidindo como vou fazer. — Você observa aquele garoto há semanas. Não parece uma decisão tão complexa. Jungkook virou o rosto na direção do teto, como se encarar o suficiente ajudasse a vizualizar o rosto por trás da máscara. Ainda conseguia visualizar o sorriso do ruivo, pequeno, sedutor como uma cobra. A maneira como havia trocado os copos sem hesitar, sabendo as consequências e sendo visto fazendo algo pecaminoso. O olhar satisfeito ao assistir outro homem cair na própria armadilha. A doçura falsa. Os gestos calculados. O beijo que sequer havia acontecido, mas que parecia quente sob seus dedos. Antes, Jungkook temia aproximar-se e quebrá-lo. Agora compreendia que talvez tivesse interpretado tudo errado, e que droga, queria quebrar cada parte daquele garoto. O ruivo não era algo delicado esperando para ser destruído. Possuía seus próprios dentes. Suas próprias armadilhas. E, caso as coisas acontecessem como no sonho, como naquilo que ele não dabia discernir da ilusão para a realidade, saberia conduzir Jungkook até a beira apenas para abandoná-lo ali, faminto e furioso. Um sorriso lento surgiu em seus lábios. —Hoje à noite... —declarou. Seokjin ergueu uma sobrancelha. —O que tem hoje à noite? Jungkook sentou-se na cama, afastando os cabelos bagunçados da testa, espreguiçando o corpo torneado de tatuagens e amassado dos lençóis. —Vou descobrir até onde aquele ruivo está disposto a brincar comigo.

End of Chapter 1

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