Gotas pesadas de chuva batiam contra o asfalto rachado de Shibuya, misturando-se com o sangue fresco que escorria do nariz de um garoto trêmulo. Água fria lavava a sujeira das calçadas, mas falhava em limpar a podridão que se escondia nos becos escuros da metrópole.
Três delinquentes de uniforme escuro cercavam o estudante encurralado contra a parede de tijolos pichada, rindo da fragilidade de sua vítima. Eles sabiam que ninguém viria salvá-lo naquele setor abandonado da cidade.
Rindo alto, o líder do grupo ergueu o punho cerrado, pronto para desferir mais um golpe humilhante no rosto já inchado do garoto. Ele saboreava o poder temporário que aquela violência barata lhe proporcionava.
Sapatos pesados ecoaram pelo beco úmido antes que o punho do agressor pudesse descer. O som era firme, ritmado, carregado de uma confiança que imediatamente fez os três delinquentes congelarem.
"Sempre a mesma merda," murmurou uma voz feminina, carregada de puro desdém. "Vocês usam a força apenas contra quem não pode revidar, achando que isso os torna homens de verdade."
Cheiro de lixo úmido e ozônio impregnava o ar abafado, criando uma atmosfera asfixiante que tornava a cena ainda mais sombria. Passos firmes continuaram a avançar, cortando a penumbra da noite paulatinamente.
Ayano surgiu das sombras da fresta entre os prédios, ajustando a gola de sua jaqueta de couro preta que brilhava sob a luz fraca dos postes. Seu cabelo escuro estava parcialmente colado à testa pela umidade, mas seus olhos brilhavam com uma determinação assassina.
Olhares confusos e irritados se voltaram para ela, mas a garota não deu tempo para que eles formulassem qualquer insulto.
Avançando com a velocidade de um predador faminto, ela desferiu um soco direto na mandíbula do primeiro valentão.
Ossos estalaram de forma desagradável quando o corpo do líder foi arremessado contra as latas de lixo metálicas, espalhando detritos pela calçada molhada. Ele caiu inerte, os olhos revirados antes mesmo de tocar o chão.
Chocados com a rapidez do ataque, os outros dois hesitaram por um breve segundo, mas o medo que sentiram rapidamente se transformou em fúria cega.
"Sua vadia insolente!" gritou o maior deles, arrancando uma barra de ferro enferrujada de trás de um contêiner e avançando com desespero.
Desviando com um movimento fluido e minimalista para o lado esquerdo, Ayano girou o quadril com precisão milimétrica. Ela aproveitou o próprio impulso do agressor para desferir uma joelhada brutal diretamente em seu estômago desprotegido.
Ar escapou dos pulmões do homem em um suspiro doloroso e agudo, e ele imediatamente desabou de joelhos, segurando a barriga enquanto lutava para respirar.
Rapidamente, o bico de ferro reforçado da bota de Ayano encontrou a canela do terceiro delinquente antes que ele pudesse sequer esboçar uma reação de fuga.
Gritos de dor ecoaram pelo beco estreito, abafados apenas pelo temporal implacável que desabava sobre a metrópole de Tóquio.
Limpar a sujeira das ruas nunca fora um trabalho oficial ou uma missão de caridade, mas ela sentia um prazer quase doentio em quebrar o ego inflado de quem se considerava intocável.
Apoiando o pé pesado e úmido sobre o peito do líder que tentava se levantar, ela se inclinou para a frente.
"Vocês, vermes que se escondem atrás de gangues insignificantes, me dão nojo," cuspiu ela, exercendo mais pressão física sobre o esterno do rapaz até ouvir um gemido abafado de dor.
Lágrimas de pura dor física se misturaram à água da chuva no rosto do delinquente, que agora implorava por misericórdia com as mãos trêmulas.
"Acham que são donos de Tóquio só porque usam uma jaqueta idêntica e andam em bando?" continuou Ayano, um sorriso amargo e sarcástico curvando seus lábios úmidos.
Nenhum daqueles homens tinha forças para responder, restando apenas o som de suas respirações ruidosas e o lamento de suas derrotas.
Chutando a cabeça do líder para o lado com desdém, ela finalmente retirou o pé de seu peito e se virou para o estudante assustado.
"Pegue suas coisas e suma da minha frente," ordenou friamente, sem oferecer qualquer palavra de conforto ou mão amiga.
Correndo como se sua própria existência dependesse da velocidade de suas pernas trêmulas, o garoto recolheu sua mochila e desapareceu na cortina de chuva.
Sozinha com os corpos gemendo no chão lamacento, Ayano olhou para as próprias mãos calejadas, cerrando os punhos com força até que os nós dos dedos ficassem completamente brancos.
Líderes arrogantes com egos maiores que suas próprias habilidades mereciam ser destruídos, e ela tinha um objetivo muito mais ambicioso traçado em sua mente.
Manjiro Sano, o lendário Mikey, governava o submundo juvenil com uma autoridade que todos consideravam inabalável, mas para ela, ele era apenas o maior obstáculo a ser removido.
Dominar Tóquio não era apenas um desejo impulsivo para Ayano; era uma promessa gravada em cada cicatriz invisível que ela carregava na alma.
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Gritos de guerra ensurdecedores cortavam a noite tempestuosa no cruzamento principal de Shibuya, onde o asfalto negro brilhava intensamente sob o reflexo distorcido dos imensos painéis de neon.
Dezenas de jovens delinquentes colidiam em uma massa caótica de punhos cerrados, dentes quebrados e jaquetas encharcadas pela chuva implacável.
Membros da Tokyo Manji avançavam como uma força implacável, os gritos de incentivo de seus capitães ecoando sobre o barulho dos trovões.
No centro exato daquele turbilhão de violência, parado com uma postura relaxada que beirava o insulto, estava Manjiro Sano.
Gotas de chuva fria escorriam por seus cabelos loiros desalinhados, colando algumas mechas ao seu rosto jovem, enquanto a água deslizava pelos ombros de sua jaqueta branca de capitão, mantida impecavelmente limpa.
Nenhum oponente conseguia manter-se de pé a menos de dois metros de distância de sua figura silenciosa; todos caíam antes mesmo de desferir um golpe.
Seus olhos escuros, profundos e assustadoramente vazios, observavam o desenrolar da batalha com um tédio que sufocava qualquer um que ousasse encará-lo diretamente.
Para ele, o desfecho daquela noite já estava decidido antes mesmo do primeiro soco ser desferido, pois ele conhecia o limite de seus adversários.
Carregar o fardo de ser o "Invencível Mikey" era uma solidão silenciosa que ele aceitara há muito tempo, um isolamento autoimposto onde ninguém conseguia alcançar sua altura.
Um brutamontes da facção adversária, empunhando um pesado bastão de madeira com as duas mãos, conseguiu romper a linha de defesa e avançou com um grito desesperado.
Sem sequer se dar ao trabalho de olhar para trás, Mikey esquivou-se do ataque com um movimento milimétrico de cabeça, fazendo com que o bastão de madeira cortasse apenas o ar úmido.
Girando sobre o próprio eixo com uma velocidade que desafiava a gravidade, ele transferiu todo o peso de seu corpo para a perna de apoio.
Seu famoso chute nuclear subiu em um arco ascendente perfeito, rasgando a cortina de chuva pesada com uma força devastadora.
Qualquer um que conhecesse a fama do líder da Toman sabia que a batalha terminaria exatamente naquele segundo, com o impacto deixando o oponente inconsciente.
Inesperadamente, um estrondo metálico e ensurdecedor ecoou pelo cruzamento de Shibuya, reverberando mais alto do que o próprio trovão.
Perto dali, Ken Ryuguji, o vice-líder da Toman conhecido como Draken, paralisou seu próprio punho no ar ao ouvir o ruído incomum. Ele virou o rosto rapidamente, os olhos arregalados ao ver a silhueta de seu comandante ser travada de forma tão abrupta por uma desconhecida.
Metal colidiu com osso em um impacto seco e violento que fez a água acumulada no asfalto espirrar em um círculo perfeito ao redor dos dois combatentes.
Arregalando os olhos escuros em um raríssimo momento de choque genuíno, Manjiro sentiu a força de sua perna ser completamente travada no meio do caminho.
Uma bota pesada de couro, equipada com uma biqueira de ferro reforçada e arranhada por inúmeras batalhas, bloqueava com precisão milimétrica a trajetória exata de sua canela direita.
Firme como uma coluna de concreto armado, Ayano sustentava o peso esmagador do chute mais letal de Tóquio sem recuar um único centímetro.
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Gotas de água fria escorriam pelo rosto de Ayano, limpando o sangue leve que escorria de um pequeno corte em seu supercílio e revelando a expressão de pura zombaria que ela direcionava ao líder da Toman.
Olhares se cruzaram em meio à tempestade violenta, e Manjiro viu-se encarando duas pupilas escuras que não mostravam submissão ou o terror característico que ele costumava inspirar.
Uma onda de fascinação furiosa e incontrolável atingiu o peito de Manjiro, fazendo seu coração acelerar e seu sangue ferver de uma maneira que ele não experimentava há anos.
Ninguém jamais havia bloqueado aquele chute com tamanha facilidade; ninguém naquelas ruas possuía a audácia necessária para parar sua técnica mais forte.
Seus dentes se rangeram audivelmente enquanto ele tentava forçar o peso de sua perna para baixo, tentando esmagar a defesa dela.
Com um sorriso de canto, ela inclinou a cabeça ligeiramente para o lado, deliciando-se com a expressão de incredulidade que quebrava a máscara de tédio do invencível líder.
Sua respiração estava acelerada devido ao esforço extremo, mas sua postura corporal exalava uma insolência inabalável.
"Sua coroa é feita de vidro barato, Mikey," sussurrou ela, a voz fria e carregada de escárnio cortando o som da chuva.
Gesto contínuo e deliberado, ela inclinou-se milímetros para a frente e cuspiu uma mistura espessa de saliva e sangue escuro diretamente no tecido branco e imaculado da jaqueta de capitão dele.
Mancha vermelha e viscosa começou a se espalhar rapidamente pelas fibras limpas do uniforme que Manjiro tanto valorizava.
Fúria crua, cega e assassina brilhou nos olhos anteriormente vazios de Manjiro, o calor de seus impulsos mais sombrios despertando com força total.
Sua mão disparou para a frente na direção do pescoço dela, os dedos flexionados como garras prontas para sufocar qualquer resquício daquela audácia.
Rápida como uma serpente venenosa, Ayano recuou um passo ágil com o pé esquerdo, desfazendo o bloqueio e permitindo que a perna de Mikey atingisse o chão vazio.
Com a mão esquerda já posicionada estrategicamente junto ao cinto de utilidades oculto sob sua jaqueta de couro, ela puxou o pino metálico de uma granada de fumaça de padrão militar.
Fumaça cinza-escura, densa e de odor químico sufocante começou a jorrar instantaneamente do dispositivo que ela soltou no asfalto molhado, subindo rapidamente e engolindo as duas figuras.
Sons de passos rápidos e o chiado violento do gás de dispersão preencheram o espaço cinzento ao redor deles, anulando qualquer visibilidade.
Movendo-se por puro instinto de combate acumulado em anos de sobrevivência urbana, Manjiro tentou avançar às cegas pela névoa espessa, confiando em sua audição para rastrear a posição da garota.
De repente, um clique mecânico, seco e inconfundível ecoou bem próximo ao seu ouvido direito, fazendo com que cada músculo de seu corpo se tensionasse.
Antes que pudesse esboçar qualquer reação defensiva ou desferir outro golpe, o cano de metal frio e rígido de uma arma de fogo pressionou-se com força diretamente sob seu queixo, empurrando sua cabeça ligeiramente para trás e congelando o ar em seus pulmões.