Chapter 1 of 1

Capítulo 1: O Pesadelo Começa

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Risadas ecoavam pela sala 103, um som que logo se tornaria uma lembrança agridoce. Lory jogou a cabeça para trás, o som melodioso preenchendo o espaço entre as mesas de madeira escura. Luka, ao seu lado, segurava a barriga, os ombros tremendo com o esforço de conter o riso. Os olhos de Lory brilhavam com uma energia contagiante, o cabelo castanho-claro caindo sobre seu rosto enquanto ela se inclinava. "Um teste surpresa de química?" Lory ofegou, limpando uma lágrima do canto do olho. "Você acha que a Professora Clara faria isso com a gente?" "Depois daquele experimento de explosão de vulcão dela? Absolutamente", Luka respondeu, ainda rindo, tentando pegar fôlego. Seus olhos verdes encontraram os de Lory, e uma nova onda de riso os atingiu. A vida era simples, cheia de pequenas preocupações e grandes amizades. Professor Costa, parado à frente da classe, pigarreou. Sua voz, geralmente monótona e cheia de informações sobre a história antiga, parecia estranhamente forçada. Ele segurava um giz, mas seus dedos tremiam ligeiramente, uma anomalia para o professor sempre calmo e controlado. Lory parou de rir, um arrepio súbito e inexplicável subindo sua espinha. Algo parecia errado. O ar na sala de aula, que momentos antes era leve e divertido, agora parecia pesado, denso, carregado de uma tensão invisível. Um gemido baixo e arrastado escapou dos lábios do Professor Costa. Não era um som humano. Parecia rasgado, animalesco, como se viesse de algum lugar profundo e agonizante. Seus olhos, antes cansados e gentis por trás dos óculos, começaram a escurecer de forma perturbadora. Uma sombra profunda e antinatural engoliu as pupilas, transformando-as em poços sem fundo, vazios de qualquer humanidade. Sua cabeça se inclinou para o lado, um estalo seco e nauseante ecoando pelo silêncio repentino da sala, fazendo alguns alunos encolherem-se. Alguém na frente, a jovem Mariana, soltou um grito abafado, os olhos fixos no professor. Professor Costa se virou lentamente, um rosnado gorgolejante borbulhando em sua garganta. Seu pescoço estava em um ângulo impossível, quase quebrado, a pele esticada e pálida. A cor de seu rosto começou a esvair-se, deixando um tom ceroso, doentio, quase cadavérico. Então, ele se lançou. Uma velocidade chocante para um homem de meia-idade, uma força bruta que parecia irreal. Mariana não teve tempo de reagir. O Professor Costa a derrubou com um impacto violento. Um som úmido, horrível, preencheu a sala, aterrorizante e inconfundível. Gritos irromperam, o pânico explodindo entre os alunos. Lory viu o vermelho. O sangue. O corpo de Mariana convulsionando sob o professor, que agora rasgava e mordia com uma ferocidade insana. Terror puro. Gelado. Ele a atingiu como um soco no estômago, roubando-lhe o ar. Sua risada de segundos atrás evaporou. A fachada alegre de Lory se estilhaçou em mil pedaços, substituída por uma onda primal de medo e desespero. Ela viu a carne sendo rasgada, o líquido escarlate manchando o chão. A mente de Lory gritou em negação, mas seus olhos mostravam a verdade brutal e inegável. Luka estava congelado ao seu lado. Olhos arregalados, boca aberta, incapaz de processar o horror diante deles. Um instinto primal assumiu o controle de Lory. Proteger. Luka. "Corre! Agora!" Lory gritou, sua voz rasgada pela adrenalina e pelo choque. Ela empurrou Luka com toda a sua força em direção à porta da sala de aula. Ele cambaleou, finalmente se mexendo, os músculos rígidos se soltando. Outros alunos se levantavam, empurrando, gritando, uma massa caótica de corpos tentando escapar do predador que antes era seu professor. Caos. Pânico generalizado se espalhou como um incêndio incontrolável. O Professor Costa, ainda sobre Mariana, ergueu a cabeça. Seus olhos negros fixaram-se em Lory, um novo tipo de fome, selvagem e insaciável, neles. Ele estava vindo para ela. Para eles. --- Luka tropeçou, mas recuperou o equilíbrio, seus olhos desesperados fixos no corredor. Lory agarrou sua mão, seus dedos frios e suados, arrastando-o pela multidão de corpos em choque. A sala de aula, antes um santuário de aprendizado, agora era um inferno pessoal, um palco para a barbárie. Gritos, choros, o som repulsivo de carne sendo rasgada e ossos estalando ecoavam em seus ouvidos. Eles se espremeram entre as carteiras viradas, evitando os braços estendidos de colegas em choque. Um colega, Marcos, tentou puxar Lory, seus olhos fixos em um ponto distante. Seu rosto estava branco, os lábios tremendo incontrolavelmente. Ela o empurrou para longe, não havia tempo para hesitar, para salvar a todos. A culpa já começava a se instalar, mas a sobrevivência era tudo. O corredor externo já estava em pandemônio, um turbilhão de corpos em movimento desordenado. Corpos tombavam. Gritos. Uma confusão de vozes, algumas humanas, outras... não, um coro gutural e faminto. Um professor de educação física, forte e atlético, agora cambaleava, sua pele cinzenta e suas roupas manchadas. Ele investiu contra um grupo de alunos perto dos armários, seus movimentos descoordenados, mas cheios de uma intenção assassina. Lory puxou Luka para a direita, para longe da carnificina, o coração batendo descontroladamente. Sua cabeça girava. O que estava acontecendo? Isso não era real. Não podia ser real. Mas o cheiro metálico de sangue, o som dos ossos se partindo, os gritos que não cessavam... era real demais para ser um pesadelo. Luka engasgou, a mão de Lory apertada na sua com uma força quase dolorosa. Seu rosto estava pálido, os lábios azuis. "Lory, o que é isso? O que está acontecendo?" Não havia resposta fácil. Havia sequer uma resposta? "Não sei, Luka. Só corre!" Lory gritou de volta, sua própria voz mal audível acima do barulho. Eles viraram à esquerda, em direção à escadaria de emergência, uma rota de fuga que agora parecia a única esperança. O barulho da escola, geralmente um burburinho animado de conversas e risadas, agora era uma cacofonia de horror, uma sinfonia de gritos e grunhidos. Alarmes de incêndio soavam intermitentemente, adicionando ao caos, distorcendo a realidade. Lory sentia o coração martelar nas costelas, cada batida era um aviso, um lembrete da fragilidade de suas vidas. Desciam os degraus aos tropeços, quase caindo a cada curva. Outros alunos os seguiam, alguns chorando histericamente, outros em choque total. A escada estava escura, as luzes piscando e tremeluzindo, aumentando a sensação de apocalipse iminente. No andar de baixo, mais gritos, mais horrores. Um zelador, seu uniforme rasgado e manchado, arrastava-se pelo chão, seus movimentos espasmódicos e não naturais. Sua perna estava torcida em um ângulo bizarro, a carne exposta. Seu olhar era vazio, mas sua mandíbula estalava incessantemente, como a de um animal faminto. Lory puxou Luka para trás de uma pilha de caixas de armazenamento, o pó e o cheiro de papel velho invadindo suas narinas. Seus pulmões ardiam. Precisavam de um plano. Precisavam de ar. Precisavam de um segundo para pensar. "Temos que sair daqui", Luka sussurrou, a voz rouca e trêmula, quase inaudível. Lory assentiu, os olhos percorrendo o ambiente freneticamente. A porta principal? Impossível. Estava lá embaixo, no meio da confusão, um mar de corpos e criaturas. As janelas do térreo? Talvez. Mas elas eram grades, reforçadas, projetadas para manter as pessoas dentro, não para deixá-las sair. Um estrondo alto e reverberante veio de cima. A porta da sala 103. O Professor Costa. Ele não havia desistido. Ele os estava seguindo. Ou talvez apenas estava avançando, devorando tudo em seu caminho. A ideia a fez tremer incontrolavelmente. O antigo Professor Costa, um homem gentil, que contava piadas ruins sobre a Segunda Guerra Mundial, transformado em um monstro sem alma. O rosto sorridente de Mariana, agora uma memória manchada de sangue, assombrava seus pensamentos. Lory apertou os punhos, as unhas cavando a palma da mão. Não. Ela não falharia. Não podia. Eles se esgueiraram pela lateral, passando pela cozinha da escola. Panelas e frigideiras jaziam no chão, comida espalhada e pisoteada. Um dos cozinheiros, uma mulher baixinha e alegre que sempre oferecia biscoitos, jazia caída, seu corpo inerte. Lory desviou o olhar, sentindo uma pontada de náusea e dor. Mais uma. A porta dos fundos da cozinha. Talvez fosse uma saída. Ela tentou a maçaneta. Trancada. Luka chutou-a com força, o som reverberando, mas o metal não cedeu, forte e impenetrável. Um rosnado grave e arrastado veio do corredor principal, próximo à cozinha. O Professor Costa. Ele estava perto. O som era inconfundível, um aviso de morte iminente. Lory pensou rápido, sua mente em turbilhão. O que havia nas aulas de química? Ácido? Não, muito perigoso. Mas a aula de educação física, as ferramentas da oficina do zelador... não havia tempo. Precisavam de uma barreira. Agora. --- Correram de volta para o corredor principal, mas na direção oposta, para o leste, onde ficavam as salas de aula de línguas. A esperança de Lory era que estivessem mais vazias, menos perigosas. Pelo menos para encontrar um lugar seguro por um momento, para respirar. A cada passo, o pânico aumentava, uma bola de gelo crescendo em seu estômago. Seus sapatos escorregavam no líquido vermelho no chão, o ar pesado com o cheiro de suor, medo e sangue. Luka tropeçou novamente, quase caindo de joelhos, seus movimentos erráticos. Lory o segurou firme, seu aperto inabalável. "Fica comigo, Luka. Por favor, não desiste." Ele acenou com a cabeça, os olhos arregalados, lutando para manter-se de pé. A sala de aula de Francês. A porta estava entreaberta, convidando-os para dentro. Um vislumbre de mesas viradas, cadeiras derrubadas. Ninguém à vista. Poderia ser uma armadilha, mas era a única chance que tinham. Lory empurrou a porta com cautela, espiando para dentro, seu coração na garganta. Vazio. Por enquanto. Eles entraram, Lory fechando a porta com um baque surdo que parecia alto demais no silêncio repentino. Ela girou a chave, travando-a, mas sabia que não duraria. O Professor Costa era forte. Brutal. Lory e Luka escorregaram para o chão, as costas contra a porta de madeira, os olhos fixos na entrada. O silêncio na sala era ensurdecedor, quebrado apenas pela respiração ofegante e rápida deles. Sons abafados de fora, o horror continuando sem parar, mas por um momento, eles estavam a salvo. Ou tão a salvo quanto podiam estar. Luka começou a tremer incontrolavelmente, um soluço escapando de seus lábios. Lory o puxou para um abraço apertado, seu corpo magro contra o dele. Ela sentia as batidas aceleradas do coração dele, o terror irradiando de cada poro. O dela não estava muito diferente, uma batida frenética e irregular. Sua mente correu, processando as informações, tentando encontrar uma solução. O que fariam? Para onde iriam? Sua vida alegre, despreocupada, de repente uma memória distante, um sonho desfeito. O riso de minutos atrás, a piada sobre o teste de química... pareciam séculos. Um golpe forte na porta. Um som úmido. Madeira rachando. Eles pularam, o pânico ressurgindo. O Professor Costa. Ele os havia encontrado. Lory olhou para a porta, uma linha tênue de luz vindo da rachadura. A madeira não aguentaria muito mais. O reforço da porta da sala de aula era mínimo, feito para privacidade, não para segurança contra um monstro. Ela procurou algo, qualquer coisa, para barricar, para ganhar tempo. Uma mesa de professor pesada estava no canto, cheia de livros e papéis. Correram para a mesa, os músculos doendo com o esforço, cada movimento um peso. Luka puxou um lado, Lory o outro. Arrastaram o móvel pesado, o arrastar alto no silêncio tenso da sala. Outro golpe na porta. Mais forte desta vez, fazendo a estrutura inteira tremer. Uma rachadura longa e irregular apareceu na madeira, estendendo-se como uma teia de aranha que se desintegrava. Eles conseguiram posicionar a mesa contra a porta, empurrando-a com o peso de seus corpos, usando a força do desespero. Um alívio momentâneo. Mas não duraria. O Professor Costa bateu novamente. E novamente. A madeira começou a ceder de forma assustadora, lascas voando para dentro da sala. Lory sentia a mesa vibrar contra ela, a madeira estalando sob a pressão. Ela precisava pensar. Precisava de uma saída. A janela? Alta demais. E as grades de ferro, uma barreira intransponível. Havia uma sala de armazenamento no fundo da sala, uma pequena despensa. Talvez algo lá? Ferramentas? Um esconderijo? Uma esperança frágil. Lory empurrou Luka na direção da pequena porta de madeira. "Vê se há algo lá, qualquer coisa que possamos usar", ela sussurrou, a voz tensa e rouca. Ele acenou, tremendo, e abriu a porta do armário. Um pequeno espaço, cheirando a giz e papel velho, apertado e claustrofóbico. Luka vasculhou rapidamente, seus dedos tremendo ao tocar os objetos. Enquanto ele procurava, Lory mantinha os olhos fixos na porta principal, na rachadura que crescia. A cada golpe, a estrutura gemia, um lamento de morte. A luz fraca da sala parecia diminuir a cada impacto, engolida pela escuridão que vinha de fora. Um pedaço de madeira se soltou, revelando um buraco escuro, um olho na escuridão. Lory engoliu em seco, sentindo o terror gelar sua espinha. Conseguia ouvir um rosnado mais próximo agora, mais nítido, mais real. O cheiro. Agora podia sentir o cheiro dele. Mofo. Sangue. Algo putrefato e adocicado, nauseabundo. O Professor Costa estava do outro lado, determinado. Ele sabia que estavam ali. Seus olhos negros estavam fixos nela, Lory tinha certeza, mesmo através da madeira quebrada. Luka voltou, balançando a cabeça em negação, seus olhos marejados. "Nada. Só livros velhos, material de limpeza e alguns potes de tinta. Não serve pra nada." Sua voz estava quebrada, cheia de desespero. O desespero começou a apertar o peito de Lory, uma morsa gelada. Ela não podia falhar. Não podia deixar Luka morrer. Ela era a líder. A alegre. A que sempre encontrava uma solução, que mantinha o otimismo. Mas agora, o sorriso se foi. A alegria, uma miragem distante. Apenas o terror e a determinação implacável. O Professor Costa golpeou novamente, um som de madeira estilhaçando que a fez sobressaltar. Um pedaço maior de porta se rompeu, voando para dentro da sala como um projétil. Um vislumbre do punho mutante do Professor. A pele esverdeada, pálida, com veias grossas e pulsantes, unhas negras e quebradas que pareciam garras. Lory puxou Luka para mais perto, usando seu corpo como um escudo improvisado, um instinto primordial. Não havia para onde ir. Não havia mais nada a fazer. O Professor Costa rugiu. O som era gutural, vindo do fundo de sua garganta, cheio de uma raiva insana, irracional. Ele estava se esforçando, querendo entrar, consumi-los. Lory sentiu a mesa se mover um pouco, arrastando-se pelo chão. Eles não conseguiriam segurá-lo por muito mais tempo, a barreira era ineficaz. Ela precisava fazer algo. Qualquer coisa. Um estalo alto e seco. O som de vidro se partindo, estilhaçando. Lory olhou para a porta, os olhos arregalados, seu coração quase parando. A maçaneta de vidro, que decorava o centro da porta, havia cedido sob a força implacável. Não era a maçaneta real, mas um ornamento frágil que agora estava em pedaços. O Professor Costa havia forçado o braço através do buraco, sem se importar com a dor. Seu punho. Seu punho mutante estava dentro da sala. Ensanguentado, grotesco, pulsando com uma energia maligna. Os dedos do Professor se contorciam lentamente, estendendo-se, buscando, arranhando o ar. A poucos centímetros do rosto de Lory. Seus olhos, visíveis através do buraco no vidro quebrado, estavam fixos nela. Uma fome insaciável.

End of Chapter 1

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