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Chapter 2: O Retorno Inesperado

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O sol já estava alto, um disco dourado e implacável no céu azul pálido, quando Baltazar finalmente se viu na estrada de terra batida que levava de volta a Aethelgard. Seus pés estavam doloridos, cada passo era um lembrete pulsante da longa noite e da manhã ainda mais longa. A velha espada que agora parecia uma extensão de seu braço, pendia ao seu lado, pesando mais do que ele se lembrava, ou talvez fosse apenas o cansaço. A bainha de couro puído roçava contra sua coxa a cada movimento, um som familiar que antes o confortava, mas agora apenas ressaltava a estranheza de tudo. Ele sentia o cabo da lâmina sob seus dedos, mesmo sem tocá-lo, uma sensação que se recusava a ir embora. A mente de Baltazar ainda zumbia com os fragmentos de conhecimento que a espada havia derramado em sua consciência. Equações complexas, diagramas de máquinas que ele nunca poderia ter imaginado, teorias sobre o universo que contradiziam tudo o que os sábios de Aethelgard ensinavam. Era como se um livro inteiro, escrito em uma língua desconhecida, tivesse sido despejado diretamente em seu cérebro, e ele agora tentava desesperadamente decifrar cada palavra. O fluxo constante de informações, embora fascinante, era exaustivo, uma corrente subterrânea que puxava sua atenção para longe do caminho e da realidade imediata. Ele passou a mão livre pelos cabelos castanhos claros, grudados na testa pelo suor. O vento que soprava do leste trazia consigo o cheiro de pinho e terra úmida, mas Baltazar mal percebia. Seus olhos, geralmente atentos à floresta circundante em busca de pequenos animais ou sinais de perigo, estavam agora fixos em um ponto distante da estrada, perdido em pensamentos. A cidade, com suas torres de pedra cinzenta e telhados de ardósia, começava a aparecer no horizonte, uma mancha familiar que deveria trazer alívio, mas que, estranhamente, trazia uma nova camada de apreensão. Como ele explicaria tudo isso? A espada, a sensação de poder que ela trazia, as vozes, as imagens... seria ele o único a vê-las e senti-las? Ou haveria outros? A pergunta pairava em sua mente, um eco persistente. O mundo dele, que antes era tão simples, focado em caça, nas pequenas disputas da aldeia e nos ensinamentos dos anciãos, agora se expandia em uma miríade de possibilidades e perigos. A velha espada que ele havia encontrado, enferrujada e esquecida, era a chave para algo muito maior, algo que ele ainda não compreendia completamente. Um leve formigamento na ponta dos dedos fez Baltazar estremecer. A espada parecia vibrar suavemente, um pulso quase imperceptível que ele sentia através do couro da bainha. Era um lembrete silencioso, uma confirmação de que sua mente não estava pregando peças. O artefato era real, e o que ele havia experimentado também. Ele acelerou o passo, sentindo uma urgência crescente. Precisava chegar a Aethelgard, precisava de um lugar seguro para processar tudo, para entender o que estava acontecendo com ele. --- Os portões de Aethelgard se erguiam imponentes, as pesadas tábuas de carvalho reforçadas com ferro, manchadas pelo tempo e pelas intempéries. Os guardas, dois homens com armaduras de couro e lanças pontiagudas, estavam em seus postos, seus rostos entediados e suas posturas relaxadas, uma cena tão comum que Baltazar quase sorriu. Quase. A familiaridade da cena contrastava agudamente com a tempestade em sua mente. Quando se aproximou, um dos guardas, um homem corpulento com uma barba ruiva emaranhada, o reconheceu. "Ora, se não é Baltazar! Pensei que os lobos tivessem te devorado lá fora, meio-elfo. Demorou mais que o usual na sua 'primeira grande caçada'." Ele soltou uma risada rouca, e o outro guarda ecoou, batendo a ponta da lança no chão de pedra. Baltazar sentiu o calor subir ao seu rosto. A provocação era esperada, uma parte constante da vida como meio-elfo em uma vila humana. Ele era aceito, sim, mas sempre com um pé atrás, sempre um pouco diferente. "Os lobos teriam de ser muito ousados para me encarar, Theron," Baltazar respondeu, sua voz um pouco mais áspera do que ele pretendia. Ele não tinha energia para as habituais brincadeiras. A espada pulsou novamente, uma sensação sutil que o deixou ainda mais tenso. Theron estreitou os olhos, notando a falta de humor na resposta de Baltazar. Ele deu um passo à frente, sua lança balançando ligeiramente. "Que espada é essa, Baltazar? Não me lembro de você carregando uma relíquia tão... enferrujada." Seus olhos percorreram a lâmina até o cabo, uma expressão de curiosidade misturada com desconfiança em seu rosto. A lâmina, embora limpa, ainda tinha o aspecto de algo antigo, desgastado, mas agora havia uma aura estranha, quase imperceptível, que a distinguia. Baltazar colocou a mão protetoramente sobre o cabo da espada, um gesto instintivo. "É uma velha lâmina que encontrei. Nada de mais." Ele tentou soar casual, mas sua voz traiu a tensão que sentia. Cada fibra de seu ser gritava para proteger o artefato, para não revelar o que ela realmente era, ou o que havia feito a ele. O segredo era muito grande, muito novo, e a incerteza de como seria recebido o impedia de ser honesto. O segundo guarda, um jovem com um rosto sardento chamado Kael, se aproximou, olhando para a espada com interesse. "Ela parece... antiga. E o cabo brilha de um jeito estranho, não acham?" Ele apontou para os símbolos gravados no punho, que Baltazar agora percebia estarem emitindo um brilho quase imperceptível, como se tivessem sido polidos por dentro. Sua mente correu para a visão dos diagramas, das equações, dos conceitos de energia que a espada lhe transmitira. Seria aquilo uma manifestação dessa energia? Theron deu um bufo. "Deve ser o sol batendo nela, Kael. Ou a imaginação de Baltazar. Mas falando em brilho, você está mais pálido que o normal, garoto. A caçada foi assim tão difícil? Ou viu um fantasma na floresta?" O tom era de escárnio, mas havia uma ponta de preocupação na voz de Theron. Baltazar, geralmente resistente e cheio de vitalidade, parecia exausto, com olheiras profundas sob os olhos e uma postura curvada. "Estou apenas cansado," Baltazar disse, forçando um sorriso fraco. "Foi uma longa noite. Preciso de um banho e algo para comer." Ele tentou passar pelos guardas, esperando que a conversa terminasse ali. Ele só queria a paz de seu pequeno quarto, para pensar, para absorver tudo. A cada momento que a espada estava exposta, a cada pergunta, o risco aumentava. --- Finalmente livre dos olhares curiosos dos guardas, Baltazar caminhou pelas ruas estreitas de Aethelgard. As casas de pedra e madeira se amontoavam, seus telhados inclinados quase se tocando em alguns pontos. O cheiro de pão fresco misturava-se com o de fumaça de lareira e o aroma terroso de ervas secando nas janelas. Crianças corriam pelas ruas de paralelepípedos, suas risadas ecoando entre os edifícios, e mercadores anunciavam seus produtos com vozes estridentes. Era um som reconfortante, a vida cotidiana da cidade, mas para Baltazar, parecia distante, como se ele estivesse observando tudo de trás de um véu. Cada rosto que ele via, cada pessoa com quem cruzava, parecia observá-lo com um olhar um pouco mais longo, um pouco mais curioso. Será que a mudança era tão óbvia? Será que a espada alterara sua própria essência de alguma forma visível? Ele se perguntava se as vozes em sua cabeça, os fragmentos de conhecimento, eram audíveis para mais alguém. O pensamento o fez sentir-se exposto, vulnerável. Ele puxou o capuz de seu manto, um gesto que normalmente não faria dentro da cidade, mas que agora parecia uma necessidade urgente. Ele apressou o passo, ignorando os olhares e os murmúrios que podia sentir em suas costas. Seu destino era a casa de seu mentor, o velho Elara, um erudito recluso que passava seus dias entre pergaminhos e livros empoeirados. Elara era a única pessoa em Aethelgard que Baltazar confiava o suficiente para talvez compartilhar seu segredo, a única que ele acreditava que não o julgaria como louco ou o baniria da cidade. Se alguém pudesse entender, seria Elara. Se alguém pudesse explicar, seria Elara. Quando chegou à porta de madeira escura da casa de Elara, Baltazar hesitou. A madeira era gasta, a aldrava de ferro envelhecida pelo tempo. Seu coração batia forte contra as costelas, uma batida rítmica que ecoava a pulsação da espada em sua cintura. E se Elara também não acreditasse nele? E se o rechaçasse? A perspectiva de estar completamente sozinho com esse fardo era assustadora. Ele ergueu a mão, mas antes que pudesse bater, a porta se abriu de repente, revelando o rosto enrugado de Elara. Os olhos do velho, geralmente calorosos e acolhedores, estavam arregalados, fixos em Baltazar com uma intensidade que o fez recuar um passo. A barba branca de Elara estava um pouco desalinhada, e seus robes de linho, geralmente impecáveis, pareciam ter sido vestidos às pressas. "Baltazar!" Elara exclamou, sua voz rouca, quase um sussurro, mas carregada de uma urgência palpável. Ele estendeu uma mão ossuda, os dedos tremendo ligeiramente. "Você está diferente... Eu senti. O que aconteceu lá fora? O que você trouxe de volta?" Os olhos de Elara caíram sobre a bainha da espada, e Baltazar viu o reconhecimento, uma faísca de algo antigo e temível, acender neles. O velho erudito parecia saber, sem que uma única palavra tivesse sido dita, que a vida em Aethelgard nunca mais seria a mesma, e que a antiga lâmina que Baltazar carregava era a causa de tudo. O brilho no cabo da espada intensificou-se, um pulso vibrante que agora era visível para Elara, e talvez para quem mais estivesse observando. Um arrepio frio percorreu a espinha de Baltazar. Ele sentiu que a espada não era apenas um artefato antigo, mas uma entidade que agora se comunicava não apenas com ele, mas com o mundo ao seu redor, e a revelação desse poder era apenas o começo de um segredo muito maior que ele mal começava a compreender. O que Elara sabia? E o que a espada queria revelar agora para ambos?

End of Chapter 2

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