Chapter 2 of 4

Capítulo 1: Corrente de Ferro

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Lama fria e cinzas cobriam o pátio de treinamento da Guilda do Punho de Ferro. Elmore sentia o gosto áspero de ferro e terra em sua boca, um lembrete constante de sua posição na base daquela pirâmide cruel. Gotas pesadas de chuva batiam contra suas costas nuas, lavando o suor mas não a vergonha de estar caída diante de seus iguais. O vento uivava entre as altas torres de metal negro que circundavam a fortaleza, parecendo rir de sua miséria. Suas mãos tremiam contra o solo pedregoso, os dedos enterrados na sujeira enquanto ela lutava para não desabar completamente. Cada respiração era um tormento que fazia seu peito arder. Ela tentava puxar o ar úmido, mas o cheiro constante de enxofre das forjas próximas parecia sufocar qualquer vestígio de oxigênio restante. "Levante-se, escória," rosnou Brutus, a voz áspera como pedra rústica raspando contra o aço temperado. Passos pesados ecoaram na lama negra, aproximando-se sem qualquer pressa. O Mestre de Treino parou bem à frente dela, sua silhueta imensa bloqueando a pouca luz cinzenta do entardecer. Ele segurava um imenso martelo de guerra sobre o ombro direito, os músculos do braço flexionados como cabos de aço retorcidos sob a pele curtida pelo fogo eterno. Brutus exalava um cheiro forte de carvão queimado e cerveja barata de taberna. Ele olhou para baixo com um desdém tão profundo que parecia capaz de achatar as pedras sob seus pés. Seus olhos, pequenos e escuros como duas pepitas de carvão apagadas, brilhavam com uma satisfação sádica ao ver a garota de joelhos. Erguendo os olhos devagar, Aella encarou o gigante de metal e carne. Seus dentes se chocaram com tanta força que uma vibração dolorosa subiu por sua mandíbula até as têmporas. Ela queria gritar, queria avançar contra ele e arrancar aquele sorriso arrogante de seu rosto, mas a realidade de sua fraqueza física atual a mantinha presa ao chão. "Sua fraqueza inata é uma ofensa a esta guilda," cuspiu Brutus, limpando o canto da boca com as costas da mão calejada e cheia de cicatrizes antigas. "Você nasceu na sarjeta, garota. Acha que um punhado de sonhos idiotas e essa teimosia inútil vão transformar sangue de rato em aço de primeira qualidade?" Risadas abafadas surgiram das sombras que cercavam o pátio de treinamento. Outros recrutas, ansiosos para agradar o instrutor e afastar a atenção de suas próprias falhas, assistiam ao espetáculo cruel com sorrisos amarelos e comentários maliciosos. Eles sabiam que, enquanto Aella fosse o saco de pancadas favorito de Brutus, eles estariam temporariamente seguros da fúria do mestre. Ninguém ousaria defender a órfã sem nome ou linhagem. Naquele lugar implacável, a compaixão era considerada uma doença mortal, um defeito de fabricação que precisava ser expurgado sob o impacto do martelo de forja. Aqueles que demonstravam fraqueza eram rapidamente descartados, enviados para as minas profundas ou simplesmente deixados para morrer de fome nos arredores da fortaleza. Elmore cravou as unhas nas palmas das mãos com uma força desesperada. A dor física aguda era um foco bem-vindo, uma âncora afiada que a impedia de gritar de frustração ou de chorar na frente daqueles homens impiedosos. Ela sentiu o calor do sangue fresco começar a escorrer por entre seus dedos trêmulos, misturando-se à lama gelada que cobria o solo do pátio. Pele rasgou sob a pressão implacável de seus próprios dedos, mas ela não emitiu um único som de reclamação. A raiva que antes era apenas um sussurro de revolta em sua mente começou a se transformar em uma chama fria, um núcleo de determinação gelada que se recusava a ser apagado pelas palavras venenosas de Brutus. Ela se lembrou de cada olhar de desprezo que recebera desde que fora deixada nos portões da guilda, um fardo indesejado embrulhado em trapos imundos. "Você nunca será uma Heroina," continuou Brutus, chutando uma poça de água suja diretamente contra o rosto dela, fazendo-a tossir e engasgar com a água barrenta e fria. "Os heróis deste mundo são moldados em berços de ouro, ou possuem linhagens ancestrais que você nem consegue conceber em suas fantasias mais idiotas. Você é apenas escória destinada a queimar nas forjas inferiores." Aquelas palavras atingiram o ponto mais profundo de sua ferida espiritual. O abandono de sua família, a vergonha constante de sua origem humilde e a necessidade desesperada de provar seu valor colidiram dentro dela, criando uma tempestade de fúria silenciosa. Ela não aceitaria ser definida por sua origem; ela provaria que todos eles estavam errados, mesmo que isso custasse sua própria alma. Rejeição era sua sombra constante, um peso invisível que ela carregava todos os dias enquanto observava os filhos dos nobres das guildas rivais receberem elixires caros e treinamento personalizado. Para pessoas como ela, restava apenas o trabalho escravo e as sobras de comida que os cães de guarda recusavam. " Brutus inclinou-se para a frente, aproximando seu rosto desfigurado por cicatrizes de queimadura do de Aella, permitindo que ela sentisse o calor de sua respiração pesada. "E o que você tem, garota? Nada além de ossos fracos, um orgulho ridículo e uma teimosia estúpida que só vai levá-la a uma vala comum antes do final do inverno." Silêncio caiu sobre o pátio de treinamento novamente, quebrado apenas pelo som sibilante da chuva caindo sobre as grandes calhas de metal das forjas vizinhas. Os outros recrutas observavam, esperando ver a quebra definitiva do espírito de Aella, esperando que ela finalmente implorasse por misericórdia ou chorasse de desespero diante do mestre. Uma fúria silenciosa e implacável se expandiu no peito de Aella, preenchendo o vazio deixado pela humilhação. Não era uma raiva barulhenta ou descontrolada, mas uma chama fria, calculista e perigosa. Ela jurou a si mesma, naquele exato momento, que quebraria todas as correntes de sua origem humilde, não importando o preço que precisasse pagar. Ela jurou que se ergueria acima de Brutus, acima da Guilda do Punho de Ferro e acima do próprio Concílio das Guildas que governava o mundo com punho de ferro. Se o destino não lhe dera um caminho de herói, ela abriria o seu próprio caminho com as próprias mãos, mesmo que precisasse despedaçar as fundações do reino para isso. "Levante-se e limpe essa bagunça antes que eu decida usar suas costelas como lenha para os fornos de fundição," ordenou Brutus, virando as costas com desdém e caminhando em direção aos alojamentos aquecidos dos oficiais superiores. "Quero todas as cinzas da seção leste limpas e organizadas até o amanhecer. Se eu encontrar um único grão de poeira amanhã, você passará os próximos três dias trancada na cela de isolamento." --- Arrastando-se com dificuldade extrema, Aella forçou seus músculos exaustos a obedecerem ao comando de sua mente. Cada movimento parecia uma tortura indescritível, como se centenas de agulhas de gelo estivessem sendo cravadas diretamente em suas articulações e tendões desgastados. Ela conseguiu se ajoelhar e, finalmente, colocar-se de pé, recusando-se a usar as bigornas próximas como apoio para não dar aos recrutas restantes o prazer de vê-la hesitar. Ninguém estendeu a mão para ajudá-la a limpar a lama de suas roupas rasgadas ou a limpar o sangue que escorria de suas palmas feridas. Eles se dispersaram rapidamente quando a chuva aumentou de intensidade, correndo em direção ao calor relativo do refeitório comum e deixando-a sozinha no pátio escuro e fustigado pelo vento cortante da noite. Seus passos a levaram até os limites da grande forja central, onde o calor escaldante dos fornos gigantescos contrastava violentamente com o ar gelado da noite. O cheiro de enxofre e carvão queimado era forte o suficiente para fazer seus olhos lacrimejarem, mas ela ignorou o desconforto e começou a trabalhar com a pá de ferro pesada, recolhendo os detritos acumulados ao redor das bigornas de fundição. Enquanto recolhia os pedaços de escória e carvão do chão de pedra áspera, seus dedos calejados tocaram algo incomum sob a camada de poeira cinzenta. Era um fragmento retorcido de metal negro, pesado demais para o seu tamanho reduzido e estranhamente frio ao toque, apesar de estar cercado por cinzas ainda quentes. Sem pensar muito sobre o que estava fazendo, impulsionada por um instinto misterioso que parecia sussurrar diretamente em sua espinha dorsal, ela deslizou o fragmento metálico para dentro do bolso oculto de sua túnica desgastada. Ela não sabia por que o fizera, mas algo naquele objeto parecia chamá-la de forma silenciosa e inexplicável. Calor do metal queimou levemente contra sua pele através do tecido fino, mas a sensação de dor era insignificante comparada ao fogo de determinação que ardia em sua própria alma. Ela continuou seu trabalho meticuloso por horas a fio, limpando cada canto da seção leste até que suas mãos estivessem cobertas de bolhas dolorosas e seus pulmões ardessem devido à fumaça constante de carvão. Horas se passaram em um borrão de esforço físico e cansaço extremo que ameaçava apagar sua consciência a qualquer momento. Ela empurrou carrinhos pesados de escória, alimentou os fornos gigantescos que rugiam como monstros famintos e suportou o calor sufocante até que suas roupas estivessem completamente encharcadas de suor e fuligem negra. Finalmente, o som pesado do sino de bronze da fortaleza ecoou pelas torres de ferro, sinalizando o fim do turno de castigo e permitindo que os trabalhadores da casta mais baixa finalmente retornassem aos seus alojamentos. Ela largou a pá com as mãos trêmulas, sentindo os músculos de seus braços espasmarem de exaustão absoluta. Caminhando lentamente sob a chuva fina que agora caía sobre a fortaleza, ela sentia o peso de cada osso de seu corpo como se estivesse carregando montanhas inteiras sobre os ombros. O pátio estava deserto, transformado em um labirinto de sombras e poças de água negra que refletiam a luz fraca das tochas distantes. --- Espaço úmido e barulhento, o alojamento dos recrutas da casta inferior cheirava a suor antigo, mofo e desespero acumulado ao longo de gerações de trabalhadores descartáveis. Dezenas de beliches de madeira podre alinhavam-se ao longo das paredes de pedra bruta, onde jovens exaustos dormiam em posições desconfortáveis, alguns gemendo baixinho devido à dor das punições diárias. Nenhum dos outros jovens falou com ela ou mesmo olhou em sua direção quando ela entrou no quarto coletivo. Eles sabiam que associar-se a alguém marcado pela fúria pessoal de Brutus era uma sentença rápida de punição coletiva ou isolamento social, e ninguém ali podia se dar ao luxo de assumir riscos desnecessários. Aella preferia o silêncio deles ao desprezo disfarçado de simpatia que às vezes via nos olhos dos recrutas mais fracos. Ela caminhou em direção ao seu beliche estreito, situado no canto mais escuro e isolado do quarto, onde a goteira do teto não caía diretamente sobre o colchão de palha áspera e puída. Deitando-se de costas na cama desconfortável, ela respirou fundo, tentando acalmar os batimentos cardíacos acelerados e a queimação constante em seus pulmões exaustos. A raiva fria que havia despertado durante o dia ainda estava lá, brilhando como um núcleo de energia constante em sua mente, impedindo-a de se entregar ao desespero que consumia tantos outros naquele lugar. Ela enfiou a mão trêmula sob as cobertas ásperas e puxou o pedaço de metal negro que havia guardado mais cedo, sentindo seu contorno irregular contra a pele calejada de seus dedos. O objeto parecia pulsar levemente, uma vibração quase imperceptível que enviava arrepios de energia por seu braço. Ao retornar para seu barracão, um brilho estranho emana de um fragmento de metal que ela pegou sem querer: uma runa ancestral se acende, e uma voz sussurrante preenche sua mente: 'O Caminho se abre...'

End of Chapter 2